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Ano: 2011  Vol. 15   Num. 4  - Out/Dez
DOI: 10.1590/S1809-48722011000400002
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Orientao ao usurio de prtese auditiva: reteno da informao
Guidance to the user of the hearing aid: retention of information
Author(s):
Tatiane Geraldo1, Deborah Viviane Ferrari2, Barbara Guimares Bastos3.
Palavras-chave:
audio, perda auditiva, aconselhamento, auxiliares de audio.
Resumo:

Introduo: Diferentes informaes so transmitidas ao novo usurio de prtese auditiva, em um curto perodo de tempo. O usurio necessita entender e reter tais informaes para subsequente recuperao e ao, assegurando o uso apropriado do dispositivo. Objetivo: Verificar a reteno de informaes sobre a perda auditiva e uso/cuidados com a prtese auditiva em novos usurios destes dispositivos. Analisar se existe influncia de dados demogrficos e audiolgicos neste processo. Mtodo: Estudo prospectivo. Participantes: 30 deficientes auditivos (18 mulheres e 12 homens) com idades entre 18 e 88 anos. Foram oferecidas orientaes verbais apoiadas com uso de ilustraes no momento do diagnstico audiolgico e adaptao da prtese auditiva. Houve treino de manipulao da prtese. Trs semanas aps a adaptao foi realizada a avaliao da reteno da informao sobre a perda auditiva (evocao livre) e uso/cuidados com a prtese (evocao auxiliada). A manipulao das prteses tambm foi avaliada. As respostas e observaes do avaliador foram anotadas em um protocolo especfico e pontuadas. Resultados: Em mdia os participantes retiveram, respectivamente, 31,6% e 83,6% das informaes sobre a perda auditiva e uso/cuidados com a prtese auditiva. Houve diferena significativa da reteno de informao sobre a perda auditiva entre adultos e idosos. No houve correlao entre a reteno de informao com o grau da perda auditiva, escolaridade e nvel scio econmico. Concluso: Faz-se necessria utilizao de estratgias que facilitem e melhorem a reteno da informao sobre o diagnstico audiolgico, uso e cuidados com a prtese auditiva para novos usurios deste dispositivo.

INTRODUO

Fornecer aconselhamento a clientes e seus familiares e/ou cuidadores uma das reas de competncia do fonoaudilogo. O aconselhamento uma oportunidade de receber e fornecer informaes de modo a facilitar o entendimento da deficincia auditiva e o ajuste a esta condio. De modo geral dois tipos de aconselhamento podem ser oferecidos, sendo ambos importantes no processo de adaptao da prtese auditiva: (1) ajuste pessoal, o qual envolve o desenvolvimento de mecanismos e sistemas de suporte emocional para o indivduo lidar com a deficincia e (2) informativo, aqui considerado como sinnimo de "orientao" (1).

No que diz respeito orientao sugere-se a abordagem dos seguintes tpicos: antomo-fisiologia da audio; natureza dos diferentes tipos de deficincia auditiva; caractersticas gerais das prteses auditivas e explicao dos motivos que nortearam a seleo de um tipo de prtese em particular; instrues sobre o uso, cuidado e resoluo de problemas com as prteses auditivas e molde auricular; instrues sobre o uso do telefone e equipamento auxiliares, quando pertinente; recomendaes para as consultas de acompanhamento dos adultos e orientao a respeito das expectativas quanto ao uso da prtese auditiva (2,3). Tambm enfatizada a importncia de demonstraes manuais de como operar a prtese auditiva (4).

Estas informaes so importantes para assegurar o uso apropriado das prteses auditivas e manter o bom funcionamento do dispositivo, evitando a necessidade de reparos ou reposies e, sobretudo, garantindo que o sinal amplificado seja o mais claro possvel para o usurios (5).

Como visto, existe uma variedade de informaes que devem ser transmitidas e demonstradas ao usurio da prtese auditiva, geralmente em um curto perodo de tempo. Este indivduo, por sua vez, necessita entender e armazenar acuradamente tais informaes, muitas vezes no familiares, para subsequente recuperao e ao (6).

Dentre outros fatores, a ansiedade causada pela situao de utilizar uma prtese auditiva, a falta de familiaridade com o contedo abordado na orientao e a prpria presena de uma perda auditiva dificultam o entendimento da mensagem e reteno da informao. Alm disto, as habilidades comunicativas do profissional, as estratgias utilizadas para transmitir a informao bem como a quantidade de informaes oferecidas influenciam o processo de reteno das orientaes (2, 7-9).

