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Ano: 2011  Vol. 15   Num. 2  - Abr/Jun
DOI: 10.1590/S1809-48722011000200012
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Avaliao Postural da Coluna Vertebral em Crianas e Adolescentes com Deficincia Auditiva
Postural Evaluation of Vertebral Column in Children and Teenagers with Hearing Loss
Author(s):
Renato de Souza Melo1, Polyanna Waleska Amorim da Silva2, Lcia Vasconcelos Carvalho da Silva3, Carla Fabiana da Silva Toscano4.
Palavras-chave:
avaliao, coluna vertebral, perda auditiva, postura, surdez.
Resumo:

Introduo: A postura determinada pela atuao dos sistemas, visual, somatosensorial e vestibular. As crianas com deficincia auditiva podem apresentar problemas na postura ou no controle postural, favorecendo o surgimento de desvios e alteraes posturais na coluna vertebral, provocados possivelmente pela hipoatividade do sistema vestibular, em decorrncia da surdez. Objetivo: Avaliar a postura da coluna vertebral em crianas e adolescentes com deficincia auditiva em idade escolar, considerando o gnero e a idade da amostra. Mtodo: Foi realizado um estudo descritivo, prospectivo, na Escola Duque de Caxias e no Centro de Reabilitao & Educao Especial Rotary, localizadas no municpio de Caruaru-PE. Foram avaliados 44 escolares com deficincia auditiva com faixa etria entre 7-17 anos, sendo 22 do gnero feminino e 22 do gnero masculino. O estudo foi desenvolvido por meio de uma avaliao postural, com o uso de um simetrgrafo, marcao de pontos anatmicos especficos com adesivos dispostos sobre esferas de isopor e afixados com fita adesiva dupla face. Resultados: Os resultados apontaram que todos os sujeitos avaliados neste estudo apresentaram algum tipo de alterao postural na coluna vertebral. A escoliose foi a alterao mais observada entre os estudantes (84,1%), seguida da hipercifose torcica (68,2%). Concluso: Conclui-se que crianas e adolescentes com deficincia auditiva esto sujeitos a desenvolver alteraes posturais na coluna vertebral. Tal condio pode estar associada a um somatrio de fatores que envolvem a ergonomia desfavorvel do ambiente escolar, maus hbitos posturais e o acometimento do aparelho vestibular em virtude da perda auditiva.

INTRODUO

Os primeiros anos de vida da criana so caracterizados por diversas modificaes em seu crescimento e desenvolvimento (1). O perodo compreendido entre o nascimento e o final do primeiro ano de vida considerado um dos mais crticos para o desenvolvimento neuropsicomotor da criana (2).

Um grande marco no desenvolvimento motor infantil a evoluo do controle postural, pois os lactentes aumentam suas possibilidades de explorao e interao com o meio ambiente medida que comeam a estabilizar a cabea por volta do 3 ms de vida (3). A seguir, verifica-se um aprimoramento no controle postural, sendo que entre o 6 e o 7 ms muitos lactentes j so capazes de sentar por breves perodos com apoio dos braos (4). Aps dois meses, entre o 8 e o 9 ms, o lactente adquire a habilidade para sentar-se sem apoio; e por fim, entre o 12 e o 15 ms surge o controle postural independente (5).

A manuteno da posio em p envolve ajustes corporais constantes e coerentes com o objetivo de manter os segmentos corporais alinhados e orientados adequadamente. Na situao de alinhamento postural adequado, as estruturas musculoesquelticas esto equilibradas, portanto, menos propensas a leses ou deformidades (6). Esta tarefa requer um intrincado relacionamento entre informaes sensoriais e ao motora (7).

As principais fontes de informao sensorial para o funcionamento do controle postural satisfatrio so os sistemas visual, somatosensorial e vestibular (8). Esse emaranhado de informaes de cada sistema sensorial ocorre de forma seletiva, aumentando a importncia de um sistema mais til e diminuindo a importncia daquele ou daqueles sistemas menos teis para a manuteno e regulao da postura (9, 10).

