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Ano: 2011  Vol. 15   Num. 4  - Out/Dez
DOI: 10.1590/S1809-48722011000400009
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Audio de crianas com fissura labiopalatina e baixo peso: estudo comparativo
Hearing in children with cleft lip and palate and low weight: comparative study
Author(s):
Alyne Michelle de Freitas Lima1, Jos Roberto Pereira Lauris2, Mariza Ribeiro Feniman3.
Palavras-chave:
criana, fissura palatina, peso ao nascer.
Resumo:

Introduo: A presena de baixo peso ao nascer (BP), assim como a fissura labiopalatina (FLP), acabam por tornar as crianas mais propensas s alteraes auditivas. Objetivo: verificar e comparar a audio de crianas com fissura labiopalatina com e sem baixo peso ao nascimento na avaliao audiolgica convencional. Mtodo: Foi realizado estudo retrospectivo e comparativo no que se refere ao gnero, peso ao nascimento, presena/ausncia de FLP e ao resultado da audiometria e imitanciometria. Trs grupos de crianas foram constitudos. G1 com 23 FLP e BP, G2 com 25 FLP e sem BP e G3 com 25 sem FLP e sem BP. Resultados: No foi encontrada diferena estatstica significante entre os grupos na comparao do peso e gnero, bem como quanto, ao gnero e orelhas direita e esquerda, em relao ao tipo da curva timpanomtrica, presena de perda auditiva, tipo de perda auditiva e grau da perda auditiva. Concluso: Um maior comprometimento da audio, evidenciado pela presena de perda auditiva condutiva de grau leve a moderada foi encontrado nas crianas com fissura labiopalatina (G1 e G2), independente da presena de baixo peso ao nascimento, quando comparada as sem este tipo de malformao craniofacial.

INTRODUO

Estudos apontam como responsveis pelo aumento da sobrevivncia de crianas prematuras, neonatos com baixo peso e de recm-nascidos com outros comprometimentos severos, os avanos tecnolgicos e cientficos. Em contrapartida, surgem casos em que fatores como o baixo peso ao nascer, podem causar aumento da morbidade neonatal e atraso no desenvolvimento global (1).

O baixo peso ao nascimento est entre os principais fatores neonatais de alto risco. Estudiosos (2) classificaram o baixo peso ao nascimento entre 1500 a 2500g; peso normal entre 2500 a 4000g e, macrossmico o peso superior a 4000g.

Existem intercorrncias pr, peri e ps-natais que podem causar deficincia auditiva e estas intercorrncias caracterizam os indicadores de risco (3). Vrios autores relacionam essas intercorrncias ao aparecimento de alteraes sensoriais, j que a maior exposio a fatores iatrognicos e possibilidade de associao de mltiplos indicadores de risco acabam por tornar os recm-nascidos, com indicadores de riscos, mais propensos a apresentarem desvios do desenvolvimento da audio (4-6).

Em estudo retrospectivo (7), realizado em uma populao de neonatos, o baixo peso/pequeno para idade gestacional (PIG) foi apontado como sendo um dos principais indicadores de risco para perda auditiva no grupo de recm-nascidos pr-termo, seguida de uso de ototxico e ventilao mecnica. Em relao aos recm-nascidos a termo, os autores apontaram infeco congnita, antecedente familiar, o uso de ototxico e o baixo peso/pequeno para idade gestacional (PIG) como os indicadores de risco mais frequentes para as alteraes auditivas. Em outro estudo (8), ao analisarem as diferentes condies perinatais associadas presena de distrbios clnicos da comunicao, o baixo peso ao nascimento foi identificado pelas mes das crianas estudadas como a varivel de maior ocorrncia.

Assim tambm, as anomalias craniofaciais, tal como a fissura labiopalatina, consta da lista dos indicadores de risco para a audio (9), e frequentemente so acompanhadas de manifestaes clnicas associadas e distantes da cavidade oral (10). A deficincia auditiva dos problemas bastante observados em crianas com este tipo de malformao (11).

As fissuras labiopalatinas so malformaes, que dentre as anomalias craniofaciais, so as mais prevalentes, destacando-se pelo nmero de alteraes e pela complexidade de seus efeitos estticos e funcionais. A literatura relata que a audio dessa populao parece estar associada a efeitos em todos os nveis do sistema auditivo, orelha mdia, por meio de perda auditiva condutiva; cclea, pela perda auditiva sensorioneural de frequncia alta; ao tronco enceflico e vias auditivas centrais, pelo transtorno de processamento auditivo (12).

