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Ano: 2011  Vol. 15   Num. 1  - Jan/Mar Print:
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Rudo em Consultrios Odontolgicos pode Produzir Perda Auditiva?
Can Noise in Dental Clinic Produce Hearing Loss?
Author(s):
Edmir Amrico Loureno1, Janana Medina da Rocha Berto2, Svio Butignolli Duarte3, Joo Paulo Martins Greco4.
Palavras-chave:
rudo ocupacional, ambiente de trabalho, odontologia, instrumentos odontolgicos, perda auditiva.
Resumo:

Introduo: A perda auditiva sensorial e irreversvel induzida por rudo a maior causa ocupacional evitvel de perda auditiva no mundo. Os dentistas so profissionais da sade expostos a rudos provenientes dos equipamentos em seus consultrios e podem sofrer perdas auditivas. Objetivo: Medir intensidades de rudo emitidas pelos motores de alta rotao (mar) utilizados em consultrios odontolgicos pblicos e privados, verificar se so lesivas para a orelha humana e comparar os resultados obtidos entre estes servios. Mtodo: Estudo de srie, prospectivo, com medidas das intensidades de rudo em dBNA com um decibelmetro Minipa MSL-1352C, USA em quatro consultrios odontolgicos do servio pblico e quatro particulares em Jundia-SP, inicialmente do rudo ambiental basal em cada consultrio, durante cinco minutos e depois, do rudo emitido pelo motor de alta rotao(mar) em funcionamento durante cinco minutos para obter-se as mdias. Resultados: Pblicos: 1) basal=56,4dB; mar=77,2dB. 2) basal=61,7dB; mar=73,7dB. 3) basal=61,07dB; mar=75,04dB. 4) basal=63,6dB; mar=77,3dB. Particulares: 1) basal=60,7dB; mar=79,1dB. 2) basal=60,7dB; mar=83,1dB. 3)basal=58,4dB; mar=75,5dB. 4)basal=63dB; mar=76dB. Concluses: As intensidades aferidas de rudo emitido por motores de alta rotao utilizados em consultrios odontolgicos pblicos e privados encontram-se abaixo dos limites nocivos sade auditiva. No servio pblico, a intensidade de rudo basal superior dos consultrios particulares, contudo a dos motores de alta rotao maior nos consultrios particulares.

INTRODUO

A perda auditiva induzida por rudo (PAIR) uma perda auditiva neurossensorial, predominantemente coclear, de caracterstica irreversvel. Esta doena ocorre devido a uma histria prolongada de exposio ao rudo de alta intensidade e tem evoluo gradual e progressiva. A perda auditiva ocorre quando h uma impossibilidade de recepo do som por leso das clulas ciliadas da cclea e inicia-se em frequncias altas, geralmente em 4000 Hz (quatro quilohertz). Cessada a exposio ao rudo, a perda auditiva tende a se estabilizar.

A PAIR atinge inicialmente frequncias agudas, sendo que as primeiras dificuldades surgidas so de ouvir campainhas e toques de telefone. Posteriormente, com o avano da doena, surgem as dificuldades em todas as frequncias, por isso o diagnstico muitas vezes tardio.

Esta a doena ocupacional de maior incidncia e a maior causa evitvel de perda auditiva no mundo, segundo LOPES FILHO e CAMPOS (1). Os controles auditivos peridicos de indivduos expostos, bem como os nveis de intensidade sonora permitidos por 8 horas de exposio dirias ao rudo so no mximo de 85 decibels e esto bem regulamentados, conforme o anexo I das normas regulamentadoras nmeros 7 e 15 da Legislao Trabalhista Brasileira, como est exemplificado na Tabela 1 (2,3).

Os odontologistas so profissionais da sade expostos a diversos rudos em seus consultrios, produzidos e emitidos por canetas de alta e baixa rotao, sugador, compressor, cuspideira, pea reta, fotopolimerizador, autoclave e ar condicionado, contudo so as primeiras as consideradas como tendo maior potencial lesivo orelha humana. Em virtude disso, diferentes estudos tm analisado a relao entre a intensidade dos rudos no consultrio odontolgico, a carga horria do profissional, o tempo de atividade profissional e a perda auditiva nesses profissionais (4). O que se constata na maioria deles que, mesmo expostos a nveis de intensidade sonora menores que 85 decibels, mas com tempo de exerccio de profisso superior a cinco anos, apresentam perdas auditivas (5,6).

Para prevenir o desencadeamento ou agravamento da perda auditiva ocupacional, deve ser realizado um controle audiolgico anual atravs de no mnimo uma audiometria, alm de proteo individual. Abaixo temos na Tabela 1 o Anexo I da Norma Regulamentadora nmero 15, que estabelece os limites de tolerncia para rudo contnuo ou intermitente (3).

Os objetivos deste trabalho so: 1) medir intensidades de rudo em consultrios odontolgicos pblicos e privados, provenientes das canetas movidas por motor de alta rotao e o rudo basal ambiental, verificar se apresentam intensidades lesivas para a orelha humana; 2) comparar os resultados obtidos entre o servio pblico e privado.