De acordo com HORAK & MACPHERSON (11), o sistema de controle postural identifica as informaes sensoriais provenientes dos trs canais sensoriais e produz respostas motoras eficientes para que a posio desejada seja alcanada ou mantida. Se um dos canais sensoriais no fornece a informao sensorial adequada, a dinmica de funcionamento do sistema postural pode estar alterada. Neste caso, o sistema de controle da postura parece no conseguir um relacionamento coerente e estvel entre informao sensorial e ao motora e consequentemente, o desempenho motor pode apresentar-se prejudicado, como nas crianas com perda auditiva.

O sistema vestibular um rgo com dupla funo, sendo a cclea responsvel pela audio e o vestbulo pela regulao do controle postural e do equilbrio (12). No entanto, a capacidade de ouvir, , na verdade, uma caracterstica secundria, a responsabilidade primeira do rgo auditivo a manuteno e regulao do controle postural e do equilbrio (13). Devido proximidade anatmica das estruturas responsveis pelas funes auditivas e vestibulares, comum encontrarmos alteraes associadas em ambos os sistemas, deste modo, razovel presumir que muitas crianas surdas tm problemas vestibulares concomitantes perda auditiva (14). Alm disso, estudos demonstram que a hipoatividade do aparelho vestibular um achado frequente em avaliaes otoneurolgicas em crianas com deficincia auditiva, gerando nestas crianas transtornos vestibulares (15, 16, 17).

Desta forma, pressupe-se que crianas com deficincia auditiva podem desenvolver estratgias posturais para superar ou compensar as dificuldades de equilbrio, elegendo uma determinada postura, com o objetivo de obter uma maior estabilidade corporal, podendo com isso desenvolver as alteraes posturais na coluna vertebral. Em longo prazo, estes padres posturais inadequados culminam na acelerao do processo de degenerao do sistema musculoesqueltico, causando dor e predispondo s afeces da coluna vertebral no adulto (18).

Diante do exposto, o objetivo deste estudo foi avaliar a postura da coluna vertebral de crianas e adolescentes com deficincia auditiva considerando os gneros e a idade da amostra estudada e identificar sintomatologia dolorosa no grupo.


MTODO

Este estudo descritivo foi desenvolvido no perodo de fevereiro a julho de 2009. Participaram deste estudo 44 voluntrios, agrupados a partir de uma amostra por convenincia, composta por crianas e adolescentes com deficincia auditiva, recrutados da Escola Duque de Caxias e do Centro de Reabilitao & Educao Especial Rotary, escolas da rede estadual de ensino, localizadas no municpio de Caruaru-Pernambuco.

Os voluntrios foram divididos em dois grupos, nomeados assim: Grupo DAF (Deficientes Auditivos Femininos) e grupo DAM (Deficientes Auditivos Masculinos). Cada grupo foi composto por 22 escolares com idade entre 7 e 17 anos, com 2 representantes de cada idade por grupo.

Os critrios de excluso do estudo para ambos os grupos foram: apresentar qualquer outra deficincia associada (fsica, mental, visual e/ou paralisia cerebral) ou apresentar discrepncia maior que 2 cm em membros inferiores, obtido por meio dos teste de medida real e medida aparente realizado previamente pelos avaliadores.

Os critrios de incluso no estudo para ambos os grupos foram; estar regularmente matriculado em uma das escolas colaboradoras com a pesquisa, encontrar-se na faixa etria pretendida pelo estudo e apresentar o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) devidamente assinado pelo pai ou responsvel pela criana ou adolescente.

Para a aquisio dos dados os voluntrios foram submetidos a uma avaliao postural da coluna vertebral, realizada por fisioterapeutas, de forma individual, por meio de um simetrgrafo e marcao de pontos anatmicos especficos, sendo fotografados em seguida, segundo critrios propostos por KENDALL, MCCREARY & PROVANCE (6), POLITANO (19) e KISNER & COLBI (20). Tais critrios possibilitam a avaliao da postura e identificao de alteraes e desvios na coluna vertebral, como a escoliose, hipercifose torcica, hiperlordose na coluna cervical e coluna lombar.

Para a avaliao postural o escolar posicionou-se na posio ortosttica, descalo frente do simetrgrafo da marca Carci, numa distncia de 20cm da parede, trajando roupa de banho, (short para os meninos e short e top para as meninas), tendo pontos anatmicos especficos demarcados com adesivos coloridos da marca Pimaco, dispostos sobre esferas de isopor de 1cm de dimetro e afixados com fita adesiva dupla face da marca Cremer.

