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Ano: 2011  Vol. 15   Num. 2  - Abr/Jun
DOI: 10.1590/S1809-48722011000200003
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Prevalncia das Fissuras Orofaciais Diagnosticadas em um Servio de Referncia em Casos Residentes no Estado de Mato Grosso do Sul
Prevalent Diagnosis of Orofacial Fissures in a Reference Service with Resident Cases in the State of Mato Grosso do Sul
Author(s):
Mirela Gardenal1, Paulo Roberto Haidamus de Oliveira Bastos2, Elenir Rose Jardim Cury Pontes2, Danielle Bogo3.
Palavras-chave:
epidemiologia, prevalncia, fissura palatina, fenda labial.
Resumo:

Introduo: As fissuras orofaciais esto entre as malformaes congnitas mais frequentes e apresentam uma diversidade clnica, acarretando uma srie de sequelas graves que acompanham o portador ao longo de sua vida. Objetivo: Estimar a prevalncia dos tipos de fissuras orofaciais congnitas, diagnosticadas em um servio de referncia, em casos residentes no estado de Mato Grosso do Sul, no perodo de janeiro de 2003 a dezembro de 2007. Mtodo: Foi realizado um estudo observacional de corte transversal, retrospectivo, onde os dados foram obtidos nos pronturios do Hospital de Reabilitao de Anomalias Craniofaciais (HRAC/USP/SP). Para o clculo da prevalncia foram utilizados os dados dos nascidos vivos (SINASC). Resultados: Em sntese, ocorreram 271 casos diagnosticados no servio de referncia, onde prevaleceram as fissuras transforames incisivo, unilaterais, predominantes para o lado esquerdo e acometeram com maior frequncia o gnero masculino e a etnia branca. A idade mdia das mes foi de 25 anos e escolaridade de 9 a 11 anos completos, com histria de intercorrncia gestacional e sem antecedentes familiares para a fissura. No SINASC foram notificados 98 casos de fissura para mesmo perodo, correspondendo a uma prevalncia de 0,49 por mil nascimentos. Concluso: No presente estudo foi possvel estimar a prevalncia da fissura pelos dados do hospital e pelo SINASC, porm estudos futuros a respeito da epidemiologia das fissuras orofaciais no estado de Mato Grosso do Sul e Regio Centro-oeste, utilizando terminologia uniforme para a classificao so necessrios para comparar e acompanhar a evoluo temporal da prevalncia.

INTRODUO

Uma malformao pode ser definida como uma alterao morfolgica de um rgo, ou parte dele, resultante de um desenvolvimento intrinsecamente anormal. Entre as malformaes congnitas que podem afetar a cavidade oral e, em casos raros, algumas regies da face, esto s fissuras orais que podem comprometer, individualmente ou em conjunto, o lbio, o arco dentrio e o palato (1,2).

As fissuras surgem precocemente na vida pr-natal, no perodo embrionrio e incio do perodo fetal, uma vez que a face completa-se at a oitava semana e o palato at a dcima semana. So ocasionadas pela falta de fuso entre os processos faciais embrionrios e os processos palatinos, acarretando uma srie de sequelas graves que acompanham o portador ao longo de sua vida (1,2).

O estudo de base populacional indica que a ocorrncia de fissura labiopalatal no Brasil de 1: 673 nascimentos (2). Considerando as regies brasileiras, outro estudo brasileiro (3) mostrou que a regio Centro-Oeste apresentou a maior taxa de prevalncia com 0,47 casos de fissura por mil nascidos vivos, seguida da regio Sudeste com 0,46 por mil nascidos vivos, com ascendncia das taxas do Centro-Oeste no perodo compreendido entre 1990 e 1995 (3). No entanto, nesta reviso de literatura no foram encontrados estudos a respeito dos tipos de fissura, gnero e etnia dos portadores, especificamente, no estado de Mato Grosso do Sul.