MTODO

Os locais de medio foram consultrios odontolgicos de Unidades Bsicas de Sade (UBS) ou outros servios pblicos e consultrios particulares em Jundia, Estado de So Paulo, Brasil, nos quais o profissional, o auxiliar e o paciente esto expostos diariamente, aps contato e concordncia dos envolvidos. Protocolado no SISNEP, o trabalho obteve aprovao do Comit de tica em Pesquisa da Instituio de Ensino sob nmero 314/2008. Foi realizada a medio da intensidade do rudo em quatro consultrios odontolgicos do sistema pblico de sade e em quatro consultrios particulares. Para a medio, foi utilizado um decibelmetro marca Minipa, modelo MSL-1352C, procedncia USA, configurado da seguinte forma: tempo de resposta lento (slow), que mediu o nvel de rudo em decibels (dBNA), com escala de 30 a 130 dB, por um perodo de cinco minutos, a uma distncia de vinte centmetros da caneta e do motor de alta rotao, das marcas Dabi Atlante, Kavo, e Micro Dente, utilizadas pelos diferentes profissionais em seus consultrios. Foi medida inicialmente a intensidade do rudo ambiental em cada consultrio, durante cinco minutos e a esse valor denominou-se Basal. Em seguida, foi feita a medio da intensidade do rudo emitido pelo equipamento citado, tambm por cinco minutos. Nestas duas situaes, foi calculada a mdia em decibels da intensidade de rudo.

No foi realizada anlise estatstica dos resultados, devido ao tipo de registro grfico do decibelmetro utilizado e ao fato de que o objetivo principal do estudo foi o de determinar se as intensidades aferidas seriam lesivas para a orelha humana.


RESULTADOS

Consultrios odontolgicos do sistema pblico de sade de Jundia (Grfico 1):

1. Basal, com rudo ambiental (conversao): mdia de 56,4 dB. Motor de alta rotao (Dabi Atlante, tempo de uso de quatro anos e meio, tempo de exposio de 3 horas dirias), mdia de 77,2 dB;

2. Basal, com rudo ambiental (conversao, ventilador, e consulta na cadeira ao lado): mdia de 61,7 dB. Motor de alta rotao (Dabi Atlante, tempo de uso de quatro anos, tempo de exposio de 4 horas dirias), mdia de 73,7 dB;

3. Basal, com rudo ambiental (conversao): mdia de 67,1 dB. Motor de alta rotao (Kavo, tempo de uso indefinido, tempo de exposio um tero da carga horria do profissional), mdia de 75,0 dB;

4. Basal, com rudo ambiental (rdio e ventilador): mdia de 63,6 dB. Motor de alta rotao (Kavo, tempo de uso superior a um ano, tempo de exposio indefinido), mdia de 77,3 dB.

Consultrios odontolgicos particulares de Jundia (Grfico 2):

1. Basal, com rudo ambiental (conversao, sugador, som ambiente): mdia de 60,7 dB. Motor de alta rotao (Kavo, tempo de uso de um ano, tempo de exposio de trs horas dirias), mdia de 79,1 dB;

2. Basal, com rudo ambiental (conversao, sugador, som ambiente): mdia de 60,7 dB. Motor de alta rotao (Kavo, tempo de uso de cinco anos, tempo de exposio de cinco horas dirias), mdia de 83,1 dB;

3. Basal, com rudo ambiental (Ar condicionado, sugador e conversao): mdia de 58,4 dB. Motor de alta rotao (Kavo, tempo de uso de dois anos, tempo de exposio de trs horas dirias), mdia de 75,5 dB;

4. Basal, com rudo ambiental (som ambiente, conversao, sugador): mdia de 63,0 dB. Motor de alta rotao (Micro Dente, tempo de uso de cinco anos, tempo de exposio de trs horas dirias), mdia de 76,0 dB.






