Title
Search
All Issues
15
Ano: 2011  Vol. 15   Num. 4  - Out/Dez
DOI: 10.1590/S1809-48722011000400015
Print:
Review Article
Versão em PDF PDF em Português Versão em PDF PDF em Ingls TextoTexto em Ingls
Tratamento cirrgico da doena de Mnire por meio de Shunts labirnticos: Passado e presente
Surgical treatment of Meniere disease via labyrinth Shunt: Past and present
Author(s):
Francisco Carlos Zuma e Maia1, Alexandre Dolganov2, Luiz Lavinsky3.
Palavras-chave:
doena de Mnire, vertigem, saco endolinftico.
Resumo:

Introduo: As cirurgias dos shunts endolinfticos empregadas para o tratamento da vertigem na doena de Mnire incapacitante permanece um tpico controverso. Portmann, em 1926, foi o primeiro a executar a cirurgia, incisando o saco endolinftico com o objetivo de diminuir a presso endolinftica da orelha interna. Planejadas para criar uma fstula que conecte o espao endo e perilinftico, as saculotomias foram descritas por FICK em 1964, por CODY em 1969 e por SCHUKNECHT (cocleossaculotomia) em 1982, entretanto foram paulatinamente abandonadas devido alta incidncia de perda auditiva. Uma nova e promissora opo cirrgica dos shunts, em carter experimental, a utriculostomia, realizada por LAVINSKY em 1999. Objetivo: Realizar uma reviso da literatura sobre as principais tcnicas cirrgicas dos shunts endolinfticos empregados no tratamento da doena de Mnire, seus resultados e o que h de avanos no entendimento desses procedimentos. Mtodo: Com base nos dados da literatura, so discutidas as principais tcnicas cirrgicas dos shunts endolinfticos e sua racionalidade no tratamento da doena de Mnire incapacitante. Concluso: Existe muita controvrsia sobre a efetividade dos procedimentos cirrgicos dos shunts endolinfticos para o tratamento da doena de Mnire incapacitante, e muitos deles causam danos orelha interna. A cirurgia experimental utriculostomia, portanto, parece-nos uma opo promissora. Futuras pesquisas podero fornecer a resposta para essa questo.

INTRODUO

A primeira opo de tratamento da doena de Mnire (DM) medicamentosa, incluindo o uso de diurtico, dieta pobre em sdio e beta-histina. Uma variedade de outras drogas podem ser usadas, incluindo anti-histamnicos, benzodiazepnicos e corticoides. O tratamento cirrgico somente considerado quando a vertigem proveniente dessa condio progride a ponto de se tornar clinicamente incapacitante (1).

O alvo de todas as intervenes cirrgicas , primeiramente, reduzir o nmero e a severidade dos ataques agudos de vertigem e, secundariamente, melhorar ou estabilizar a perda auditiva e os zumbidos ou a plenitude aural. Para os pacientes que ainda permanecem incapacitados e com ataques de desequilbrio depois de trs a seis meses de terapia conservadora e envolvimento unilateral da doena, a interveno cirrgica pode ser considerada (2).

As intervenes cirrgicas na DM podem ser divididas em dois grupos: conservadoras e no conservadoras da audio (1).

Os processos no conservadores incluem as labirintectomias e as neurectomias translabirnticas, que removem parcial ou totalmente o labirinto enfermo, e a insero de aminoglicosdeo na orelha mdia para realizar uma labirintectomia qumica, que diminui a vertigem, mas pode resultar em perda auditiva (3).

Existe um outro grupo de tcnicas no conservadoras da audio que atuam no sistema endolinftico distal, igualando as presses e conectando os espaos endolinftico e perilinftico, atuando no nvel do sculo. Algumas so realizadas atravs da platina do estribo, outras atravs da janela redonda. Pela janela oval, temos a saculotomia, o procedimento da tacha e a saculocentese. Pela janela redonda, temos a "diurese osmtica" com NaCl, a cocleostomia, a cocleossaculotomia, o shunt intracoclear e a dilise coclear. Existem ainda outras tcnicas, que atuam em outras pores da cpsula labirntica, como a criocirurgia, determinando uma fstula no canal semicircular lateral ou atuando no promontrio com um shunt oticopertico.

Entre as tcnicas conservadoras da audio esto includas a cirurgia do saco endolinftico por descompresso simples, por descompresso e drenagem para a mastoide ou para o espao subaracnoideo, implante de lmina de Silastic para a mastoide, por tubo capilar ou tubo capilar com cmara de fluido, shunt com vlvula unidirecional sensvel presso e, finalmente, shunt para o espao subaracnideo. Incluem-se, ainda, como medidas conservadoras, a neurectomia seletiva vestibular via fossa mdia, a neurectomia retrolabirntica e neurectomia retrossigmidea.

O procedimento mais utilizado na cirurgia do shunt o do saco endolinftico. Apesar de essas cirurgias serem relativamente livres de complicaes e tecnicamente de fcil realizao, seus resultados so controversos: alguns autores afirmam no haver melhora da vertigem estatisticamente significativa em relao aos procedimentos cirrgicos utilizados como placebos (4); j outros afirmam o contrrio (5).

