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Ano: 2011  Vol. 15   Num. 4  - Out/Dez
DOI: 10.1590/S1809-48722011000400008
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Contedos psquicos e efeitos sociais associados paralisia facial perifrica: abordagem fonoaudiolgica
Psychological contents and social effects associated to peripheral facial paralysis: a speech-language approach
Author(s):
Mabile Francine Ferreira Silva1, Maria Claudia Cunha2, Paulo Roberto Lazarini3, Marina Lang Fouquet4.
Palavras-chave:
paralisia facial; paralisia de Bell; estudos de casos; impacto psicossocial.
Resumo:

Introduo: A paralisia facial perifrica (PFP) decorre da reduo ou interrupo do transporte axonal ao stimo nervo craniano resultando em paralisia completa ou parcial da mmica facial. A deformidade facial e a limitao de movimentos, alm de prejudicar a esttica e a funcionalidade, podem interferir significativamente na comunicao interpessoal. Objetivo: Investigar os contedos psquicos e os efeitos sociais associados PFP em sujeitos adultos, realizando uma anlise comparativa em trs grupos de sujeitos com PFP: nas fases flcida, de recuperao e sequelar. Mtodo: Pesquisa de natureza clnico quanti-qualitativa. 16 sujeitos adultos, ambos os sexos, na faixa etria de 43 a 88 anos, com PFP. Procedimento: Entrevistas abertas com os sujeitos. O material foi gravado em udio e vdeo, transcrito literalmente, sistematizado por meio de anlise categorial e estatstica. Resultados: Os sujeitos portadores de sequelas apresentam maior significncia estatstica de contedos psquicos e efeitos sociais associados PFP. Seguidos, respectivamente, dos que se encontram nas fases flcida e de recuperao. Os resultados sugerem que o fonoaudilogo, alm de realizar a reabilitao funcional e esttica do sujeito acometido pela PFP, precisa ter escuta para aspectos psquicos e sociais envolvidos, de maneira a avaliar e buscar diminuir o grau de sofrimento psquico e favorecer a adaptao social desses pacientes. Concluso: A abordagem biopsicosocial dos pacientes acometidos pela PFP revelou vasta, e significativa, gama de contedos subjetivos que justificam novos estudos que possam contribuir para a eficcia do mtodo clnico fonoaudiolgico na abordagem desse quadro clnico.

INTRODUO

A comunicao no-verbal, frequentemente expressa pela face tem importante funo subjetiva (1), sendo elemento essencial para o desenvolvimento do indivduo ocidental, pois, ao mesmo tempo em que os traos e expresses faciais esto envolvidos no processo comunicativo e de socializao, eles so essenciais para a individualizao, revelando a interioridade e os sentimentos de cada sujeito (2).

Pensando na importncia comunicativa endereada ao rosto fica interessante discutir as limitaes e consequncias que paralisia facial perifrica (PFP) causa na vida de um sujeito que sofre com essa afeco.

Em termos orgnicos, a PFP decorre da reduo ou interrupo do transporte axonal ao VII nervo craniano resultando em paralisia completa ou parcial da mmica facial. O nervo facial, frequentemente o mais afetado do corpo humano (3). Percorre um trajeto sseo de aproximadamente 35 mm e fica sujeito ao de processos compressivos e infecciosos de natureza variada que podem interromper seu influxo nervoso, levando ao bloqueio total de suas funes (4).

Podem ocorrer alteraes na fala, mastigao, deglutio, gustao, salivao e lacrimejamento, hiperacusia e hipoestesia no canal auditivo externo (5, 6, 7, 8). Esteticamente, a desarmonia entre a mmica facial e a fala constrangedora, no s para os sujeitos acometidos como para aqueles que os cercam (1). Portanto, esse acometimento causa distrbios funcionais e estticos importantes para o indivduo(9).

Com relao etiologia, diversos estudos demonstram que a Paralisia de Bell ou idioptica o diagnstico mais frequente, atingindo mais da metade dos casos (10, 11), sendo um diagnstico baseado na ausncia de prova sorolgica para infeces, traumatismos, tumores e/ou herpes zoster (12,13).