Outro ponto importante o tipo de tarefa utilizada para avaliar a habilidade do paciente em reter informaes de sade. Nas tarefas de reconhecimento o indivduo necessita selecionar a informao correta dentre diferentes opes fornecidas - similar a um teste de mltipla escolha. Em tarefas de evocao auxiliada (probed recall) existe algum tipo de pista ou auxlio para evocao. Por exemplo: "Qual o tamanho da bateria da sua prtese auditiva?". Em tarefas de evocao livre nenhuma pista fornecida, por exemplo, o indivduo necessitaria evocar o tamanho da bateria da prtese frente pergunta "Me diga tudo o que voc sabe sobre o uso e cuidado da sua prtese auditiva" (10).

Poucas pesquisas identificaram a quantidade de informao retida aps as orientaes na clnica audiolgica. Em um estudo com adultos novos usurios, empregando tarefas de reconhecimento, foi verificado que estes que retinham aproximadamente 85 a 75% da informao fornecida imediatamente ou aps os primeiros meses de adaptao da prtese auditiva. Foi observado, ainda, que a idade e severidade da perda auditiva diminuam a reteno da informao (10). Em outro estudo, adultos novos usurios responderam um questionrio com 25 perguntas abertas (tarefa de evocao auxiliada) sendo observado que em mdia a reteno da informao foi de 80% e 77% imediatamente e quatro semanas aps a adaptao, respectivamente (11).

A observao de como o usurio cuida e manipula a prtese auditiva e molde auricular fornece uma medida indireta de como a orientao fornecida foi retida e est sendo utilizada. OLIVEIRA et al. (2001) (12) verificaram que 76% de adultos novos usurios apresentaram alguma dificuldade de manipulao e uso da prtese e/ou molde auricular um ms aps a adaptao. Em outro estudo foi observado que a maior parte dos usurios tinha dificuldades em relao aos moldes auriculares ou cpsulas da prtese auditiva (13). No caso de usurios experientes tambm foi demonstrado que o nvel de habilidade dos mesmos quanto manipulao e cuidados com a prtese auditiva variou de excelente a ruim, sendo que piores desempenhos foram observados em tarefas de limpeza da prtese e uso da bobina telefnica (5).

O entendimento e a reteno da informao fornecida pelo profissional de sade aumentam a satisfao do paciente e a aderncia ao tratamento ao mesmo tempo em que diminui a ansiedade e o tempo de tratamento o que, por consequncia, diminui tambm o seu custo (3). Estudos realizados com idosos demonstraram que a facilidade de manipulao e cuidados com a prtese auditiva e molde auricular estava relacionada com o nmero de horas de uso e a autopercepo do benefcio obtido com o uso do dispositivo (14,15).

Pelo exposto, o objetivo deste estudo verificar o quanto adultos novos usurios de prtese auditiva conseguem reter das orientaes oferecidas aps o diagnstico audiolgico e processo de adaptao da prtese auditiva e analisar se fatores como a idade, o grau da perda auditiva, o nvel scio econmico e a escolaridade apresentam alguma influncia na reteno da informao.


MTODO

O presente estudo prospectivo, descritivo, exploratrio e transversal foi realizado no Centro de Pesquisas Audiolgicas (CPA) do Hospital de Reabilitao de Anomalias Craniofaciais (HRAC) da Universidade de So Paulo, sendo aprovado pelo Comit de tica em Pesquisas com Seres Humanos (protocolo 099/2005-CPq). Todos os participantes foram voluntrios, concordaram com a realizao dos procedimentos necessrios para a execuo do estudo e assinaram o Termo de Consentimento Livre Esclarecido.

Participantes

O estudo envolveu uma amostra selecionada (no aleatria) correspondente aos primeiros 30 indivduos atendidos no servio em questo que aceitassem participar voluntariamente da pesquisa e obedecessem aos seguintes critrios de incluso: (a) apresentar idade maior que 18 anos, (b) ser portador de deficincia auditiva de qualquer tipo ou grau, uni ou bilateral, (c) no apresentar deficincia visual que no fosse passvel de correo com lentes, (d) no apresentar alteraes motoras ou alteraes de destreza manual graves, (e) no apresentar processos demenciais ou outros distrbios neurolgicos ou psiquitricos (conforme avaliao neurolgica e psicolgica constantes no pronturio dos participantes), (f) no ter realizado exames audiolgicos anteriormente, quer em servio pblico ou privado e (g) no apresentar experincia prvia com uso da prtese auditiva.