Os pontos anatmicos marcados foram: glabela, trago, mento, acrmio, manbrio do esterno, processo espinhoso de C7, processo espinhoso de T3, ngulo inferior da escpula, epicndilo lateral do mero, espinha ilaca ntero-superior, espinha ilaca pstero-superior, trocnter maior do fmur, linha articular do joelho, ponto medial da patela, ponto sobre a linha mdia da perna, tuberosidade da tbia, malolo lateral, malolo medial, tendo calcneo, ponto sobre o calcneo, ponto entre a cabea e o 2 e 3 metatarso.

Foi observada ainda, a presena da sintomatologia dolorosa nos msculos da coluna vertebral dos escolares avaliados, usando critrios propostos por PALMER (21). Os procedimentos constaram de palpao digital dos processos transversos da coluna vertebral do escolar avaliado no sentido crnio-caudal. Os avaliadores instruram os voluntrios a levantarem um brao quando a palpao digital referisse dor e desse modo foi relatada a sintomatologia dolorosa na coluna vertebral pelos escolares avaliados deste estudo.

As orientaes que antecederam o exame, a avaliao postural e a avaliao da dor foram previamente explicadas pelos pesquisadores aos voluntrios por meio da Lngua Brasileira de Sinais (LIBRAS), por um dos pesquisadores que intrprete de LIBRAS.

Os dados foram organizados e descritos com o auxlio do Software Packstage Statistical Science (SPSS) verso 11.5, sendo os resultados expressos em percentual de frequncia. Este estudo foi avaliado e aprovado pelo Comit de tica em Pesquisa da Associao Caruaruense de Ensino Superior - ASCES, conforme o protocolo final de
n 068/08 CEP/ASCES de acordo com a resoluo 196/96 do conselho nacional de sade.


RESULTADOS

Este estudo avaliou a postura da coluna vertebral de 44 estudantes com deficincia auditiva com idade mdia de 123,2 anos e identificou um ndice elevado de alteraes posturais nos escolares estudados, considerando-se os resultados apresentados.

Os resultados obtidos na presente pesquisa revelaram que todos os voluntrios apresentaram pelo menos algum tipo de alterao postural na coluna vertebral.

A escoliose foi a alterao postural mais observada entre as crianas e adolescentes avaliados, estando presente em 84,1% estudantes com mais evidncia na faixa etria de 7 a 14 anos no gnero masculino (Figura 1 e Tabela 1).

A hipercifose torcica aparece como a segunda alterao postural mais ocorrente entre estudantes com deficincia auditiva (68,2%) tambm mais evidente no gnero masculino na faixa etria de 7 a 14 anos (Grfico 1 e Tabela 1).

Por outro lado, a hiperlordose lombar foi a alterao menos observada na amostra, mais frequente no gnero feminino e na faixa etria de 7 a 10 anos (Tabela 1 e Grfico 1).

Na investigao da dor, os resultados mostraram que 36,4% dos estudantes avaliados apresentam sintomatologia dolorosa na coluna vertebral (Grfico 2).

Com relao a distribuio da dor entre os gneros, os estudantes do gnero masculino queixaram-se mais de dores na coluna vertebral (45%) que as estudantes do gnero feminino (27%) (Grficos 3 e 4).






Grfico 1. Distribuio (%) dos tipos de alteraes posturais na coluna vertebral em crianas e adolescentes com deficincia auditiva da amostra (n=44).




DISCUSSO

Este estudo avaliou a postura de 44 estudantes com deficincia auditiva e identificou um ndice elevado de alteraes posturais nos escolares estudados.

Com relao ocorrncia de alteraes posturais de um modo geral, todas as crianas com deficincia auditiva apresentaram alteraes posturais, corroborando com o estudo de VASCONCELOS et al (22), que avaliaram a postura da coluna vertebral de 32 estudantes com deficincia auditiva, na faixa etria de 7-21 anos e relataram que 90,62% da amostra estudada apresentaram alteraes posturais na coluna vertebral.