O tempo de recuperao da PFP indeterminado, podendo haver uma regenerao total ou parcial dos movimentos faciais, dependendo do grau da leso do nervo facial, de suas diversas etiologias, da idade do paciente e de como o caso foi conduzido pelos profissionais da sade envolvidos (14).

Em sua fase inicial, a PFP denominada como flcida, sendo observadas flacidez da musculatura em repouso e hipofuno dos movimentos, com incapacidade parcial ou total para realizar movimentos mmicos e esfincterianos da face (15).

Com a regenerao do nervo facial h possibilidade de recuperao dos movimentos faciais (16), ocorrendo uma volta progressiva dos movimentos, que pode evoluir para a recuperao total da movimentao e da mmica facial, sem a presena de sequelas (15).

Porm, quando essa regenerao parcial, podem ser constatadas sequelas, tais como: sincinesias, espasmo hemifacial ps-paraltico e/ou persistncia do dficit motor com contraturas musculares (17,18). Outra caracterstica das sequelas pode ser o permanecimento da hipofuno da muscultaura facial afetada, tpica da fase flcida da PFP (19).

A deformidade facial e os movimentos involuntrios e indesejveis, comuns aps o estabelecimento das sequelas, mais do que prejudicar a esttica e a funcionalidade, podem interferir significativamente na comunicao interpessoal. Tal condio limita a expressividade do indivduo, acarretando uma variedade de problemas psicossociais, como depresso, ansiedade, rejeio e parania (20).

Na reabilitao dos casos de PFP, tradicionalmente, o fonoaudilogo desenvolve um trabalho focado no sistema estomatogntico, a partir da investigao dos prejuzos causados na musculatura facial pela leso do nervo facial. Nessa abordagem avalia as funes relacionadas a essa musculatura, intervindo com o objetivo de promover a recuperao dos aspectos funcional e esttico. Contudo, desejvel que os aspectos psquico e social associados a esse quadro clnico no sejam negligenciados (21).

Feitas essas consideraes observa-se, em sntese, que dificuldades em usar a mmica facial, alm das alteraes na fala, causam sofrimento ao indivduo; provocando, muitas vezes, distrbios fsicos, psquicos e sociais associados (21).

A partir do exposto, esse trabalho foca-se na PFP sob o ponto de vista dos sujeitos que sofrem com suas consequncias e, nessa perspectiva, pretende contribuir para a efetividade do mtodo clnico fonoaudiolgico.

Considerando esses aspectos, este estudo tem como objetivo geral: investigar os contedos psquicos e os efeitos sociais associados PFP em sujeitos adultos, e como objetivo especfico: comparar esses dados em trs grupos de pacientes, a saber, nas fases flcida, de recuperao e sequelar.


MTODO

Natureza da pesquisa: Clnica quanti-qualitativa, desenvolvida por meio de estudo de casos.

Casustica: 16 sujeitos adultos com PFP, sendo 04 na fase flcida, 06 na fase de recuperao e 06 na fase sequelar.

Critrios de incluso:

-Foram selecionados os sujeitos em atendimento no setor de Fonoaudiologia na Instituio em que foi realizada a pesquisa.

-Adultos, de ambos os sexos, acima de 18 anos; j que a ocorrncia de PFP na populao peditrica (1-15 anos) trs vezes menor do que o encontrado na populao adulta (22).

-A PFP teve origem desconhecida ou idioptica, j que na grande maioria dos casos no ocorrem outras doenas associadas (11).

-A fase da PFP foi determinada a partir da realizao de avaliao otorrinolaringolgica e fonoaudiolgica. Alm disso, foi considerado o tempo de instalao da PFP e a observao de sinais clnicos que indicassem a estagnao, a evoluo ou a instalao de sequelas.

-Esses sujeitos manifestaram deformidade moderada (III), disfuno moderada grave (IV) e disfuno grave (V), de acordo com a escala de avaliao de HOUSE & BRACKMANN (23) que inicia em grau I indo at o grau VI.

