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Ano: 1999  Vol. 3   Num. 1  - Jan/Mar Print:
Osteoma de meato acstico interno: relato de caso e reviso da literatura
Osteoma of the internal auditory canal: case report and literature review.
Author(s):
1Rafael Burihan Cahali, 2Rubens Vuono de Brito Neto, 3Tanit Ganz Sanchez, 4Ricardo Ferreira Bento
Palavras-chave:
INTRODUO

Os osteomas so tumores sseos benignos. Histologicamente podem ser compactos (constitudos por lamelas sseas dispostas em camadas paralelas), esponjosos (com espaos medulares largos e sem canais de Havers) ou mistos, associando as duas formas anteriores, sendo este ltimo o de maior freqncia.

Osteomas do osso temporal so mais freqentemente encontrados na sua poro escamosa e mastide, segundo extensa reviso realizada por Denia et al.7, sendo raros no meato acstico interno (MAI). So usualmente assintomticos, representando achados radiolgicos acidentais1,6 . Ocasionalmente, porm, so sintomticos, sintomas estes derivados da compresso do VIII par, como surdez, vertigem e zumbido.

O objetivo deste estudo descrever um caso de osteoma de MAI apresentando hipoacusia sbita e zumbido, alm de apresentar uma reviso bibliogrfica sobre o assunto.

RELATO DO CASO

J.A.R.O., sexo feminino, 49 anos, apresentou-se no ambulatrio de otorrinolaringologia do hospital das clnicas da faculdade de medicina da universidade de So Paulo, com histria de diminuio sbita da audio direita associada a zumbido em apito h 3 anos, negando a presena de vertigem.

A paciente, que at ento era hgida, no apresentava fatores desencadeantes para tais sintomas, como ingesto de drogas, infeces virais recentes, otalgia, otorria ou exposio a rudo. No havia histria familiar ou antecedentes pessoais significativos.

Ao exame fsico, a otoscopia apresentava-se normal. Os testes de diapaso eram compatveis com uma perda neurossensorial direita. Os demais pares cranianos estavam normais.

Os exames laboratoriais que incluram hemograma completo, uria, creatinina, eletrlitos, glicemia, funo tireoidiana, colesterol e sorologia para sfilis, foram normais.

audiometria (Figura 1) evidenciava-se uma perda neurossensorial severa direita em todas as frequncias, mais acentuadamente em 6000Hz, sendo normal esquerda. O SRT foi de 65dB direita e a discriminao, de 60% a 100dB. A audiometria das respostas evocadas do tronco cerebral mostrou alargamento do intervalo I-V no lado D. A tomografia computadorizada de ossos temporais (Figura 2) evidenciou uma leso com densidade ssea na entrada do MAI D, junto ao ngulo ponto cerebelar, ocupando aproximadamente 50% de seu dimetro. Solicitada ressonncia nuclear magntica (Figura 3) que evidenciou uma diminuio da abertura do MAI direita.


Figura 1. Audiometria com disacusia neurossensorial direita.


Figura 2. Tomografia computadorizada com leso de densidade ssea em MAI D.


Figura 3. Ressonncia magntica de ouvido com diminuio da abertura do MAI D.


DISCUSSO

A maioria dos casos de surdez sbita neurossensorial so atribudos a causas idiopticas, vasculares ou virais. A investigao requer exames laboratoriais, avaliao audiomtrica e exames de imagem do meato acstico interno, podendo-se seguir com a ressonncia nuclear magntica, se necessrio2.

A estenose ssea do meato acstico interno uma rara afeco, podendo ser de origem congnita ou adquirida. Assim, podemos citar como causas de estenose de MAI as malformaes congnitas, a otosclerose extensa, patologias sseas generalizadas, hiperostose craniana, a doena de Paget, a sndrome de Camurati-Engelmann, a turricefalia, osteopetrose, hipofosfatemia, displasia fibrosa, clula pneumatizada em pice petroso, alm da deficincia de vitamina A em experimentos animais e os tumores sseos benignos: exostose e osteoma4.