Os participantes possuam idade variando entre 18 e 88 anos, sendo 13 adultos (idade menor que 60 anos) e 17 idosos. Dezoito participantes eram do sexo feminino e 12 do sexo masculino. Nenhum participante havia passado pelo processo de diagnstico audiolgico anteriormente, quer seja em servios pblicos ou privados. Todos apresentavam deficincia auditiva ps-lingual sendo neurossensorial bilateral (n=26), mista bilateral (n=3) e neurossensorial em uma orelha e mista na outra (n=2). Vinte participantes possuam perda auditiva simtrica e 10 possuam perda assimtrica. A classificao do grau da perda auditiva foi realizada a partir da mdia dos limiares de 500, 1k, 2k e 4k Hz na melhor orelha, de acordo com a Organizao Mundial de Sade (16). Todos os participantes eram novos usurios e foram adaptados com prteses auditivas digitais (n=27, 90%), analgicas (n=1, 3,3%) e hbridas (n=2, 6,7%). Os dados de escolaridade e classificao scio-econmica (17) foram extrados do formulrio de avaliao do servio social que constava no pronturio dos participantes. A caracterizao dos participantes encontra-se na Tabela 1.

Procedimentos

O processo de orientao foi realizado em diferentes etapas, sendo o contedo abrangido em cada uma delas descrito Tabela 2. O participante compareceu ao Centro de Pesquisas Audiolgicas em trs dias consecutivos. No primeiro dia foi realizado o diagnstico, no segundo dia foram feitos os procedimentos de seleo e verificao da prtese e no terceiro dia foi realizada a adaptao.

Para a realizao das atividades de orientao foi feita a transformao do discurso tcnico em discurso comum, sendo utilizados apoios visuais como, por exemplo, figuras e grficos especficos para facilitar a compreenso da mensagem. Estratgias de comunicao compatveis com as habilidades auditivas do participante foram tambm empregadas (por exemplo: uso de leitura orofacial, diminuio da velocidade da fala, uso de repeties, refraseamento, apoio da escrita quando necessrio).

Um mesmo profissional realizou as orientaes para todos os participantes. Uma lista de verificao foi utilizada para que este profissional abordasse todos os tpicos necessrios. Os participantes foram solicitados a interromper o avaliador e solicitar clarificao sempre que necessrio.

O tempo utilizado para a orientao sobre as caractersticas da deficincia auditiva e sobre uso e cuidados com a prtese auditiva foi semelhante, em torno de 40 minutos. Durante a sesso de orientao cada um dos participantes praticou juntamente com o fonoaudilogo as atividades de insero e remoo do molde auricular / prtese auditiva na orelha, insero e remoo da bateria, operao do controle de volume e chaves comutadoras (quando existentes) e uso do telefone. As orientaes de manipulao, uso, limpeza e cuidados com a prtese auditiva foram tambm oferecidas na forma escrita (manuais do prprio fabricante), possibilitando ao participante a leitura das mesmas, em sua residncia, aps a adaptao.

Os participantes retornaram ao servio para a primeira consulta de acompanhamento, quando foi realizada a avaliao da reteno da informao fornecida. O tempo discorrido entre a adaptao da prtese e a avaliao foi igual a uma (n=3), trs (n=21) e quatro semanas (n=6). A diferena entre os tempos para a avaliao ocorreu em funo da disponibilidade de comparecimento do participante.

Para o propsito desta avaliao foi elaborado um protocolo contendo informaes gerais do modelo, tipo e tecnologia empregada na prtese auditiva adaptada, nmero de horas dirias de uso do dispositivo e os itens abordados nas diferentes etapas de orientao. O avaliador realizava uma entrevista com cada participante, questionando-o a respeito das caractersticas da sua perda auditiva bem como quanto ao uso e cuidados com a prtese auditiva. O avaliador tambm realizava a inspeo das condies de uso e conservao do molde auricular e da prtese auditiva.

No que se refere s caractersticas da perda auditiva o paciente foi solicitado a relatar qualquer informao que recordasse (tarefa de evocao livre). As informaes de interesse a serem pontuadas se referiam severidade da perda auditiva (grau da perda) e localizao da leso (tipo da perda). No era esperado dos mesmos o uso de terminologia tcnica. As respostas do participante foram registradas no protocolo. Dois avaliadores independentes analisaram tais respostas e atriburam uma nota. Se o participante recordasse corretamente as informaes era atribuda a pontuao 10, se recordasse parcialmente (por exemplo, se recorda da severidade da mesma mas no do local da leso) era atribuda a pontuao 5 e no caso de no se recordar de nenhuma informao era atribuda pontuao 0.