Foi realizado um estudo, de base populacional, no municpio de Pelotas, estado do Rio Grande do Sul, no perodo de janeiro de 1990 a dezembro de 2002, a partir de 71.500 nascimentos registrados em cinco maternidades (4). Para cada caso de malformao foi tomado como controle o recm-nascido no malformado, do mesmo gnero, nascido imediatamente depois do portador. Dos 980 recm-nascidos com malformao congnita, 56 apresentaram fissuras, obtendo uma prevalncia de 0,78 casos de fissura por mil nascimentos (4).

Os estudos realizados a partir de dados de base populacional, como os registros de nascidos vivos, permitem estimar a prevalncia da malformao, no entanto, para melhor compreender a ocorrncia da fissura necessrio identificar os tipos, a extenso e sua respectiva classificao. Para isso foi considerada a classificao de Spina, a mais utilizada no Brasil, concebida por Victor Spina, cirurgio plstico do Hospital das Clnicas de So Paulo, e citada por vrios autores (5,6,7).

Esta classificao fundamenta-se na teoria embriolgica que reconhece os mecanismos independentes das estruturas anteriores (originadas do palato primrio) e posteriores ao forame incisivo (originadas do palato secundrio), ponto de referncia anatmico elegido para esta classificao (5,6,7).

A classificao de Spina agrupa as principais fissuras em trs categorias, nomeadas pelo forame incisivo: fissuras pr-forame incisivo, fissuras transforame incisivo e fissuras ps-forame incisivo. No entanto, foi complementada com um quarto grupo, o das fissuras faciais raras, que so desvinculadas do palato primrio e secundrio (5).

A classificao de Spina permite a identificao de formas mistas como no caso da fissura pr-forame e ps-forame no mesmo portador, observando que as mesmas ocorrem em perodos diferentes do desenvolvimento embriolgico (5,6,7).

Dentre os autores que estudaram a fissura a partir da sua classificao, destaca-se o estudo brasileiro que avaliou crianas nascidas entre 1999 e 2004, com mes domiciliadas no municpio de Goytacazes, Rio de Janeiro, a partir dos pacientes de 05 servios especializados no atendimento fissura e dos registros de nascimento notificados no Sistema de Informao de Nascidos Vivos (SINASC) (8).

Neste estudo, identificaram-se 63 crianas com fissura, obtendo a prevalncia de 1,35 por 1000 nascimentos, com maior frequncia da fissura ps-forame (34,9%), seguida da transforame (31,7%), pr-forame (30,2%) e pr e ps-forame associadas (3,2%), no sendo encontrados casos de fissura raras da face (8).

Em Campinas, estado de So Paulo, foi realizado um estudo no Servio de Gentica Clnica da Faculdade de Cincias Mdicas, onde foram encontrados 137 casos, sendo 47,4% de fissura palatal, 44,5% de fissura labiopalatal, 7,3% de fissura labial e 0,07% para vula bfida. Ressalta-se que este foi o primeiro estudo encontrado, nesta reviso de literatura, que menciona a ocorrncia da vula bfida (9).

As implicaes inerentes s fissuras so descritas na literatura sob trs aspectos: esttico, funcional e emocional. A esttica, sem dvida, o aspecto mais facilmente reconhecido, uma vez que a leso encontra-se na face, deformando o semblante de seu portador. J entre as alteraes funcionais encontram-se as dificuldades para a suco, deglutio, mastigao, respirao, fonao e audio, nos mais variados graus de comprometimento dependendo do tipo e extenso da fissura (1, 7).

Dessa maneira, os traos faciais desfigurados pela leso e a dificuldade em se comunicar pelos distrbios fonoaudiolgicos, provocam distores na imagem corporal, inibio comportamental, elevado grau de insatisfao e ansiedade, comprometendo o ajustamento pessoal e social do portador (1, 7).

Embora as fissuras orofaciais sejam uma das malformaes congnitas mais frequentes, sua etiologia no se encontra claramente estabelecida, no entanto, entre os autores pesquisados, houve consenso em relao existncia de uma causa multifatorial, ou seja, a combinao da pr-disposio gentica e exposio a fatores ambientais no primeiro trimestre da gestao como etilismo, tabagismo, ingesto de alguns medicamentos, entre outros (1,2 10, 11, 12).