O relato mais antigo de osteoma de MAI foi descrito por Moos e Steinbrugge em 1882 em um cadver do sexo feminino.

Osteomas e exostoses so diferenciados segundo os critrios de Graham8, considerando exostoses como massas bilaterais, mltiplas e de base alargada e osteomas como unilaterais, isolados e pedunculados. Microscopicamente, so constitudos por lamelas sseas com poucos ostecitos e rico em canais fibrovasculares, enquanto as exostoses camadas paralelas e concntricas de subperistio rico em ostecitos e sem canais fibrovasculares. No entanto, Coakley3 afirma que esta diferenciao entre osteoma e exostose no ocorreria em MAI, onde exostose clinicamente no existiriam.

A etiologia destas leses desconhecida, porm trauma, infeces e hereditariedade so possveis causadores. So mais prevalentes em mulheres e raros antes da puberdade7 (Tabela 1), provavelmente devido participao hormonal em sua gnese. A idade mdia de 41 anos e so 2,6 vezes mais freqentes em mulheres que em homens. Clerico4 descreve um caso onde associou o batimento da artria cerebelar ntero-inferior com osteoma de MAI, onde ocorreria um trauma constante contra a parede posterior do MAI originando uma ostete ossificante que terminaria com a formao do osteoma.

Osteomas de MAI so infreqentes e pouco sintomticos. Pelo MAI passam estruturas como o nervo facial, coclear, vestibulares superior e inferior e a artria labirntica, porm nenhum caso com sintomatologia de stimo par craniano foi ainda relatado3 .

Entre os 7 casos de osteoma de MAI com sintomatologia nica h predomnio de perda auditiva em 5 deles, sendo 2 progressivas e 3 sbitas; 1 caso manifestou-se com vertigem isolada e 1 paciente com zumbido apenas. A perda auditiva o sintoma mais comum: nos 12 pacientes revisados, 9 apresentavam perda auditiva, sendo sbita em 3 deles, 7 com vertigem, e 7 com zumbido.

Clerico et al.4 descreveram um caso com sintomas de vertigem incapacitante, zumbido e perda auditiva, onde aps brocagem da leso e seco do nervo vestibular, obtiveram melhora apenas da vertigem.

Ramsay e Brackmann1 descrevem um caso com a mesma sintomatologia e com melhora de todos os sintomas aps cirurgia, sendo o nico caso descrito com cura da perda auditiva, Doan e Powell11 descrevem um caso de osteoma de MAI com perda auditiva corrigida por cirurgia sem comprovao audiomtrica.

Clerico e Roberto4,13 descreveram casos nos quais os pacientes apresentavam, alm da vertigem e zumbido, perda auditiva, sintoma este no corrigido por cirurgia.

Outros autores 3,5 descrevem que aps a descompresso do VIII par, obtiveram melhora dos sintomas de zumbido e vertigem, nicos sintomas presentes antes da cirurgia.

Assim, dos 6 casos submetidos cirurgia, todos os 5 que apresentavam vertigem no pr-operatrio tiveram regresso deste sintoma com a cirurgia. Em nenhum dos casos a surdez sbita foi indicao cirrgica

Em nosso caso, a manifestao clnica do osteoma foi de surdez sbita unilateral h 3 anos e zumbido. A surdez sbita j foi descrita por outros autores 2,9 como sintoma de osteoma de MAI, e por ser um tumor de acesso difcil, a cirurgia ter risco de paralisia facial, a disacusia ser em geral definitiva e ser um tumor benigno de crescimento lento, optou-se pelo tratamento conservador, no afastando o tratamento cirrgico da leso caso sintomas de paralisia facial e vertigem intratvel clinicamente fossem constatadas.

Vale lembrar que a ressonncia nuclear magntica o exame de escolha na suspeita de tumores retrococleares, porm, devido sua incapacidade de fornecer detalhes sobre as estrututras sseas, poder fornecer resultados negativos na deteco de osteoma de MAI, como descrito por alguns autores3,4,5,9. Assim sendo, a tomografia computadorizada permanece como exame de escolha na deteco de leses sseas do osso temporal.