-A avaliao dos movimentos faciais foi baseada no protocolo utilizado no Setor de Reabilitao Fonoaudiolgica da instituio em que foi realizada a pesquisa (24).

Critrio de excluso

-A PFP no deve estar associada a outras doenas ou leses traumticas, para que no se configure como sintoma secundrio.

Procedimento

Etapa 1: Os dados pessoais (idade, sexo, profisso e queixas), assim como a histria clnica, instalao da PFP, exames realizados, diagnstico e conduo teraputica, foram levantados nos pronturios dos pacientes em atendimento.

Etapa 2: A condio funcional da face foi classificada na fase flcida, de recuperao e sequelar, seguindo o protocolo utilizado pela Instituio e descrito na casustica, para que assim, comprove-se o quadro de PFP dos sujeitos.

Na avaliao da mobilidade da musculatura facial foi pedido que cada movimento fosse executado 5 vezes, para uma melhor preciso da cotao em um dos cinco graus (0 - contrao no visvel nem a olho nu nem luz rasante 4 - o movimento efetuado de maneira ampla, sincrnica e simtrica, em relao ao lado so) (24).

Etapa 3: As entrevistas foram abertas, individuais, com durao mdia de 50 minutos e com o intuito de deixar que os sujeitos pesquisados expressassem livremente, particularmente quanto aos aspectos subjetivos relacionados PFP, a partir da seguinte questo: Quais foram as consequncias da PFP na sua vida social e emocional?

Quando necessrio, a pesquisadora fez intervenes durante a entrevista, focando o objetivo da pesquisa. Tambm buscou encorajar o relato espontneo do paciente, sem dirigi-lo, visando detectar as manifestaes do funcionamento mental em suas dimenses verbais e no verbais (25).

Registro e armazenagem dos dados

A avaliao da condio funcional dos sujeitos foi fotografada e filmada, para que houvesse registro e comprovao.

As entrevistas foram registradas em udio e vdeo e armazenadas em DVD-ROM, para que fossem posteriormente, transcritas na ntegra em ortografia regular e analisadas com maior rigor.

Anlise de resultados

Fase 1: A interpretao do material coletado nas entrevistas foi pautado na anlise categorial (26). A partir da investigao do que cada um dos elementos tem em comum com os outros, as categorias foram organizadas e agrupadas. A estruturao desse processo depende do isolamento dos elementos (inventrio) e da organizao das mensagens (classificao) (26).

Fase 2: Descrio das categorias convergentes e divergentes entre os discursos de todos os sujeitos, por estatstica simples.

Fase 3: Comparao entre as categorias presentes no grupo de pacientes na fase flcida, de recuperao e sequelar, por estatstica simples.

Fase 4: O material levantado nas entrevistas foi analisado a partir de referenciais tericos da psicanlise (contedos psquicos), da psicologia social (Teoria do Estigma) e da fonoaudiologia (acervo sintomatolgico).

Roteiro de avaliao

O roteiro de avaliao de contedos psquicos e efeitos sociais associados PFP foi elaborado a partir dos resultados obtidos nessa pesquisa e est estruturado em blocos temticos, baseados na anlise categorial (26) dos contedos das entrevistas com os sujeitos estudados.

tica

De acordo com as normas ticas preconizadas para pesquisas utilizando seres humanos, s participaram da pesquisa os sujeitos que concordaram em assinar o "Termo de Consentimento Livre e Esclarecido" (TCLE). A identidade dos sujeitos foi preservada, portanto, seus nomes foram substitudos por numerao. A pesquisa foi aprovada no Comit de tica da Instituio, n 251/09.


RESULTADOS

A amostra consistiu de 16 pacientes que tiveram PFP: 11 (68,7%) so do sexo feminino, e 5 (31,3%) do sexo masculino.