A relevncia cientfica e social da pesquisa fundamentou-se na possibilidade de melhor conhecer a ocorrncia dos tipos de fissuras, a fim de subsidiar um programa de preveno da malformao no mbito da Sade Pblica em Mato Grosso do Sul.

Para tanto, este estudo teve como objetivo estimar a prevalncia dos tipos de fissuras orofaciais congnitas, diagnosticadas no Hospital de Reabilitao de Anomalias Craniofaciais (HRAC/USP), em casos do estado de Mato Grosso do Sul, no perodo de janeiro de 2003 a dezembro de 2007; caracterizando os casos quanto ao tipo de fissura, gnero e etnia, idade e ocorrncia de tratamento cirrgico prvio na admisso ao servio de reabilitao, s variveis maternas.

Por fim, paralelamente ao perfil epidemiolgico dos portadores, o estudo estimou a prevalncia das fissuras orofaciais a partir de dados de base populacional, ou seja, nascimentos e casos de fissura registrados no Sistema de Informao de Nascidos Vivos, no mesmo perodo de estudo.


MTODO

O estudo classificou-se como observacional de corte transversal. Os dados foram obtidos por meio de um estudo documental realizado nos registros dos pronturios do Hospital de Reabilitao de Anomalias Craniofaciais (HRAC/USP/SP), referente aos casos residentes no Estado de Mato Grosso do Sul, admitidos no perodo de janeiro de 2003 a dezembro de 2007. Foi realizado estudo piloto com 5% dos pronturios para a validao do instrumento de pesquisa.

Foram includos os dados referentes aos portadores de fissura orofacial congnita, no sindrmicos, independente da idade, do gnero e do tipo de fissura da fissura e diagnosticados pelo Hospital de Reabilitao de Anomalias Craniofaciais (HRAC/USP/SP).

Foram excludos da pesquisa os pronturios de portadores de fissuras associadas s sndromes genticas, portadores de fissura adquirida (acidentes perfurantes), pacientes provenientes dos demais estados da Federao e, por questes ticas, portadores de doena mental e indgenas.

As variveis de anlise incluram os tipos de fissura de acordo com a classificao de Spina (5), gnero e etnia, ano de entrada no servio de reabilitao, bem como a idade e as condies cirrgicas na admisso do hospital. Especificamente quanto idade na admisso, estas foram categorizadas em faixas etrias de acordo com a cronologia de tratamento preconizado pelo HRAC. Quanto s condies cirrgicas na admisso foi analisada a existncia ou no de tratamento cirrgico prvio e, em caso de cirurgia presente, buscou-se o tipo de cirurgia realizada.

A classificao de Spina divide as fissuras em 3 tipos, sendo fissura pr-forame incisivo, fissura transforame incisivo e fissura ps-forame incisivo, podendo ocorrer isolada ou associadas. Quanto extenso pode ser completa ou incompleta e quanto localizao, uni ou bilateral. Tal classificao foi complementada com um quarto grupo, o da fissura rara da face (5).

A varivel idade materna foi categorizada em faixa etria de acordo com o critrio de risco para gestao do Ministrio da Sade, ou seja, idade menor que 17 anos e maior que 35 anos (13). O grau de escolaridade foi agrupado de acordo com os anos completos de escolaridade registrados no pronturio.

Para o clculo da estimativa da prevalncia, foram utilizados os dados referentes ao nmero de casos de fissura notificados e o nmero de nascidos vivos registrados no SINASC, no Mato Grosso do Sul, no mesmo perodo de estudo (14).

Os dados foram submetidos anlise estatstica descritiva e analtica. Para analisar as variveis categricas foi utilizado o teste Qui-Quadrado de Tendncia e as anlises estatsticas foram realizadas nos programas Epi-Info TM verso 3.3.2. e BioEstat 4.0.

Quanto aos critrios ticos, o projeto contendo o instrumental de pesquisa e a solicitao de dispensa do uso do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foram encaminhados ao Comit de tica em Pesquisa com Seres Humanos do Hospital de Reabilitao de Anomalias Craniofaciais (HRAC/USP), sendo obtida a aprovao, conforme Ofcio n 281/2007 - SVAPEPE-CEP.