Considerando que tanto a populao nascida com baixo peso ao nascimento, assim como com uma malformao craniofacial figuram entre os indicadores de risco para a deficincia auditiva, julgou-se necessrio realizar um estudo retrospectivo comparativo dos achados audiomtricos e timpanomtricos de crianas nascidas com peso abaixo de 2500g e portadoras de fissura labiopalatina, visando verificar se a presena conjunta desses dois indicadores determina o aparecimento de um comprometimento auditivo maior. Alm de que, a literatura cientfica enfocando esta associao tem se mostrado carente. Assim, tendo conhecimento das causas determinantes da dificuldade auditiva apresentada por essa populao de nossa vivncia clnica, ser possvel fornecer orientao, bem como elaborar intervenes que reduzam e previnam a ocorrncia das mesmas.

Os objetivos deste estudo foram verificar e comparar a audio de crianas com fissura labiopalatina com e sem baixo peso ao nascimento na avaliao audiolgica convencional.


MTODO

Aps aprovao pelo Comit de tica em Pesquisa em Seres Humano (Processo No 096/2009), foi realizado um estudo retrospectivo de dados audiolgicos de 73 crianas de sete a 12 anos de idade, constantes em seus pronturios, escolhidos aleatoriamente, cuja avaliao audiolgica foi realizada de julho de 2004 a junho de 2007, por uma mesma fonoaudiloga, em um hospital pblico especializado no atendimento de anomalias craniofaciais. Todas as crianas includas neste estudo no apresentavam qualquer sndrome gentica associada. Esta pesquisa foi realizada no ano de 2009.

Dos pronturios foram verificados os dados referentes ao gnero, ao peso ao nascimento, presena/ausncia de fissura labiopalatina e, avaliao audiolgica convencional (audiometria e imitanciometria).

A anlise do peso ao nascimento, assim como da presena e ausncia de fissura labiopalatina tiveram o objetivo de selecionar a casustica desse estudo retrospectivo. Da compilao desta anlise trs grupos foram constitudos:

-Grupo 1 (G1): 23 crianas com fissura labiopalatina e com baixo peso ao nascimento (faixa de 1750 a 2490grs, peso mdio de 2218grs).

-Grupo 2 (G2): 25 crianas com fissura labiopalatina e sem baixo peso ao nascimento (faixa de 2600 a 3850grs, peso mdio de 3160grs).

-Grupo 3 (G3): 25 crianas sem fissura labiopalatina e sem baixo peso ao nascimento (faixa de 2500 a 4100grs, peso mdio de 3328grs).

A Tabela 1 apresenta a distribuio entre os grupos, segundo a idade e gnero.

Salienta-se que nem todo beb com baixo peso ao nascer um beb pr-termo, e que nem todo beb pr-termo apresenta baixo peso.

Assim neste estudo, o termo "baixo peso ao nascer" ser utilizado independentemente da idade gestacional.

A classificao dos pesos ao nascimento seguiu FERNNDEZ-SANABRIA (2).

Seguindo o objetivo proposto, na audiometria foram verificadas a presena e ausncia de perda auditiva. Nos casos que apresentaram presena, foram classificados o tipo e o grau da perda auditiva.

O tipo de perda auditiva foi classificado em perda auditiva condutiva; perda auditiva sensorioneural; perda auditiva mista (13).

Foi considerada audio normal quando os limiares audiomtricos se encontravam de zero a 20 dB. A presena de perda auditiva foi estabelecida quando em qualquer uma das frequncias testadas, de 250 Hz a 8kHz, o limiar foi igual ou superior a 21 dB. Desta forma, as perdas auditivas foram classificadas, quanto ao grau: leve (entre 21 e 40 dB); moderado (entre 41 e 70 dB); severo (entre 71 e 90 dB) e, profundo (acima de 91 dB) (14).

As audiometrias foram realizadas com a utilizao do audimetro Madsen, modelo Midimate 622, fones supra-aurais TDH 39, na determinao dos limiares tonais, bem como no ndice percentual de reconhecimento de fala de cada orelha.

Quanto a imitanciometria, foram verificados os tipos de curvas timpanomtricas, assim como a presena e ausncia de reflexos acsticos.