Na Tabela 1 so apresentadas as frequncias e porcentagens gerais e de cada fase da PFP com relao a ocorrncia de cada contedo psquico. Observa-se que os fatores que ocorreram com maior frequncia no total da amostra, foram susto no momento da PFP e desnimo aps a PFP, cada um deles relatado por 12 (75%) pacientes.

Os fatores que ocorreram com maior frequncia na fase flcida foram ansiedade, desnimo aps a PFP, cada um deles relatado por 4 (100%) pacientes.

Na fase de recuperao observou-se uma frequncia menor, atingindo a porcentagem de 50% para os contedos: calma e susto no momento da PFP; desnimo, tristeza e nada de relevante aps a PFP.

A fase sequelar foi a que apresentou maior frequncia de respostas, sendo o susto no momento da PFP e a tristeza aps a PFP relatados por 6 os pacientes (100%) e o estresse antes da PFP, o desnimo referido por 5 (83,3%) pacientes.

Para cada paciente foi calculado o nmero de contedos psquicos. Na Tabela 2 encontram-se os valores observados de estatsticas descritivas para o nmero de contedos psquicos por paciente, por sexo, faixa etria, fase e hemiface. Os valores do nmero de contedos psquicos observados em cada paciente esto representados na Figura 1.

Observa-se comportamento semelhante nos dois sexos, isto , pessoas dos dois sexos tendem a apresentar, em mdia, o mesmo nmero de contedos psquicos; os idosos apresentam, em mdia, menor nmero de contedos que os mais jovens, os em recuperao apresentam menor mdia do nmero de contedos que os nas demais fases, e os que tm hemiface direita afetada apresentam menor mdia de nmero de contedos do que os que tm a face esquerda afetada.

Na anlise dos efeitos sociais foram adotados os mesmo procedimentos utilizados na anlise dos contedos psquicos.

As frequncias e porcentagens de ocorrncia gerais e de cada fase da PFF de efeitos sociais so apresentadas na Tabela 3. Observa-se que os efeitos que ocorreram com maior frequncia esto relacionados ao isolamento.

Na fase flcida a categoria isolamento: evita encontrar as pessoas foi relatado por 3 pacientes, ou seja, 75% da amostra. A fase de recuperao apresentou frequncias de respostas abaixo de 40%, sendo destacado somente o isolamento: evita sair de casa, relatado por 2 (33,3%) dos pacientes.

A fase sequelar destaca-se por apresentar em sua maioria, frequncias de respostas acima de 50% para as categorias estabelecidas, evidenciando-se que as categorias de isolamento: evita falar e encontrar as pessoas, foram relatados por 5 (83,3%) pacientes.

Para cada paciente foi calculado o nmero de efeitos sociais relatados. Na Tabela 4 encontram-se os valores observados de estatsticas descritivas para o nmero de efeitos por paciente, por sexo, faixa etria, fase e hemiface. Os valores do nmero de efeitos sociais observados em cada paciente esto representados na Figura 2.

Observa-se que o nmero de efeitos sociais por paciente no depende do sexo, , em mdia, menor nos com 60 anos ou mais, tem mdia maior nos com hemiface esquerda afetada, e maior, em mdia, nos com sequela.















DISCUSSO

Com relao ao levantamento da caracterizao dos sujeitos, pode se observar um predomnio do sexo feminino (68,7%) com relao ao masculino (31,3%). VALENA, VALENA E LIMA (18), j haviam revelado a predominncia de mulheres em seu estudo, chegando a uma porcentagem semelhante, 66,7% da amostra. No estudo de GARANHANI, CAPELLI E RIBEIRO (27), tambm havia o predomnio de mulheres com PFP (60,8%).

Contedos Psquicos

Na ocasio anterior a PFP, 31% dos entrevistados referiram tristeza por motivo fatual. Sendo que estas, em todos os casos, foram reveladas porque os sujeitos sentiram e anunciaram que o momento da entrevista foi estabelecido como local de exposio e acolhimento desses sofrimentos, como exposto por VILA (28) nas afetaes psicossomticas. Abaixo, um exemplo:

"Ento, porque assim, o meu problema veio de um outro problema. Porque oh, eu tenho um filho que ele . que ele comeou a usar drogas. Quando foi no dia mesmo meu filho resolveu me contar, a quando ele me contou, eu paralisei."