RESULTADOS

Foram encontrados 271 portadores de fissuras orofaciais residentes no estado de Mato Grosso do Sul, diagnosticados no Hospital de Reabilitao de Anomalias Craniofaciais (HRAC/USP) no perodo de estudo. Todos os portadores admitidos para tratamento no HRAC tiveram o diagnstico da fissura baseado na classificao de Spina, possibilitando a obteno da frequncia dos diferentes tipos de fissura, bem como a extenso e localizao da malformao quanto a uni ou bilateralidade.

Verifica-se na Tabela 1 que a distribuio da fissura ocorreu da seguinte forma: 42,8% dos casos apresentaram fissura transforame (ou labiopalatal), seguida da fissura pr-forame (ou labial).

Com a Classificao de Spina foi possvel detalhar a extenso (completa ou incompleta) e a localizao da fissura quanto a uni ou bilateralidade, assim pode-se identificar a maior frequncia da fissura transforame unilateral (30,3%), seguida da pr-forame incompleta unilateral, conforme demonstra a Tabela 1.

A Tabela 2 mostra a maior prevalncia do sexo masculino e, entre portadores da raa branca, predominou a fissura pr-forame.

Na Tabela 3 verifica-se que do total de portadores 64,9% chegaram ao HRAC na faixa etria entre 1 ms e 2 anos, destes, 48,8% concentraram-se nos 6 primeiros meses e 41,0% entre 7 e 12 meses, perodos em que so realizadas a primeira e segunda cirurgia de lbio e a cirurgia de palato, respectivamente. A idade mnima na admisso do hospital foi de 1 ms e a idade mxima foi de 74 anos.

Os resultados apresentados na Tabela 4 demonstram a ocorrncia das variveis maternas entre os tipos de fissura. Na anlise dos pronturios observou-se que os pacientes admitidos no hospital a partir dos 16 anos no dispunham, sistematicamente, de informaes a respeito do histrico gestacional e parto, por isso o levantamento das variveis maternas foi realizada em 227 casos, onde as informaes estavam disponveis.

Quanto faixa etria materna na gestao observou-se que a mais frequente entre os portadores de fissura foi de 17 a 35 anos (81,9%); quanto escolaridade materna na gestao observou-se que a mais frequente tinha de 9 a 11 anos completos de escolaridade (30,3%) e quanto a intercorrncia na gestao observou-se que a mesma esteve presente em 24,2% dos casos.

Os resultados da Tabela 5 mostram as frequncias das fissuras registradas no Sistema de Informao de Nascidos Vivos (SINASC) a partir da Declarao de Nascidos Vivos, de acordo com a Classificao Internacional de Doenas (CID-10). Foram notificados no estado de Mato grosso do Sul 98 casos de fissura orofacial no perodo de 2003 a 2007.












DISCUSSO

A distribuio da fissura mostrou que houve predomnio da fissura transforame como nos estudos realizados no Brasil (6, 15, 16, 17), porm, discordando dos achados do estudo realizado em um servio de Gentica Clnica em Campinas (9), que encontrou predominncia da fissura ps-forame. Considerando o intervalo de confiana, ressalta-se que a frequncia da fissura transforame dos casos de Mato Grosso do Sul ficou abaixo das frequncias obtidas em outros estudos com 47,5% (16) e 68,0% (15).

Ainda no que se refere predominncia da fissura transforame, os achados concordam tambm com os estudos realizados no exterior (18, 19, 20, 21) onde foram encontradas as frequncias de 47,7%, 49,6%, 53,6% e 46,5%, respectivamente.

A fissura ps-forame ocorreu em menor frequncia (26,2%) entre os casos, concordando com diversos estudos realizados no Brasil (3,15,16,17,22) e no exterior, onde as frequncias encontradas foram 3,6% (20), 17,4% (18) e 24,0% (23).

A classificao de Spina permite a identificao de formas mistas como no caso da fissura pr-forame e ps-forame no mesmo portador, sendo que as mesmas ocorrem em perodos diferentes do desenvolvimento embriolgico (22, 24). Dos casos encontrados 3,7% apresentaram fissura pr-forame e transforame associadas e 4,8% de fissura pr-forame e ps-forame associadas, totalizando 8,5% do total de casos.