As cirurgias propostas so a remoo do osteoma, a remoo do tumor com neurectomia vestibular ou apenas a neurectomia vestibular.

Neste caso, por apresentar somente surdez sbita e zumbido no , em nossa opinio, indicao para cirurgia devido natureza benigna da leso, aos riscos cirrgicos de paralisia facial, sendo acompanhado periodicamente tanto clnica quanto radiologicamente. Caso o paciente apresente vertigem intratvel ou paralisia facial perifrica a cirurgia de descompresso de MAI deve ser realizada.

CONCLUSO

Apresentamos um caso de osteoma do meato acstico interno manifestando-se com surdez sbita e zumbido, o que nos faz incluir esta patologia no diagnstico diferencial da surdez sbita

REFERNCIAS

1. Ramsay, H. A. W., Brackmann, D. E.- Osteoma of the internal auditory canal. Archives of Otolaryngology, Head and Neck Surgery, 120: 207-208, 1994.

2. Singh, V., Annis, J. A. D., Tood, G. B.- Osteoma of the internal auditory canal presenting with sudden unilateral hearing loss. The Journal of Laryngology and Otology, 106: 905-907, 1992.

3. Coakley, D. J., Turner, J., Fagan, P. A.- Osteoma of the internal auditory canal: case report. The Journal of Laryngology and Otology, 110: 158-160, 1996.

4. Clerico, D. M., Fontonella, S., Jahn, A. F.- Osteoma of the internal auditory canal. Case report and literature review. Annals of Otology, Rhinology, Laryngology, 103: 619-623, 1994.

5. Estrem, S. A., Vessely, M. B., Oro, J. J.- Osteoma of the internal auditory canal. Otolaryngology, Head and Neck Surgery, 108: 293-297, 1993.

6. Beale, D. J., Phelps, P.D.- Osteomas of the temporal bone: a report of three cases. Clinical radiology, 38: 67-69, 1987.

7. Denia, A., Perez, F., Canalis, R. R., Graham, M. D. - Extracanalicular osteomas of the temporal bone. Archives of Otolaryngology, 105: 706-709, 1979.

8. Graham, M. D. - Osteomas and exostoses of the external auditory canal. A clinical, histopathologic and scanning electron microscopic study. Annals of Otology, Rhinology, Laryngology, 88: 566-572, 1979.

9. Boedts, M., Hermans, R., Feenstra, L.- Osteomas of the internal auditory canal. Acta oto-rhino-laryngologica belga, 51: 191-193, 1997.

10. Smelt, G. J. C.- Exostoses of the internal auditory canal. The Journal of Laryngology and Otology, 98: 347-350, 1984.

11. Doan, H. T.- Exostoses of the internal auditory canal. The Journal of Laryngology and Otology, 102: 173-175, 1988.

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13. Roberto, M., Ettorre G. C., Iurato, S.- Stenosis of the internal auditory canal. The Journal of Laryngology and Otology, 93: 1211-1216, 1979.

14. Valenzuela, A. T.- Osteoma del conducto acstico interno. Presentacin de un caso y revisin de la bibliografa. Gaceta Mdica Mexicana, 134: 355-357, 1998.

15. Wright, A.; Corbridge, R.; Bradford, R. Osteoma of the internal auditory canal. British Journal of Neurosurgery, 10 (5): 503-506, 1996.

Endereo para correspondncia: Rafael Burihan Cahali, Rua Macau, 232 - Ibirapuera - CEP 04032-020 So Paulo - SP -Telefone: (011) 570-1299.Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica do Hospital das Clnicas da FMUSP - Servio do professor Aroldo Miniti.

1- Mdico Residente da Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica do Hospital das Clnicas da FMUSP.
2- Doutorando do Curso de Ps Graduao da Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica do Hospital das Clnicas da FMUSP.
3- Assistente Doutora da Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica do Hospital das Clnicas da FMUSP.
4- Professor Assistente da Diviso de Clnica Otorrinolaringolgica do Hospital das Clnicas da FMUSP.
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