Analisando os tipos de alteraes posturais observadas entre os estudantes deste estudo, a escoliose foi o tipo de alterao mais observada (84,1%), sendo mais evidente no gnero masculino e na faixa etria entre 7-14 anos. Corroborando com estes resultados, VASCONCELOS et al (22) observaram que 37,5% dos estudantes apresentavam escoliose e a faixa etria entre 7-12 anos foi onde ocorreram os maiores ndices desse desvio patolgico, no entanto, nesse estudo o gnero feminino apresentou maior ocorrncia desta alterao postural.

Os resultados obtidos em relao escoliose neste estudo foram superiores a estudos que avaliaram a postura de escolares ouvintes que utilizaram a mesma metodologia adotada neste estudo. FORNAZARI (23) que estudou a prevalncia de escoliose em 655 estudantes sem deficincia auditiva, com a mesma faixa etria deste estudo, detectou a presena de escoliose em 26% da amostra estudada, o autor acredita que as alteraes posturais podem ter ligao com fatores ligados ao ambiente escolar. J, BIASOTTO & GODOY GOMES (24) que analisaram a postura de 66 escolares sem deficincia auditiva, com idade entre 12-16 anos, de ambos os gneros, relatam que 65,1% dos escolares avaliados apresentaram escoliose.

Divergindo desses resultados, o estudo de SANTOS et al (25) que tambm avaliou a postura de escolares sem deficincia auditiva, na faixa etria de 6-12 anos de ambos os gneros, mostrou que a escoliose esteve presente em 15,7% dos escolares avaliados, os autores concluram que o surgimento da escoliose pode estar associada ao predomnio do estudante ser destro ou canhoto, que poderia promover uma hipertrofia muscular mais acentuada e elevao no ombro no lado dominante, ou pelo uso de mochilas escolares utilizadas, frequentemente, de modo desproporcional no caso do apoio em um nico ombro. Esteves (26) relata que a escoliose o tipo de desvio postural mais comum em escolares em ambos os gneros, concordando com os resultados deste estudo.

A hipercifose torcica foi a segunda alterao postural mais prevalente neste estudo (68,2%), sendo mais observada no gnero masculino com idade entre 7-14 anos. Corroborando com estes dados, o estudo de VASCONCELOS et al (22) que tambm avaliou a postura de estudantes com deficincia auditiva, mostra que a hipercifose torcica foi alterao mais ocorrente (75%), tendo a mesma distribuio entre os gnero (50%) e maior frequncia na faixa etria de 7-12 anos, concordando com os resultados deste estudo.

A prevalncia da hipercifose torcica observada neste estudo, foi superior aos estudos que avaliaram a postura de crianas sem deficincia auditiva, BIASOTTO & GODOY GOMES (24) avaliaram a postura de escolares de ambos os gneros, com idade entre 12-16 anos e relatam que 49,9% da amostra do seu estudo apresentaram hipercifose torcica. Divergindo do estudo de BIASOTTO & GODOY GOMES (24), o estudo de SANTOS et al (25) que tambm analisou a postura escolares sem deficincia auditiva, na faixa etria de 6-12 anos, de ambos os gneros, detectou a hipercifose torcica em 9,1% da sua amostra. MORO (27) que avaliou em seu estudo a postura sentada de 200 escolares ouvintes do ensino pblico de Florianpolis/SC, identificou que, dos padres posturais assumidos em sala de aula, as crianas sentam-se a maior parte do tempo com o tronco flexionado e utilizam o uso das mos sobre o queixo durante as atividades na carteira escolar, o que poderia favorecer a postura hiperciftica da coluna torcica entre os escolares.

A hiperlordose lombar foi a alterao postural menos observada nos estudantes avaliados desta pesquisa (29,1%), com maior ocorrncia no gnero feminino e maior frequncia na faixa etria entre 7-10 anos. Corroborando com estes dados, VASCONCELOS et al (22) relatam que a hiperlordose lombar foi a segunda alterao postural mais prevalente entre os estudantes com deficincia auditiva avaliados em seu estudo, observada em 50% da amostra, tendo a mesma distribuio entre os gneros (50%) sendo mais frequente na faixa etria de 7-12 anos.