Para a avaliao da reteno da informao quanto ao uso e cuidado com a prtese foi utilizada tarefa de evocao auxiliada. Foram realizadas perguntas a respeito de dez itens: insero e remoo da bateria, durao da bateria, necessidade de manter uma bateria extra para troca, remoo da prtese auditiva/molde, insero da prtese auditiva/molde, higienizao do molde e prtese, manipulao do controle liga/desliga, cuidados com a prtese auditiva e molde auricular e resoluo de problemas com a prtese auditiva. O participante tambm era solicitado a manipular a prtese auditiva em frente ao avaliador (por exemplo, colocar e retirar molde auricular e/ou prtese auditiva, colocar e retirar as pilhas, manipular controle de volume e chaves comutadoras de liga e desliga, bobina telefnica, etc). Desta forma, eram consideradas tanto a resposta verbal do participante quanto demonstrao da ao. Foi atribudo um ponto para cada item respondido ou demonstrado corretamente.

As pontuaes obtidas por cada participante foi dividida pela pontuao total possvel (igual a 10) e multiplicado por 100, a fim de obter a porcentagem de informaes retidas.

Com relao manipulao do controle de volume este item foi analisado separadamente em virtude de existir 18 participantes que utilizavam prtese auditiva intracanal com controle de volume automtico.

A anlise dos dados foi realizada por meio de estatstica descritiva. Foram tambm realizadas comparaes das mdias das pontuaes de reconhecimento da informao entre homens e mulheres, entre adultos e idosos e entre usurios de prtese retroauricular e intracanal (teste t). Foram verificadas as correlaes entre o grau da perda auditiva (coeficiente de correlao de Pearson), escolaridade e nvel scio econmico dos participantes (coeficiente de correlao se Spearman) e as pontuaes obtidas pelos indivduos durante a avaliao. Para todos os casos foi adotado alfa igual a 5%.


RESULTADOS

O Grfico 1 mostra os resultados obtidos com relao reteno da informao sobre as caractersticas da deficincia auditiva.

Com relao ao nmero de horas de uso da prtese auditiva, 22 participantes (73,3%) a utilizavam por mais que dez horas e oito participantes (26,7%) a utilizavam por at quatro horas dirias. Destes ltimos, um indivduo no utilizava a prtese durante sua jornada de trabalho, uma vez o ambiente apresentava muita umidade e poeira, e trs indivduos ainda estavam no perodo de aclimatizao aos sons amplificados.

O Grfico 2 mostra a distribuio da pontuao obtida para os itens de uso, cuidados e manipulao da prtese auditiva e/ou molde auricular.

Com relao manipulao do controle de volume realizada pelos 12 usurios de prtese auditiva retroauricular, verificou-se que nove participantes (75%) realizavam manipulao adequada e trs (25%) no se recordavam da funo deste controle e, portanto, no o manipulavam embora sentissem a necessidade de aumentar ou diminuir a amplificao em alguns ambientes.

A diferena entre as mdias da pontuao de uso e cuidados com a prtese entre usurios de dispositivos retroauriculares (x=8,3; dp=2) e intracanais (x=9,1; dp=1,2) no foi estatisticamente significativa (p=0,12).

As mdias da pontuao entre adultos e idosos bem como a significncia estatstica entre elas (teste t) encontra-se na Tabela 3.

A Tabela 4 mostra as correlaes obtidas entre a escolaridade, classificao scio-econmica e grau da perda auditiva dos participantes com a reteno da informao a respeito das caractersticas da perda auditiva e uso e cuidados com a prtese auditiva e molde auricular.



Legenda: Mod: Moderada Sev: Severa Prof: Profunda
Retro: Retroauricular Intra: Intra-canal BS: Baixa superior MI: Mdia Inferior Me: Mdia FI: Fundamental Incompleto M: Mdio Completo S: Superior completo.




*As opes de tratamento foram discutidas juntamente com um mdico otorrinolaringologista.




*p<0,005 estatisticamente significante.




*p<0,005 estatisticamente significante.




DISCUSSO

Em mdia, os participantes conseguiram reter 31,6% (dp=30) das informaes a respeito das caractersticas de sua perda auditiva (Grfico 1). Verificou-se que apenas dois indivduos (6,7%) conseguiram evocar 100% das informaes fornecidas, incluindo a hiptese etiolgica. Doze participantes (40%) conseguiram evocar apenas a severidade da perda. A anlise das respostas registradas mostrou ser comum a referncia a uma porcentagem de perda da audio, embora esta informao no tivesse sido fornecida na sesso de orientao: "(..) perdi 60% dos agudos"; " uma perda de 50% nas duas orelhas", "(...) leve, perdi uns 10% da audio (...)".