"Eu acho que juntou com tudo isso. Problema do marido que bebia, problema em seguida que meu pai morreu, em seguida o problema do meu filho, a eu juntei tudo isso, quando eu pensei que no eu tava toda torta. A pronto, at hoje, at hoje que eu t. eu peo a Deus todos os dias que me d pacincia, fora e coragem pra eu continuar." (Sujeito 14 - Fase sequelar)

Como enfatizado por VILa (28), os sintomas no devem ser minimizados ou desprezados, necessrio a investigao da vida pessoal do doente toda vez que a etiologia de uma determinada molstia apresentar-se confusa ou incompleta. Alm disso, deve-se considerar que o tratamento consiste em fazer com que o indivduo vena a alienao que o mantm desconhecido de si mesmo, que ele se assuma como sujeito, sem se estabelecer uma relao entre paciente e profissional de sade de subordinao e dependncia (29).

LIPOWSKI (30) ressaltou que na somatizao fatores precipitantes incluem eventos vitais e situaes pessoalmente estressantes, devido a seu significado subjetivo de perda ou ameaa para o indivduo.

Um importante aspecto da personalidade dos pacientes o denominado trao de "neuroticismo" e a vulnerabilidade ao estresse (28). LIPOWSKI (30) salienta tambm a tendncia desses pacientes em lidar com as dificuldades da vida, em sua multiplicidade de conflitos, atravs da adoo de um "papel de doente", com o qual eles tentam conseguir apoio e ateno de seus familiares, bem como evitam obrigaes sociais e familiares.

necessrio nesse momento lembrar, que o paciente, nessa condio frgil, precisa ser acolhido e escutado, levando-se em considerao os aspectos que ele associou a seu processo de adoecimento (28, 31).

A pesquisa de REBELO, ROLIM e FERREIRA (32) relembra que a pessoa inicia um percurso de sofrimento ntimo quando est doente, incluindo emoes e sentimentos de profundo mal-estar, ansiedade, impacincia e tristeza.

Destaca-se que 75% (12 sujeitos) dos entrevistados alegaram que aps a PFP sentiram desnimo:

"Eu chorava muito, eu no dormia. Mexeu com o meu apetite, mexeu com o meu sono, eu chorava porque, independente da gente se sentir horrvel, ridcula, horrorosa, mexe mesmo com o sistema nervoso, comigo mexeu muito, muito, muito." (Sujeito 5 - Em recuperao).

Esse dado est de acordo com o estudo de Byrne (33) que aponta a tendncia do sintoma depressivo (65%) nos sujeitos acometidos pela PFP.

Diante desses trechos interessante ressaltar que o processo de conscientizao do indivduo sobre o que o leva a adoecer no plano fsico, psquico e social pode proporcionar a mudana dos aspectos negativos que contribuem para esse estado de desarmonia. A descoberta dos fatores estressantes que influenciam na doena fundamental para que ocorram mudanas que tambm se referem conscientizao de padres de comportamento prejudiciais pessoa, tanto fsicos como emocionais (34).

Em relao ao sentimento de Vergonha (50%) interessante lembrar o trabalho de SILVA e MLLER (34) a respeito de doenas de pele, onde o indivduo se utiliza de camuflagem para esconder os problemas de pele ou evitam as atividades de rotina, por perceber a reao negativa por parte dos outros, o que provoca o sentimento de vergonha.

", tipo assim, voc t acostumado com a sua fisionomia e de repente voc se v torta, o rosto deformado, entendeu. Voc d uma risada e parece que algum rasgou a sua boca e colocou pra cima. Sabe, devastador, devastador. Isso acaba com a autoestima da gente, de ficar com o ego l embaixo, eu fiquei. Eu me senti terrivelmente mal, eu no tinha vontade de olhar no espelho, entendeu. Eu tinha vergonha de comer na vista dos outros e sorri ento, sem chance." (Sujeito 5 - Em recuperao).