De acordo com o lado da face envolvido as fissuras pr-forames podem ser subclassificadas em unilateral, bilateral ou mediana e as fissuras transforames em unilateral ou bilateral. A fissura ps-forame no apresenta esta variao por acometer necessariamente a linha mdia do palato, ou seja, a rafe palatina (1,5,25).

Assim os resultados apontam para uma maior frequncia das fissuras unilaterais (67,2%) sobre as bilaterais e, dentre elas, predominaram o comprometimento do lado esquerdo (69,8%), concordando com o achado da literatura (15).

De acordo com a extenso anatmica da leso as fissuras podem ser subclassificadas em completa ou incompleta, tendo como referncia o rompimento ou no do forame incisivo (5). Por esse motivo as fissuras pr-forames e as fissuras ps-forames podem apresentar uma diversidade clnica. J a fissura transforame no apresenta esta variao por se caracterizar, necessariamente, pelo rompimento completo do palato primrio e secundrio, estendendo clinicamente do lbio superior at o palato mole e vula.

Dessa forma, a fissura pr-forame pode variar desde uma fissura cicatricial de lbio superior, chamada Cicatriz de Keith, ao rompimento completo do lbio e do arco dentrio, atingindo o forame incisivo. A fissura ps-forame pode variar desde uma vula bfida ao rompimento do palato mole ou do palato duro parcial, indo at o rompimento do palato duro e palato mole (1,5,24,25).

Embora os resultados apontem para uma maior frequncia das fissuras completas (60,1%), entre as fissuras incompletas que se observa a diversidade morfolgica. Dessas 54,2% estava presente o comprometimento do palato duro parcial e em 50,0% o comprometimento do palato mole. Foram encontradas fissura submucosa, vula bfida e fissura oculta.

A compreenso da extenso anatmica da fissura fundamental na elaborao do programa teraputico e no prognstico do tratamento, pois, quanto maior a extenso da leso, maiores sero os comprometimentos funcionais e, portanto, maiores os recursos teraputicos utilizados ao longo do tratamento para a recuperao total do paciente. No entanto, no foram encontrados na reviso de literatura para esta pesquisa, levantamentos a respeito da extenso anatmica da fissura, exceto o estudo que identificou a ocorrncia de vula bfida em 0,07% entre 137 casos de fissura (9).

Por fim, no foram encontrados, nesta pesquisa, casos de fissura pr-forame mediana, completa ou incompleta, e de fissuras raras da face.

Quanto ao sexo houve predominncia da fissura no sexo masculino, concordando com a literatura (6,15) e ao associar-se o sexo classificao verificou-se que o sexo masculino foi mais acometido pela fissura transforame, enquanto que o feminino pela fissura pr-forame, concordando com estudos no Brasil (6,15,22) e no exterior (18,21,23). Quanto raa as fissuras foram mais frequentes entre os brancos.

Quanto admisso do portador no servio de referncia, a faixa etria entre um ms e dois anos considerada adequada, pois est compatvel com a cronologia das cirurgias primrias de lbio e de palato do HRAC, permitindo que o tratamento acontea precocemente. Nos primeiros seis meses que so realizadas as primeiras cirurgias e este o perodo desejvel para o incio do tratamento das fissuras, principalmente da transforame bilateral, uma vez que as estruturas envolvidas e a extenso da leso lhe atribuem maior complexidade e requer tratamento prolongado (24).

No HRAC as cirurgias secundrias, como a faringoplastia, os retoques com finalidade esttica ou funcional em cirurgias j realizadas ou o fechamento de fstula so realizados entre 3 e 8 anos, aproximadamente, com maior concentrao entre 6 e 8 anos e, posteriormente, realizado o enxerto sseo, entre 9 e 10 anos (24). Apesar de ser considerada uma etapa secundria, onde se espera que o tratamento apresente considervel avano, 13,3% dos portadores do Estado de Mato Grosso do Sul esto sendo admitidos para tratamento no HRAC, comprometendo de forma insatisfatria o protocolo cirrgico e o tratamento precoce.