DISCUSSO

A preocupao com as perdas auditivas de origem ocupacional se deve ao fato de que essa a doena ocupacional de maior incidncia e a maior causa evitvel de perda auditiva no mundo. Cessada a exposio ao rudo, tende a se estabilizar, sendo portanto a deteco da mesma a ao profiltica mais efetiva. Rudos emitidos por eletrodomsticos, que foram motivo de preocupao das autoridades no passado quanto manuteno da sade auditiva nos lares, restaurantes e demais locais onde so utilizados esses aparelhos, tm se reduzido com o aperfeioamento tecnolgico (7). Assim tambm os antigos motores de alta rotao de uso odontolgico apresentavam teto sonoro superior a 85 decibels e h muitos trabalhos na literatura comprovando perdas auditivas nesses profissionais, contudo os modernos, sob manuteno tcnica peridica e adequadamente lubrificadas, apresentam nvel de rudo inferior a 85 decibels, segundo SCULLY et al (5), achado coincidente com o que observamos nos equipamentos analisados. O Grfico 1 mostra as intensidades mdias em decibels de rudo basal e dos motores de alta rotao aferidos nos consultrios odontolgicos do servio pblico no municpio de Jundia -SP e o Grfico 2 mostra os mesmos achados em consultrios odontolgicos particulares no municpio de Jundia - SP, podendo-se observar que nenhum dos valores extrapola o limite de 85 dB. Mesmo que consideremos que os profissionais podem ter outros locais de atuao e estes achados correspondam a um nico perodo de trabalho, o mximo preconizado pela Norma, que de 85 dB, considerado para 8 horas de exposio contnua. Tais achados nos animam, por estarem de acordo com a Legislao Brasileira. Esta confirmao nos tranquiliza sob o aspecto preventivo das perdas auditivas ocupacionais em profissionais da rea odontolgica, at alguns anos atrs motivo de grande preocupao dos profissionais da rea de medicina preventiva (4). Quanto somatria das mdias de rudo basal e dos motores de alta rotao, os Grficos 3 e 4 comparam os achados nos consultrios odontolgicos de servios particular e pblico no municpio de Jundia - SP, demonstrando que o rudo basal mdio foi 2,4% maior no servio pblico devido ao rudo ambiental elevado, enquanto o rudo mdio dos motores de alta rotao foi 3,3% maior nos consultrios das clnicas privadas. Por esse motivo, devem ainda ser realizados esforos para que sejam abandonados e trocados todos os equipamentos odontolgicos arcaicos.

Apesar de existirem trabalhos que sugerem perdas auditivas em dentistas expostos a rudos inferiores a 85 dB, os rudos emitidos pelos equipamentos aferidos neste trabalho esto dentro dos limites aceitos para no causar PAIR, conforme a Legislao Brasileira, possibilitando readequaes profissionais quanto ao seu tempo de exposio.



Grfico 1. Intensidades mdias em decibels do rudo basal e dos motores de alta rotao aferidos em quatro consultrios odontolgicos do servio pblico em Jundia - SP.




Grfico 2. Intensidades mdias em decibels de rudo basal e dos motores de alta rotao aferidos em quatro consultrios odontolgicos particulares em Jundia - SP.




Grfico 3. Comparao entre a somatria das mdias do rudo basal de consultrios odontolgicos de servios particular e pblico em Jundia -SP.




Grfico 4. Comparao entre a somatria das mdias de rudo dos motores de alta rotao de consultrios odontolgicos de servios particular e pblico em Jundia -SP.




CONCLUSES

1. As intensidades de rudo aferidas, provenientes dos equipamentos utilizados nos consultrios odontolgicos, tanto pblicos quanto privados, encontram-se abaixo dos limites considerados nocivos sade auditiva.

2. No servio pblico, a intensidade de rudo basal superior dos consultrios particulares, contudo a dos motores de alta rotao maior nos consultrios particulares.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. Lopes Filho O, Campos CAH. Tratado de Otorrinolaringologia. So Paulo, Roca, 1994. p.941.

2. www.mte.gov.br/legislao/normas_regulamentadoras/nr_07_.pdf

3. www.mte.gov.br/legislao/normas_regulamentadoras/nr_15_.pdf

4. Trucco RE. Traumatismo acstico del odontlogo. Rev Fed Odontol Colomb. 1985, 34(151):103-10.

5. Scully C. Occupational hazards to dental staff. Br Dent J. 1991, 171:237-44.

6. Ruschel CV, Ziembowicz LAB, Sleifer P, Mattos AP. Perda auditiva induzida pelo rudo em cirurgies-dentistas. Rev Bras Odontol. 2005, 62(1,2):25-7.

7. Toledo RN et al. Medida do nvel de rudo produzido por aparelhos eletrodomsticos. Acta Awho. 1999, 18(3):124-7.









1 Doutor em Medicina pela UNIFESP. Professor Titular da Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Jundia - SP.
2 Mdica graduada na Faculdade de Medicina de Jundia - SP. Mdica Residente de Otorrinolaringologia do CEMA-SP.
3 Mdico graduado na Faculdade de Medicina de Jundia - SP. Mdico Residente de Cirurgia da Faculdade de Medicina de Jundia - SP.
4 Mdico graduado na Faculdade de Medicina de Jundia - SP. Mdico Residente de Anestesiologia da Faculdade de Medicina de Jundia - SP.

Instituio: Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Jundia (FMJ). Jundia / SP - Brasil. Endereo para correspondncia: Edmir Amrico Loureno - Rua do Retiro, 424 - 5. andar. conjuntos 53 e 54 - Bairro: Anhangaba - Jundia / SP - Brasil - CEP: 13209-000 - Telefone: (+55 11) 4521-1697 e 4521-3181. Celular: (+55 11) 8303-3871 - E-mail: edmirlourenco@ibest.com.br

Artigo recebido em 19 de Outubro de 2010. Artigo aprovado em 10 de Dezembro de 2010.
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