A tentativa de realizar procedimentos criando shunts endolinfticos no nvel do sculo est em desuso, pelos altos ndices de perdas auditivas (4).

Como se trata de uma rea onde a otorrinolaringologia tem conceitos muitos variados e de difcil aplicabilidade, achamos que a ordenao conceitual sobre o tema e a respectiva discusso propiciariam uma contribuio consistente para os leitores. Para tal, criamos os seguintes objetivos:

1) Apresentar uma reviso bibliogrfica das principais tcnicas cirrgicas dos shunts endolinfticos, ou seja, as mais empregadas no tratamento da DM.

2) Discutir seus resultados, destacando uma nova alternativa cirrgica em fase experimental que atua no utrculo.


REVISO DE LITERATURA

Shunts endolinfticos no nvel do saco endolinftico.

O primeiro procedimento de shunt endolinftico foi realizado por GEORGES PORTMANN em 26 de fevereiro de 1926 (6). Como resultado de suas prprias pesquisas e da teoria proposta por GUILD de que o fluxo endolinftico longitudinal ocorria em direo ao saco endolinftico (7), Portmann reconheceu que a DM causada por um aumento de presso no compartimento endolinftico da orelha interna. Ele imaginou que a cirurgia do saco endolinftico, desenhada para diminuir a presso endolinftica no compartimento da orelha interna atravs da inciso do saco endolinftico, melhoraria os sintomas associados com a hidropisia (hydrops) endolinftica. Nesse procedimento, o saco endolinftico aberto para o processo mastideo. A cirurgia foi realizada com martelo e goiva ao invs de uma broca otolgica, e nenhum microscpio foi utilizado. O saco era simplesmente incisado com uma pequena faca, teoricamente reservando a drenagem da endolinfa sob aumento de presso em direo a mastoide.

Com a maior utilizao do microscpio e das brocas cirrgicas, muitas modificaes foram feitas cirurgia original de PORTMANN com o intuito terico de melhorar a drenagem da endolinfa. Em 1954, YAMAKAWA e NAITO removeram parte da parede medial do saco endolinftico para direcionar a drenagem do saco endolinftico em direo ao espao subaracnideo (8). Para evitar infeco e diminuio da drenagem, HOUSE, em 1962, criou um tubo para o shunt endolinftico-subaracnideo. Para colocar esse tubo de polietileno, uma inciso era feita na parede medial do saco endolinftico, com o objetivo de criar uma fstula cirrgica aberta. Subsequentemente, vrios autores, incluindo SHEA (9) e PAPARELLA e HANSON (10), entre outros (11-14), descreveram implantes de lminas de Silastic de drenagem, tubos ou material de cobertura, o qual era usado para a drenagem do saco em direo a mastoide, evitando assim que a drenagem entrasse no espao subaracnideo. Em 1978, ARENBERG et al. adicionaram uma vlvula de direo nica no tubo do shunt, como havia sido feito na Europa em 1975 por STAHLE (15). KITAHARA et al., na sequncia, basearam sua drenagem na abertura do saco intramastoide, dobrando a parede lateral para fora e inserindo uma esponja de gelatina absorvvel dentro do lmen (16).

Shunts endolinfticos no nvel do sculo

As cirurgias de shunts endolinfticos foram planejadas com a finalidade de criar uma fstula atravs da qual o espao endolinftico pode ser conectado ao espao perilinftico, colocando o shunt interno na cpsula tica. Essa fstula, teoricamente, faria cair presso ao drenar o fluxo para o espao perilinftico de baixa presso.

O primeiro procedimento realizado com esse intuito foi denominado de saculotomia. Em 1964, FICK, usando evidncias histolgicas da distenso do sculo em pacientes com DM, props que a ruptura do sculo distendido poderia equalizar a presso entre a endolinfa e a perilinfa. O autor preconizou uma punctura na platina do estribo com uma agulha para fazer a ruptura na base do sculo. CODY modificou o procedimento de FICK, colocando uma tacha de ao inoxidvel atravs da platina do estribo (tack operation) (17). Ele teorizou que o sculo poderia se romper na tacha de ao inoxidvel cada vez que fosse se distender. Essa cirurgia era realizada atravs do meato auditivo externo, procedendo a um retalho timpanomeatal. Infelizmente, muitos pacientes sofreram progressivas perdas auditivas aps serem submetidos a essas cirurgias. Schuknecht notou que os idealizadores desses procedimentos no haviam previsto que a parede sacular distendida estava usualmente aderida platina do estribo na DM, desse modo causando, em longo prazo, uma dificuldade para gerar uma fstula com carter eficiente e permanente (18).