Aps receberem tratamento clnico odontolgico, cirurgias secundrias de nariz e cirurgia maxilo-mandibular os portadores, em tratamento no HRAC, passam por avaliao final do tratamento, recebem aconselhamento gentico e, por fim, aps os 20 anos de idade recebem alta (24), no entanto, os resultados mostraram que 12,9% dos portadores chegaram ao HRAC aps os 21 anos.

Quanto interveno cirrgica recebida previamente admisso no HRAC, 79,0% chegaram ao servio de referncia sem ter recebido qualquer tipo de interveno cirrgica e desses, quase a totalidade (99,4%) tinham entre 1 ms e 2 anos, o que considerado favorvel realizao do tratamento precoce e adequado cronologia cirrgica. Um menor percentual de casos recebeu algum tipo de tratamento cirrgico em outros servios, o que na literatura considerada condio desfavorvel, caso os cuidados multidisciplinares no tenham sido realizados aps as etapas cirrgicas (1,24).

O teste Qui-quadrado indicou uma tendncia crescente, mostrando que medida que aumenta a idade, aumenta a frequncia de tratamento cirrgico prvio.

A partir de tais achados, deduz-se que os portadores de fissuras orofaciais necessitam ser encaminhados ao servio de reabilitao logo no primeiro ms de vida, a fim de que sejam contempladas todas as etapas cirrgicas e de reabilitao em idades adequadas, respeitando a fase de crescimento e desenvolvimento da face e obtendo um melhor prognstico.

A faixa etria materna na gestao mais frequente, entre os portadores de fissura, considerada como faixa etria de baixo risco gestacional pelo Ministrio da Sade (13), sendo que a idade mdia encontrada foi de 25 anos, variando entre a mnima de 14 e a mxima de 48 anos. Um percentual menor est distribudo nas faixas consideradas de risco gestacional, ou seja, menor que 17 anos e maior que 35 anos.

O Ministrio da Sade reconhece a faixa etria como um dos 4 grupos de fatores que contribuem para a gestao de alto risco (13), porm especificamente para o risco de ocorrncia de fissura, outros estudos mostraram que a ocorrncia de fissura no est relacionada ao aumento da idade materna (4,26).

Quanto escolaridade materna na gestao observou-se a faixa de maior frequncia foi de 9 e 11 anos completos de escolaridade com predomnio da fissura pr-forame e no grupo com baixa escolaridade materna predominaram as fissuras transforames. Quanto a este aspecto o estudo realizado em Pelotas, Rio Grande do Sul, encontrou importante correlao entre o grau de instruo materna e a ocorrncia de fissura, onde 82,1% das mes apresentaram baixo grau de instruo (4).

Dentre os casos com relato positivo de intercorrncia na gestao houve predomnio da ocorrncia de fissura ps-forame. consenso entre os autores revisados a participao dos fatores ambientais, ocorridos no primeiro trimestre da gestao, na etiologia das fissuras (1,2,3,10,11,12,25).

Foram encontrados, neste estudo, aproximadamente 24 tipos diferentes de intercorrncias ocorridas no primeiro trimestre de gestao, registradas nos pronturios, entre elas, as que ocorreram com maior frequncia foram: hipertenso (12,7%), tabagismo (10,9%), sangramento (10,9%), ameaa de aborto (9,1%) e consanguinidade (9,1%). A literatura aponta a hipertenso como fator de risco para o aparecimento de fissuras orais, indicando risco relativo de grande magnitude (RR=2,97), mas sem significncia estatstica (22).

A literatura pesquisada mostrou alguns estudos que avaliaram a associao entre tabagismo materno durante a gestao e o risco de fissura, indicando aumento, estatisticamente significante, do risco para fissura entre as mes que fumaram durante o primeiro trimestre da gestao (27,28).

Quanto aos antecedentes familiares para fissura, estes ocorreram em 24,6% dos casos e, destes, predominaram as fissuras transforames com uma frequncia de 55,3%. Estudos consideram a hereditariedade como fator de risco para fissura (4,22).

