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8
Ano: 1999  Vol. 3   Num. 1  - Jan/Mar Print:
Original Article
Cisto de rinofaringe
Nasopharynx cyst.
Author(s):
1Regina Helena Garcia Martins, 2Jair Cortez Montovani, 3Adriana Gimenes Pin Corra, 4Viviane Vasconcelos Khouzam
Palavras-chave:
INTRODUO

As patologias benignas da rinofaringe so relativamente raras, destacando-se as massas tumorais, como o nasoangiofibroma juvenil, o plipo antro-coanal, os tumores mesenquimatosos, os linfomas e os papilomas1,2,3,4,5. Essa regio pode ser, tambm, sede de cistos (congnitos ou adquiridos), os quais, dependendo da localizao, apresentam origens distintas.

O epitlio de revestimento da regio da rinofaringe do tipo respiratrio pseudoestratificado ciliado, com glndulas seromucosas, as quais podem apresentar ocluso de seus ductos excretores e, conseqentemente, levarem formao de cistos mucosos de reteno. Estes, geralmente, so pequenos, com superfcie lisa, brilhante e mltiplos. Podem ser localizados em toda a extenso da rinofaringe, sem causarem sintomatologia. Entretanto, em alguns casos, podem ser volumosos e causarem obstruo nasal e sintomas auditivos4.

Os cistos localizados na linha mdia da nasofaringe correspondem, na maioria das vezes, aos cistos congnitos, destacando-se o cisto de Tornwaldt, o cisto de Rathke e o branquial. Destes, o mais freqente o cisto de Tornwaldt, localizado na linha mediana do teto da rinofaringe3. Este se forma a partir da ocluso do pertuito remanescente entre o ectoderma da faringe e a notocorda primitiva, presente em 3% dos indivduos normais. Tal ocluso pode ocorrer frente a processos inflamatrios, traumticos ou degenerativos da rinofaringe, e manter-se assintomtico por muitos anos, ou manifestar-se com quadro clnico de cefalia occipital, secreo ps-nasal, obstruo nasal ou halitose. O cisto de Rathke, tambm localizado na linha mediana da rinofaringe, corresponde ao recesso do canal faringohipofisrio6,7,8. J os cistos branquiais ocupam as regies laterais do cavum, podendo ocasionar sintomas obstrutivos nasais e sintomas auditivos, ou serem achados ocasionais de exame otorrinolaringolgico.

O objetivo do estudo relatar o presente caso clnico, de cisto em rinofaringe associado a sintomas auditivos.


Figura 1. Cisto de reteno em nasofaringe (seta). Observar sua proximidade com a tuba auditiva.


RELATO DO CASO

Paciente R.R., 40 anos, queixa-se de hipoacusia em ouvido direito h 2 meses, aps quadro gripal. Nega qualquer queixa de obstruo nasal, secreo ps-nasal, ou cefalia. Refere ter utilizado amoxicilina (1,5 g/dia, por 10 dias) no incio do quadro gripal, sem melhora dos sintomas auditivos. De antecedentes pessoais, relata ter sido submetido a transplante renal h 4 anos, por sofrer de doena renal crnica e fazer uso de prednisona (10 mg/dia) desde a data do transplante. O exame ORL demonstrou fossas nasais amplas, sem secrees, membrana timpnica direita com retrao e presena de lquido em ouvido mdio; membrana timpnica esquerda normal. Ao exame de rinoscopia posterior, observou-se tecido adenoideano, com formato assimtrico, s custas de abaulamento direita. Realizou-se exame de nasofibroscopia flexvel, para avaliao mais detalhada dessa regio, sendo observada, sobre o tecido adenoideano remanescente, rea cstica bilobulada, de colorao amarelada, tocando o torus tubrio direita (Figura 1). A abertura farngea da tuba auditiva desse lado encontrava-se congesta e edemaciada. O exame audiomtrico da orelha direita mostrou perda auditiva do tipo condutiva, com limiares auditivos em 40 dB (Grfico 1). O exame audiomtrico do lado esquerdo foi normal. A timpanometria, direita, indicou presena de curva do tipo B (Grfico 2).