Trs participantes (10%) conseguiram evocar apenas o local da leso "(..) nas clulas da cclea"; "o problema est no ouvido mais interno", "(..) perfurao no tmpano e tambm na cclea".

De particular importncia foi o fato de que 13 participantes (43,3%) no conseguiram evocar corretamente nenhuma informao a respeito das caractersticas de sua deficincia auditiva.

At a concluso deste artigo no havia sido encontradas outras pesquisas a respeito da reteno da informao sobre a perda de audio. A anlise da literatura em outras reas da sade mostra que comum os pacientes no reterem informaes a respeito do diagnstico de uma doena, at mesmo quando esta ameaa a vida. Na rea de oncologia verificou-se que dez dias aps o diagnstico os pacientes conseguiam evocar 50% das informaes fornecidas (18). Alm disto, uma pesquisa na rea de emergncia mdica observou que cerca de 80% dos pacientes compreendia erroneamente as informaes diagnsticas fornecidas sem, no entanto, estarem cientes disto (19).

Com relao s informaes de uso e cuidados com a prtese auditiva, em mdia os participantes evocaram 86,3% das informaes (Grfico 2). Ressalta-se que a insero e remoo da bateria e lacre foi o item em que os participantes tiveram mais dificuldade, sendo que apenas 14 participantes (47%) conseguiram evocar esta informao corretamente.

Devido s diferenas metodolgicas no possvel realizar uma comparao direta do presente estudo com a literatura, no entanto, os dados aqui relatados esto em concordncia com outros estudos com novos usurios de AASI onde foram observadas reteno de informao de 77 a 85% (10,11).

Os participantes evocaram maior nmero de informaes sobre o uso e cuidados com a prtese auditiva do que sobre as caractersticas de sua deficincia auditiva. Um dos fatores que contribuiu para este resultado foi o tipo de tarefa utilizada na avaliao. O nvel de dificuldade associada com uma dada tarefa atribudo quantidade de esforo necessrio para a recuperao da informao. Assim, tarefas de livre evocao so mais difceis do que tarefas de evocao auxiliada (11).

Outro fator que pode ter contribudo o impacto do diagnstico da deficincia auditiva que, frequentemente, gera no indivduo sentimentos de choque, dor e estresse (20). Estes sentimentos contribuem para o estreitamento da ateno(8) dificultando a absoro de informao e fazendo com que o indivduo se recorde apenas do dado mais importante e de maior impacto emocional(7). Ou seja, quando confrontado com o diagnstico da deficincia auditiva, geralmente incurvel e com consequncias para toda vida, esta mensagem pode ter se tornado o foco de ateno do indivduo e as informaes "secundrias" como, por exemplo, o resultado dos exames realizados, no so processadas e armazenadas na memria.

O modo e contexto da apresentao da informao tambm podem ter influenciado o resultado. No foram oferecidos materiais por escrito, como, por exemplo, folhetos explicativos, a respeito da deficincia auditiva e resultados dos testes para que o participante pudesse retomar as informaes em um outro momento, o que pode ter dificultado a reteno das mesmas (21).

Tambm deve ser ressaltado que os indivduos tm mais facilidade para reter informaes concretas do que abstratas e quando os tpicos so apresentados de maneira explicitamente estruturada (7,8). Ainda que as ilustraes sejam facilitadoras, o contedo das orientaes sobre a deficincia auditiva mais abstrato do que as orientaes sobre o uso e cuidados com a prtese auditiva e molde auricular, j que estes poderiam ser visualizados e manipulados pelo participante. A avaliao dos participantes deste estudo no ocorreu imediatamente aps o fornecimento das orientaes. Desta forma, no possvel precisar qual o efeito que a experincia diria com o uso, cuidado e manipulao da prtese auditiva e molde auricular teve sobre a reteno das orientaes dadas. No entanto, como a grande maioria dos participantes utilizou suas prteses auditivas efetivamente no perodo que antecedeu a avaliao plausvel afirmar que os mesmos estivessem muito mais familiarizados com este contedo do que sobre a sua deficincia auditiva.