Do mesmo modo, BIASOTTO & GODOY GOMES (24) relataram que a hiperlordose lombar tambm foi a alterao menos prevalente entre escolares sem deficincia auditiva em seu estudo, com ocorrncia de 42,4%. SANTOS et al (25) relatam que a ocorrncia de hiperlordose lombar em seu estudo que avaliou escolares sem deficincia auditiva foi de 26,3%, com maiores ndices na faixa etria ente 9-13 anos. Segundo DETSCH & CANDOTTI (28), at os nove anos, a presena de hiperlordose lombar considerada normal no desenvolvimento motor infantil, uma vez que no h estabilidade postural, o que geraria a busca pelo equilbrio corporal por protruso abdominal e inclinao plvica anterior.

Alm dos fatores associados ao ambiente e ergonomia escolar, outro aspecto importante que poderia favorecer o surgimento dos desvios posturais encontrados nos estudantes avaliados neste estudo so os achados de GUILDER & HOPKINS (29), que avaliaram crianas deficientes auditivas, mediante estmulos rotatrios e acharam resultados dos exames labirnticos variados, afirmando que crianas com deficincia auditiva apresentavam frequentemente hipoatividade do sistema vestibular. Os autores ressaltam ainda, que a hipoatividade vestibular mais observada em crianas com graus de perda auditiva profunda e severa. Esses resultados concordam com o estudo de ALCOHOLADO (30), que avaliou 7 crianas portadoras de deficincia auditiva por meio da vectoeletronistagmografia computadorizada e observou que 6 crianas obtiveram resposta de hipoexcitabilidade do sistema vestibular. O autor sugere ainda que todo paciente com diagnstico clnico de perda auditiva, independente da idade e do gnero, deve submeter-se a exames vestibulares, mesmo na ausncia de vertigens e tonturas.

Para SHUMWAY-COOK & WOOLLACOTT (31) o perodo mais crtico para o desenvolvimento do controle postural est entre 4 e 6 anos de idade. A organizao sensorial nesta fase consiste na capacidade do sistema nervoso central de selecionar, suprir e combinar os estmulos vestibulares, visuais e proprioceptivos fornecendo a orientao postural adequada. Tal afirmao parece justificar os resultados deste estudo, onde crianas com deficincia auditiva apresentaram alteraes posturais na coluna vertebral desde a infncia at a adolescncia, o que nos leva a sugerir que possivelmente os adolescentes deste estudo podem ter adotado padres posturais inadequados na infncia e que sem informao, tratamento especfico e intervenes, estas posturas compensatrias foram acompanhando-os, ano aps ano, podendo instalar-se de forma definitiva com a maturao msculo esqueltica na vida adulta.

Analisando a ocorrncia da sintomatologia dolorosa nos escolares avaliados deste estudo, 36,4% referiram dores na regio da coluna vertebral durante a palpao digital realizada pelos fisioterapeutas. O gnero masculino apresentou maior ocorrncia de dores na coluna vertebral (45%), que o gnero feminino, cuja frequncia de dor foi de 27%.

Neste estudo o gnero masculino apresentou maior distribuio de alteraes posturais na coluna vertebral de um modo geral, levando-nos a concordar com RESENDE et al (18), que afirmou que as alteraes posturais podem levar degenerao do sistema musculoesqueltico representados por quadros lgicos. O estudo de VASCONCELOS et al (22) tambm avaliou a sintomatologia dolorosa na coluna vertebral entre os escolares com deficincia auditiva e mostrou que a dor esteve presente em 86,2% dos avaliados. No houve nesse estudo associao entre a dor e o gnero, entretanto, os autores associaram a dor s alteraes posturais, e observaram que a dor esteve mais presente entre os estudantes que apresentaram a hipercifose torcica (91,7%), sendo esta alterao a mais prevalente entre os estudantes desse estudo, corroborando com a afirmao de RESENDE et al (18).

Segundo KENDALL, MCCREARY E PROVANCE (6), a dor surge a partir do acmulo de sobrecargas biomecnicas repetidas por um perodo longo. Detsch et al (28) relataram ainda, que muitas posturas corporais adotadas no dia a dia interferem nas estruturas anatmicas, aumentando o estresse sobre a coluna vertebral, provocando desconfortos, as dores e as incapacidades funcionais.