Realizada marsupializao da rea cstica, por via endoscpica transnasal, com drenagem de grande quantidade de secreo amarelada e espessa. Realizada, tambm, paracentese em ouvido direito, com drenagem de grande quantidade de secreo translcida e fluida .

Aps 1 ms da drenagem cirrgica, o paciente referiu melhora total do quadro otolgico. Realizado novo exame audiomtrico e impedanciomtrico, estes apresentaram-se dentro dos padres da normalidade. O exame endoscpico do cavum no mostrou nenhuma massa cstica remanescente.


Grfico 1. Exame audiomtrico mostrando perda auditiva do tipo condutiva em orelha direita.


Grfico 2. Timpanometria indicando presena de lquido em orelha mdia direita (curva do tipo B).


DISCUSSO

Os cistos de rinofaringe so relativamente raros e, quando pequenos, podem passar desapercebidos ao exame de rinoscopia posterior convencional. Muitas vezes, so achados ocasionais de exames endoscpicos da rinofaringe. Entretanto, quando volumosos, podem causar sintomas nasais ou auditivos4. No presente caso, o exame do paciente, atravs da rinoscopia posterior das fossas nasais, mostrou discreta assimetria em regio pstero-superior da rinofaringe. Esse dado reala a importncia da endoscopia nasossinusal, rgida ou flexvel, atravs da qual pudemos observar a presena da tumorao cstica sobre o tecido adenoideano remanescente, prximo ao torus tubrio que, por apresentar superfcie lisa e amarelada, com limites bem definidos, foi diagnosticada como cisto de reteno mucoso.

Os diagnsticos diferenciais devem ser feitos com outros cistos da rinofaringe e com os tumores malignos.

Os cistos de rinofaringe podem ser congnitos, como o cisto de Tornwaldt, o cisto de Rathke e o cisto branquial. Os dois primeiros localizam-se na regio mediana da rinofaringe e o ltimo na regio lateral1,2,6,7,8. J os cistos adquiridos, denominados de cistos mucosos de reteno, originam-se a partir da obstruo dos ductos das glndulas mucosas encontradas nessa regio. Localizam-se, mais freqentemente, nas regies laterais da rinofaringe, e diferenciam-se dos cistos branquiais por serem, geralmente, mltiplos e pequenos9,10. Entretanto, Tamayo et al4 apresentam o quadro clnico de um paciente com um cisto mucoso volumoso em rinofaringe, com sintomas auditivos associados. Neste caso, o cisto era muito grande e visvel pela orofaringe, permitindo o dignstico diferencial com o plipo antro-coanal de Killian.

Finalizando, enfatizamos que os tumores malignos do cavum so mais freqentes que os benignos e, sendo assim, devem ser sempre amplamente valorizados em pacientes com sintomas auditivos unilaterais. Nestes casos, torna-se necessria a inspeo cuidadosa do cavum atravs de rinoscopia posterior e nasofaringoscopia flexvel ou rgida, considerada imprescindvel em todos os pacientes com patologias de rinofaringe11,12.

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Disciplina de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo Departamento de OFT, ORL e CCP - Faculdade de Medicina de Botucatu UNESP . Telefone 8212121 Ramal 2256 Rubio Junior - Botucatu /SP.
Correspondncia: Regina H. Garcia Martins Faculdade de Medicina de Botucatu Unesp Departamento de OFT/ORL e CCP Fone 8212121 Ramal 2256 Botucatu SP E-mail: rmartins@fmb.unesp.br

1- Profa. Dra. da Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Botucatu - Unesp.
2- Prof. Adjunto da Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Botucatu - Unesp
3- Mdica Residente em Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Botucatu - Unesp
4- Mdica Residente em Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina de Botucatu - Unesp.
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