Adultos evocaram significativamente mais informao do que os idosos sobre a perda auditiva, mas no sobre o uso e cuidados com a prtese. Isto pode ter ocorrido tambm em funo da tarefa utilizada (evocao livre x evocao auxiliada). REESE e HNATH-CHISOLM (2005) (10) tambm no encontraram influncia da idade na quantidade da informao retida sobre o uso e cuidados com a prtese auditiva quando tarefas de reconhecimento da informao foram utilizadas. Pesquisas em outras reas de sade onde foi utilizada a tarefa de evocao livre da informao tambm encontraram piores resultados para idosos (22,23).

Indivduos idosos possuem pior memria para eventos ou fatos (memria episdica) podendo isto ser resultante da diminuio da capacidade cognitiva relacionadas idade. sugerido que a dificuldade dos idosos encontra-se mais no processo de codificao e armazenamento das informaes (8).

No foram observadas correlaes significativas entre a escolaridade e classificao scio-econmica com a quantidade de informao evocada. Outros estudos demonstraram aumento da reteno da informao com o aumento da escolaridade (22,23). No presente estudo a influncia da escolaridade pode no ter sido observada em funo de a casustica ter sido relativamente homognea, isto , 50% dos participantes possuam no mximo o ensino fundamental. O mesmo pode ter ocorrido com relao classificao socioeconmica j que 63% dos participantes encontravam-se na classe baixa superior.

Pelo fato da informao ter sido transmitida verbalmente uma das hipteses levantadas neste estudo era a de que a severidade da perda auditiva poderia diminuir a reteno da informao pelo fato de dificultar o processo de recepo da mensagem. No entanto no foram observadas correlaes entre o grau da perda auditiva e a quantidade de informao evocada pelos participantes. Tal fato pode ter ocorrido em virtude da casustica ser composta em maioria por indivduos com perda auditiva de grau moderado ou, ainda, pelo fato de que as estratgias de comunicao utilizadas pelo profissional foram eficientes para compensar a dificuldade auditiva e, consequentemente, transmitir a informao necessria.

A reteno e compreenso das informaes a respeito das caractersticas da deficincia auditiva e do uso e cuidados com a prtese auditiva e/ou molde auricular permite que os novos usurios destes dispositivos consigam extrair o mximo proveito dos mesmos bem como do processo de reabilitao. Existe um grande nmero de pesquisas sobre como melhorar a evocao de orientaes dadas por profissionais de sade. Foi demonstrado, por exemplo, que a reteno da informao aumenta quando os profissionais utilizam linguagem mais acessvel, reconhecem a importncia do aconselhamento em sua prtica clnica e possuem maior auto-crtica sobre sua capacidade de transmitir informaes. Tambm h aumento da informao retida quando as orientaes fornecidas so compatveis com as prioridades e necessidades de informao do paciente, sendo apresentadas de forma organizada com resumo e repetio dos contedos mais importantes. Alm disto, necessrio o fornecimento de materiais educacionais (folhetos, vdeos, websites) para consulta posterior (7-9,21).



Grfico 1. Distribuio das pontuaes obtidas quanto reteno da orientao a respeito das caractersticas da perda auditiva (n=30).




Grfico 2. Distribuio das pontuaes obtidas quanto ao uso, cuidados e manipulao da prtese auditiva/molde auricular (n=30).




CONCLUSO

O presente estudo demonstrou que existe uma perda da informao fornecida sobre o uso e cuidados com a prtese auditiva e sobre a perda auditiva, sendo esta ltima maior para indivduos idosos. Faz-se necessria utilizao de estratgias que facilitem a reteno destas orientaes. Alm disto, importante a realizao de outras pesquisas para investigar a influncia de dados demogrficos como a escolaridade no processo de reteno de informao.


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1) Especialista em Audiologia Clinica e Educacional - HRAC/USP. Fonoaudiloga. Politec Sade.
2) Doutorado. Professor Doutor.
3) Fonoaudiloga. Discente do Programa de Mestrado em Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru - Universidade de So Paulo.

Instituio: Centro de Pesquisas Audiolgicas. Hospital de Reabilitao das Anomalias Craniofaciais - Universidade de So Paulo. Campus Bauru.
Bauru / SP - Brasil. Endereo para correspondncia: Departamento de Fonoaudiologia. - Al. Octvio Pinheiro Brizolla 9-75 - Vila Universitria - Bauru / SP - Brasil - CEP: 17012-901 - Telefone: (+55 14) 3235-8332 - E-mail: deborahferrari@usp.br

Artigo recebido em 14 de Fevereiro de 2011. Artigo aprovado em 18 de Agosto de 2011.
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