De acordo com estes dados, observa-se que crianas e adolescentes com deficincia auditiva esto sujeitos a desenvolver alteraes posturais na coluna vertebral. Alm dos fatores de risco do ambiente escolar, como propores inadequadas do mobilirio, do transporte inadequado do material e da mochila escolar, dos maus hbitos posturais em atividades dirias, como por exemplo: ver televiso, jogar vdeo-game e usar o computador, os escolares com deficincia auditiva apresentam ainda acometimento do sistema vestibular concomitante perda auditiva, provocando alteraes na atividade deste sistema sensorial que um dos trs sistemas responsveis pela regulao do controle postural. Desta forma, as crianas com deficincia auditiva podem apresentar dificuldades na regulao do controle postural, ou essa regulao parece encontrar-se descoordenada. Tal fato poderia justificar os altos ndices de alteraes posturais na coluna vertebral observados nos escolares com deficincia auditiva avaliados neste estudo.

O controle postural satisfatrio fundamental para o sucesso de grande parte das tarefas dirias. O conhecimento dos aspectos neurolgicos e biomecnicos deste controle tem implicaes diretas para a fisioterapia, justificando a importncia de pesquisas futuras que abordem este tema. So escassos na literatura estudos que avaliaram a postura e a sintomatologia dolorosa da coluna vertebral em crianas com deficincia auditiva, limitando os autores a aprofundarem-se mais na discusso deste estudo.




Grfico 2. Ocorrncia da sintomatologia dolorosa na coluna vertebral em crianas e adolescentes com deficincia auditiva da amostra (n= 44).




Grfico 3. Ocorrncia da sintomatologia dolorosa na coluna vertebral entre as crianas e adolescentes com deficincia do gnero masculino da amostra (n=22).




Grfico 4. Ocorrncia da sintomatologia dolorosa na coluna vertebral entre as crianas e adolescentes com deficincia auditiva do gnero feminino da amostra (n=22).




CONCLUSES

Neste estudo observou-se uma elevada frequncia de alteraes posturais em escolares com deficincia auditiva, com menor ocorrncia de sintomatologia dolorosa na amostra.

Esses dados ressaltam a necessidade de desenvolver programas preventivos e medidas teraputicas adequadas ainda no ambiente escolar, prevenindo o surgimento das alteraes posturais, restabelecendo o padro postural nos escolares que j apresentam assimetrias posturais, fornecendo um padro postural adequado s crianas com deficincia auditiva.

O fisioterapeuta pode intervir nestes distrbios ainda na infncia, com atuaes em escolas, instituies que atendem esta populao e em equipes interdisciplinares, o que refora a importncia deste profissional no ambiente escolar.

Tais intervenes poderiam ser incorporadas no dia-a-dia de escolas e instituies que atendem esta populao, buscando adequar ou aprimorar o desempenho motor, postural e a qualidade de vida de crianas e de adolescentes com deficincia auditiva.


AGRADECIMENTOS

Ao gestor da Gerncia Regional de Educao do Agreste de Pernambuco pelo consentimento para a realizao da pesquisa; s gestoras da Escola Duque de Caxias, e do Centro de Reabilitao e Educao Especial Rotary, pelo espao cedido aos pesquisadores para a coleta dos dados; aos pais, que concordaram na participao dos seus filhos nesta pesquisa e aos escolares que participaram deste estudo.


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1 Fisioterapeuta. Graduado pela Associao Caruaruense de Ensino Superior (ASCES), Caruaru / PE. Mestrando em Fisioterapia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Recife / PE.
2 Fisioterapeuta. Graduada pela Associao Caruaruense de Ensino Superior (ASCES), Caruaru / PE.
3 Fisioterapeuta. Doutoranda em Sade da Criana e do Adolescente pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Docente do curso de Fisioterapia da Associao Caruaruense de Ensino Superior (ASCES), Caruaru / PE.
4 Fisioterapeuta. Mestre em Cincias Biolgicas (Fisiologia) pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Docente do curso de Fisioterapia da Associao Caruaruense de Ensino Superior (ASCES), Caruaru / PE.

Instituio: Associao Caruaruense de Ensino Superior (ASCES). Caruaru / PE - Brasil. Endereo para correspondncia: Renato de Souza Melo - Rua Avelino Cndido, 32 - Salgado - Caruaru / PE - Brasil - CEP: 55018-070 - Telefone: (+55 81) 3722-6966 - E-mail: renatomelo10@hotmail.com

Artigo recebido em 10 de Janeiro de 2011. Artigo aprovado em 6 de Fevereiro de 2011.
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