Alm do estudo epidemiolgico dos tipos de fissura, obtidos dos pronturios do HRAC/USP e discutidos at o momento, o estudo se props, tambm, estimar a prevalncia das fissuras orofaciais utilizando os registros do Sistema de Informao de Nascidos Vivos (SINASC) do DATASUS, pois o coeficiente requer a comparao entre dados de base populacional.

Assim, a partir dos dados de nascimentos e dos casos de fissura notificados no estado, no mesmo perodo do estudo em pronturios, foi possvel estimar que a prevalncia das fissuras orofaciais no Mato Grosso do Sul de 2003 a 2007 foi de 0,49 casos por 1000 nascidos vivos, aproximando-se do estudo brasileiro que obtive a prevalncia de 0,47 casos por mil recm-nascidos (3).

Infere-se que a prevalncia encontrada poderia ser maior, levando-se em considerao a existncia de notificaes no SINASC com cdigos da Classificao Internacional de Doenas (CID-10) distintos do cdigo da fissura, como "outras malformaes congnitas no especificadas da face e pescoo". Tal notificao pode tratar-se de casos de fissuras menos conhecidas, como as faciais e submucosas.

Caso o profissional de sade responsvel pelo diagnstico e notificao no tenha conhecimento dos tipos das fissuras orofaciais, que vai alm dos mais conhecidos (labial, palatal e labiopalatal), o mesmo poder causar a subnotificao da fissura.

A ausncia de estudos epidemiolgicos de fissura no Mato Grosso do Sul, impossibilita, neste momento, a verificao da variao da prevalncia.









CONCLUSES

Dentre os portadores diagnosticados do estado de Mato Grosso do Sul prevaleceu a fissura transforame, ou seja, a forma mais grave entre as malformaes orofaciais, com maior extenso, maior nmero de estruturas acometidas e, portanto, com importantes comprometimentos estticos e funcionais.

Quanto extenso da leso, entre as fissuras pr e ps-forame, prevalecem as fissuras completas. Quanto ao lado da face acometido, entre os casos de fissuras pr-forame e transforame, h maior frequncia da fissura unilateral, predominante para o lado esquerdo.

Quanto ao gnero e etnia dos portadores este estudo aponta para o acometimento maior do gnero masculino e da etnia branca.

A maioria dos portadores chega ao servio de reabilitao com idades e condies clnicas compatveis com a cronologia dos tratamentos multidisciplinares e com a sequncia cirrgica preconizada pelo HRAC.

Entre todos os tipos de fissura foram mais frequentes as mes com idade fora da faixa etria considerada de risco para a gestao, com nvel satisfatrio de escolaridade, com histria de intercorrncia gestacional e sem antecedentes familiares para a fissura.

A prevalncia estimada das fissuras orofaciais no Mato Grosso do Sul, no perodo de 2003 a 2007, foi de 0,49 casos por 1000 nascidos vivos.

Estudos futuros a respeito da epidemiologia das fissuras orofaciais no estado de Mato Grosso do Sul e demais regies do Brasil, utilizando terminologia uniforme para a classificao, so necessrios para conhecer, comparar e acompanhar a evoluo temporal da prevalncia.


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1 Mestre. Doutoranda em Sade e Desenvolvimento da Regio Centro-Oeste pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS, Brasil. Tcnica da Escola de Sade Pblica de Mato Grosso do Sul.
2 Doutor. Docente do Programa de Ps-Graduao em Sade e Desenvolvimento da Regio Centro-Oeste da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS, Brasil.
3 Mestre. Doutoranda em Sade e Desenvolvimento da Regio Centro-Oeste pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS, Brasil.

Instituio: Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Campo Grande / MS - Brasil. Endereo para correspondncia: Mirela Gardenal - Avenida Senador Filinto Mller, 1480 - Bairro Ipiranga - Campo Grande / MS - Brasil - CEP: 79074-460 - Telefone: (+55 67) 3345-8019 - E-mail: mirelagardenal@yahoo.com.br

Artigo recebido em 31 de Agosto de 2010. Artigo aprovado em 5 de Fevereiro de 2011.
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