O fato da PFP idioptica no ser uma afeco organicamente grave, ocasiona uma subestimao do quadro, podendo ser semelhante ao relatado por SILVA e PAIS-RIBEIRO (35) no quadro de degenerescncia macular, podendo distanciar a relao entre paciente e profissional da sade.

"se olha pra uma pessoa com paralisia facial, voc no imagina que seja grande coisa, mas mexe. Eu nunca que ia imaginar que isso mexesse tanto com o meu eu, entendeu, porque de todos os problemas que eu tive de sade foi o que mais mexeu comigo, interiormente." (Sujeito 5 - Em recuperao).

Um dos sujeitos alegou que evita olhar seu rosto no espelho e vale enfatizar que faz seis (6) anos que a PFP se instalou.

"Ento, muitas vezes eu nem me olho no espelho, porque cada vez que eu me olho eu me sinto muito triste."(Sujeito 14 - Fase sequelar).

Analisando o que SANT'ANNA (36) afirmou sobre as intenes subjetivas reveladas por meio do estudo do rosto, importante destacar o impacto psquico causado por uma alterao facial to drstica como no quadro de PFP. A dificuldade em se reconhecer e se expressar por meio da face, trouxeram a impossibilidade do sujeito 14 se olhar no espelho.

Finalizando esse item, pode se observar que a discusso foi permeada por referenciais de pesquisas e da literatura que levantavam aspectos subjetivos da histria do rosto e aspectos psicossomticos envolvidos em diversas patologias. Por sua vez, constatou-se a escassez de referncias especficas de pesquisas quanto PFP, e os trabalhos especficos sobre o tema apresentavam dados gerais relativos a mudanas comportamentais sem explicit-las aps a instalao da PFP.

Efeitos sociais

Nesse item foram expostos a variedade de estratgias que os sujeitos estigmatizados empregam para lidar com a rejeio alheia e a complexidade de tipos de informao sobre si prprios que projetam nos outros, como foi estabelecido por GOFFMAN (37).

"no que eu me escondi, que eu... lgico, eu fiquei preocupada, n, fiquei preocupada porque as pessoas merecem esse carinho, esse respeito do nosso falar, do nosso rosto. Nosso rosto tudo. imagem que vai pra todo o lugar." (Sujeito 16 - Em recuperao).

Evitar sair de casa (50%), em locais especificamente estabelecidos e se utilizar recursos para no ser visto foi um acontecimento muito comentado ao longo das entrevistas:

"Porque eu moro (...) quase trinta e cinco anos, ento a gente conhece todo mundo, os vizinhos, todo mundo, at para ir na rua meio complexado, chega tem que por uma roupa escura, parece bandido, parece que t fugindo da. e assim, porque , vamos supor, lgico, voc uma pessoa muito educada, a pessoa vai perguntar e voc vai parar e responder n." (Sujeito 7 - Fase flcida).

Nesse caso, o indivduo que sofre com o seu estigma se sente despontencializado a frequentar determinados locais, pois pressupe que o outro, mesmo que o desconhea, reparar em sua diferena (37).

COULSON, O'DWYER, ADAMS e CROXSON (38) avaliaram o impacto que a PFP tem na qualidade de vida desses indivduos por meio de questionrios abertos, encontrando que quanto maior o prejuzo dos movimentos da expresso facial ocorre diminuio considervel da funo social, o que compatvel com os resultados levantados nessa pesquisa.

"(...) tomava minha cervejinha, ouvia msica ao vivo, danava ali no. fora, onde tem os barzinhos ficava fora. Eu gostava muito de ir, de ouvir as msicas e me divertia e agora eu no vou mais." (Sujeito 8 - Fase sequelar).

38% dos sujeitos entrevistados evitam tirar fotos:

"No tiro. J no tirava antes porque eu tinha muita timidez, mas tirava e tudo mais, agora no. Nunca mais tirei. Vai, se hoje eu precisar tirar um documento pra uma foto, eu no vou tirar." (Sujeito 9 - Fase flcida).