Nas timpanometrias realizadas foi utilizado o Imitancimetro Grason Stadler Middle Ear Analyzer verso 2. A frequncia do tom da sonda de imitncia foi de 226Hz (convencional). As medidas timpanomtricas foram realizadas automaticamente pelo equipamento, na velocidade de 50 decapascals por segundo (daPa/s). O tipo de curva timpanomtrica obtido seguiu a classificao proposta (15). As curvas timpanomtricas foram classificadas em normal e anormal. Normal quando foi obtida a curva tipo A, e anormal para os demais tipos encontrados (B, C, As e Ad).

Uma anlise comparativa para cada grupo (gnero e idade) e entre os grupos foi realizada.

A anlise estatstica foi realizada por meio do teste qui-quadrado para a comparao do tipo da curva timpanomtrica, presena e tipo de perda auditiva. Para o grau da perda auditiva utilizou-se o teste de Kruskall-Wallis e Dunn. A comparao entre os lados, direito e esquerdo, foi realizada por meio do teste de McNemar para o tipo de curva, presena e tipo de perda auditiva; e teste de Wilcoxon para o grau da perda auditiva. Na comparao do peso e idade foi utilizado o teste Anova. Em todos os testes foi adotado nvel de significncia de 5% (p<0,05).


RESULTADOS

A anlise estatstica no demonstrou diferena estatstica significativa entre os grupos na comparao da idade (p=0,368), do gnero (p=0,099), e do peso entre G2 e G3 (p=0,342).

Quanto ao gnero e entre os lados, no houve diferena estatstica significativa na orelha direita, em relao ao tipo da curva timpanomtrica (p=0,733), presena de perda auditiva (p=0,915), tipo de perda auditiva (p=0,087) e grau da perda auditiva (p=0,855), assim como para a orelha esquerda quanto ao tipo da curva timpanomtrica (p=0,700), presena de perda auditiva (p=0,952), tipo de perda auditiva (p=0,696) e grau da perda auditiva (p= 0,969).

O resultado da anlise comparativa no que se refere presena, ao tipo e ao grau de perda auditiva nos trs grupos amostrados, est mostrado na Tabela 2.

Da populao total amostrada 107 orelhas apresentaram limiares audiomtricos dentro dos padres de normalidade, sendo 26 pertencentes ao G1, 33 ao G2 e 48 ao G3.

A Tabela 3 mostra a distribuio da ocorrncia e comparao entre os trs grupos das curvas timpanomtricas.

Os reflexos acsticos foram compatveis com o resultado da avaliao audiolgica.












DISCUSSO

No que se refere presena de perda auditiva, pde-se visualizar (Tabela 2) resultados sem significncia estatstica para os grupos de crianas com fissura labiopalatina, tanto para as nascidas com baixo peso quanto para as nascidas sem, o mesmo no ocorrendo em relao s no portadoras da malformao craniofacial e sem baixo peso ao nascimento, cuja perda de audio foi encontrada, somente, em duas orelhas. Este achado leva-se a pensar que a fissura um componente muito mais importante para a audio do que o baixo peso. Estudos (6, 7, 9,16) frequentemente relacionam problemas auditivos presena de fissura labiopalatina e/ou baixo peso ao nascimento. No entanto, as alteraes encontradas em nascidos de baixo peso podem ser individuais e dependentes de quo baixo era o peso da criana (17). Assim o resultado obtido neste estudo, sem significncia pode estar relacionado ao peso das crianas de baixo peso, que se mostraram prximos aos das crianas dos outros dois grupos estudados e sem significncia estatstica. Literaturas mais atuais tm explorado nascidos com extremo e muito baixos peso, principalmente os menores de 1000grs, uma vez que eles so comumente expostos a outros fatores de riscos para a audio, tais como drogas ototxicas, hipxia e hiperbilirubinemia, que podem conduzir ao aparecimento de uma perda auditiva sensorioneural (18, 19, 20), alm de perda condutiva (21).

A audio dentro dos padres de normalidade, constatada em 65% da amostra de pacientes com fissura labiopalatina, est em consonncia com estudo (22), no qual foi encontrada mais da metade das crianas avaliadas (63%) com audio normal. Pesquisadores (23) tambm identificaram ausncia de perda auditiva em 77% das crianas com fissura labiopalatina no sindrmicas em trabalho realizado. Estudo (24) observou audio normal e ausncia de anormalidades otoscpicas, mais frequentemente em crianas que foram submetidas cirurgia do lbio pela tcnica de Millard e do palato por meio da palatoplastia Langenbeck com veloplastia intravelar. No presente estudo no foi levado em conta idade, nem a tcnica cirrgica do lbio e palato que as crianas com fissura labiopalatina foram submetidas.