Com essa condio quase que totalmente incapacitante de se expressar por meio da face, mesmo que a condio seja de menor expresso dos sentimentos, como no caso da foto 3X4 para o RG, o sujeito se sente desconfortvel para registrar sua face por meio de fotos. Com a maleabilidade muscular, possvel deduzir os sentimentos de um indivduo somente se atentando as feies do rosto (39). Com a condio de PFP fica difcil ocorrer essa maleabilidade.

44% dos sujeito evitam participar de cenas alimentares:

"a comida cair da boca na vista de todo mundo, at a fome tira. O apetite acaba, voc no sente vontade de comer. Eu emagreci mais de trs quilos em quatro meses e acabou comigo, quer dizer, claro que eu tava precisando de emagrecer mesmo (risos), mas foi devastador. gua voc no consegue tomar mais, voc toma a gua, a gua vai caindo em sua roupa e isso terrvel." (Sujeito 5 - Em recuperao)

Nas consideraes de GOFFMAN (37), para os estigmatizados, a sociedade reduz as oportunidades, esforos e movimentos, no atribui valor, impe a perda da identidade social e determina uma imagem deteriorada, de acordo com o modelo que convm a sociedade. O diferente passa a assumir a categoria de "nocivo", "incapaz", fora do parmetro que a sociedade toma como padro. Ele fica margem e passa a ter que dar a resposta que a sociedade determina. O social tenta conservar a imagem deteriorada com um esforo constante por manter a eficcia do simblico e ocultar o que interessa, que a manuteno do sistema de controle social (37).



Figura 1. Valores individuais e mdios do Nmero de contedos psquicos por paciente em cada categoria de Sexo, Faixa etria, Hemiface e Fase : mdia.




Figura 2. Valores individuais e mdios do Nmero de efeitos sociais por paciente em cada categoria de Sexo, Faixa etria, Hemiface e Fase - : mdia.







CONCLUSO

Os resultados indicaram que, comparativamente, os sujeitos portadores de sequelas apresentam maior significncia estatstica de contedos psquicos e efeitos sociais associados PFP. Seguidos, respectivamente, dos que se encontram nas fases flcida e de recuperao.

Contudo, de maneira geral, os relatos dos sujeitos estudados revelou vasta, e significativa, gama de contedos subjetivos que devem ser investigados e incorporados pelos fonoaudilogos no tratamento da PFP, de maneira a promover maior efetividade do mtodo clnico fonoaudiolgico.

Sugere-se a continuidade de pesquisas sobre o tema com casustica ampliada e foco nas seguintes vertentes: a escuta teraputica dos pacientes e as implicaes clnicas da abordagem biopsicosocial da PFP.


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1) Mestre em Fonoaudiologia pela Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUCSP). Fonoaudiloga Clnica.
2) Professora Titular do Departamento de Clnica Fonoaudiolgica da Faculdade de Cincias Humanas e da Sade da Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUCSP).
3) Professor Assistente da Faculdade de Cincias Mdicas da Santa Casa de So Paulo.
4) Professora Mestre, responsvel pelo setor de Fonoaudiologia da Disciplina de Cirurgia de Cabea e Pescoo da Irmandade da Santa Casa de Misericrdia de So Paulo.

Instituio: Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUCSP) Irmandade Santa Casa de Misericrdia de So Paulo - Faculdade de Cincias Mdicas da Santa Casa de So Paulo. So Paulo / SP - Brasil. Endereo para correspondncia: Mabile Francine Ferreira Silva - Rua Emilia Martins Rulo, 196 - Jardim Silvio Sampaio - Taboo da Serra / SP - Brasil - CEP: 06773-300 - Telefones: (+55 11) 3722-4938/ (+55 11) 7303-0811 / (+55 11) 4138-2871.

CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico

Artigo recebido em 21 de maro de 2011. Artigo aprovado em 25 de Junho de 2011.
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