Em relao ao tipo de perda auditiva, pde-se verificar que a perda auditiva condutiva foi a de maior ocorrncia para os grupos de crianas com fissura labiopalatina com (G1) e sem baixo peso ao nascimento (G2). Perda auditiva condutiva de grau leve a moderada o achado audiomtrico de maior ocorrncia na populao com fissura labiopalatina (25-27), concordante com o presente estudo, uma vez que estes graus foram encontrados no G1 e G2 em proporo maior significativamente que outros tipos.

No que se refere a imitanciometria todos os tipos de curvas timpanomtricas estiveram presentes para os trs grupos amostrados, com 58% (78 orelhas) de timpanogramas A classificados como normal, uma vez que este tipo revela funcionamento do sistema tmpano-ossicular normal. Estudos (24, 28,29) corroboram com este achado.

Uma porcentagem de 42 (57 orelhas) foi classificada como curva timpanomtrica anormal, sendo observado um comportamento similar entre os grupos de crianas com fissura labiopalatina (G1 e G2) e uma menor ocorrncia na populao sem este tipo de anomalia craniofacial.

Entre as curvas timpanomtricas anormais uma distribuio quase que homognea, sem significncia estatstica, foi observada entre os grupos amostrados.

A curva tipo C, a mais frequente entre as curvas timpanomtricas anormais, neste estudo, esteve presente em 7 orelhas do G1, 6 do G2 e em 3 do G3, demonstrativa de uma alta presso negativa na orelha mdia, refletindo alteraes da tuba auditiva (15), podendo ainda, estar associada com funo normal de orelha mdia, assim como com presena de fluido (30), sugerindo uma transio entre essas duas condies (31).

O tipo B, apesar da ausncia de significncia estatstica, foi mais prevalente na populao com fissura labiopalatina (G1 e G2). Este tipo tem como causa mais comum a reduo da mobilidade de membrana timpnica secundria ao fluido de orelha mdia, assim como a rigidez do tmpano (cicatrizes), presena de formao de tecido conjuntivo denso ao redor dos ossculos (timpanosclerose), colesteatoma ou tumor da orelha mdia (32). Obtidas em menor ocorrncia, neste estudo, as curvas Ad (9,5%) e As (9,5%) demonstram, respectivamente, flacidez do sistema tmpano-ossicular, devido a decorrentes casos de otites mdias e/ou disjuno da cadeia ossicular (33) e, estado de rigidez (15).

Ao estudar a audio de 44 crianas na faixa etria de 8 a 14 anos do sexo masculino e feminino, portadoras de fissura labiopalatina e/ou palatina no-sindrmica, pesquisadores (18), encontraram curva timpanomtrica tipo C (21,2%) como a de maior ocorrncia, seguida pela curva tipo B (7,1%), sendo a curva tipo Ad (3,5%) a menos prevalente.


CONCLUSO

Este estudo permitiu observar um maior comprometimento da audio, evidenciado pela perda auditiva condutiva de grau leve a moderada nas crianas com fissura labiopalatina, independente da presena de baixo peso ao nascimento, quando comparada as sem este tipo de malformao craniofacial.


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1) Graduao. Acadmica do Curso de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru - USP.
2) Livre Docncia. Professor Associado do Departamento de Odontopedia, Ortodontia e Sade Coletiva da Faculdade de Odontologia de Bauru - USP.
3) Ps-Doutorado em Audiology. Professora Titular do Departamento de Fonoaudiologia-FOB-USP.

Instituio: Faculdade de Odontologia de Bauru - Universidade de So Paulo/FOB-USP. Bauru / SP - Brasil. Endereo para correspondncia: Mariza Ribeiro Feniman - Alameda Octavio Pinheiro Brisolla, 9-75 - Vila Universitria - Bauru / SP - Brasil - CEP: 17012-901 - Telefone: (+55 14) 3235-8000 - E-mail: feniman@usp.br

Artigo recebido em 22 de Maro de 2011. Artigo aprovado em 30 de Junho de 2011.
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