Cocleossaculotomia

Esse procedimento foi proposto em 1982 por SCHUKNECHT, com base em observaes cientficas. Ele observou, em modelos animais, que as fstulas entre os compartimentos de perilinfa e endolinfa na orelha interna eram compatveis com a preservao da audio e demonstrou que a existncia de tais fstulas ocorrem espontaneamente nos ossos temporais em humanos. SCHUKNECHT acreditava que essas fstulas causavam remisso dos sintomas clnicos da DM e que elas poderiam ser permanentemente criadas via fratura e ruptura do ducto coclear (6).

Indicada como tratamento de pacientes idosos com sintomas incapacitantes, que tm audio pobre, mas revelam boa funo vestibular nas provas eletronistagmogrficas (1), e pela rapidez e simplicidade do procedimento, a cocleossaculotomia realizada sob anestesia local. Comea-se com a criao de um retalho timpanomeatal, atravs do qual o nicho da janela redonda exposto. Um estilete de ngulo reto, de 3 mm, introduzido em todo seu comprimento atravs da membrana da janela redonda, em direo janela oval. Nesse ponto, o instrumento avana atravs da lmina espiral ssea e penetra no sculo. O estilete retirado, e a membrana da janela redonda coberta com pericndrio, gordura ou fscia temporal. O retalho timpanomeatal ento recolocado.

Shunt endolinftico no nvel do utrculo

O primeiro procedimento cirrgico de shunt endolinftico atuando no utrculo foi proposto por LAVINSKY et al. em 1999 (19). A inteno desse procedimento esteve relacionada com a expectativa de um menor dano auditivo, tendo em vista que o utrculo no faz parte de uma unidade anatomofuncional com a cclea, a exemplo do sculo. Em estgio experimental, o mtodo denominado de utriculostomia consiste em obter uma fstula permanente no labirinto membranoso, comunicando assim os espaos endolinftico e perilinftico no nvel do utrculo. O procedimento foi posto em prtica em ovelhas, atravs da janela oval, utilizando um microcautrio por radiofrequncia com programao de tempo de exposio e temperatura. O calor localizado, aplicado com agulha de 0,20 mm, gera perda de substncia. Conforme observado em exames histolgicos, h uma regenerao na rea tratada, formando uma frgil membrana que se comporta como uma vlvula, rompendo-se em momentos de hidropisia endolinftica e, assim, comunicando os dois espaos e evitando uma permanente mistura inica e suas conhecidas consequncias.

A utriculostomia experimental foi realizada em 12 ovelhas no Hospital Veterinrio da Escola de Medicina Veterinria da Universidade do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS. Aps a anestesia, a rea endoperiauricular dos animais foi exposta e a membrana timpnica removida segundo a tcnica descrita por HOUSE et al. (20), empregada em estapedectomias.

O promontrio, as janelas oval e redonda, o nervo facial, o corda do tmpano, a apfise piramidal e o ligamento tensor do estribo foram expostos. Assim, o ligamento tensor do estribo foi seccionado e a disjuno da articulao incudoestapediana realizada. A supraestrutura do estribo foi fraturada, e toda a platina foi removida. Com uma broca de diamante, aproximadamente 2 mm da borda posterior da janela oval eram removidos em direo ao nervo facial. O alargamento da janela oval facilitava o procedimento de cauterizao no utrculo.

A parede anterior do utrculo, parcialmente visvel durante a otomicroscopia, era cauterizada utilizando-se um microtermocautrio com ponteira de 0,2 mm por 0,5 segundos, a uma intensidade de 3,5 W. A cauterizao era repetida em trs locais prximos um ao outro. A janela oval era fechada com tecido adiposo retirado de regio prxima inciso endoperiauricular e coberta com Gelfoam. O tmpano era reinserido, e o meato acstico externo tamponado com Gelfoam. Finalmente, a regio era coberta com curativo compressivo.

Trs meses aps a cirurgia, o animal era sacrificado, e seu osso temporal era submetido a estudo histolgico pertinente no laboratrio de histopatologia dirigido por MICHAEL PAPARELLA (University of Minnesota, Minneapolis, EUA). Foi possvel demonstrar a efetividade e a segurana da tcnica proposta, com resultados positivos.


DISCUSSO

Os mecanismos de secreo e reabsoro realizados na escala mdia atravs do epitlio heterogneo necessitam ser bem equilibrados para manter um constante volume de fluido. Falhas na manuteno desse equilbrio resultaro na dilatao do compartimento endolinftico observado na DM. Tem-se tambm admitido que esse aumento da presso endolinftica possa romper o labirinto membranoso e originar uma mistura entre a endolinfa, rica em potssio, e a perilinfa, pobre em potssio (21). O desequilbrio do potssio impediria a despolarizao e originaria perda transitria da funo at que a membrana seja reparada e as relaes sdio-potssio sejam restauradas.

Acredita-se que a vertigem resulte da sobre-estimulao mecnica das clulas sensoriais devido distenso das estruturas da orelha interna. Esta causada pela disfuno do saco, lesado por fibrose, infeco ou processos autoimunes ou alrgicos. Outro mecanismo possvel a produo exagerada de glicoprotenas, que originaria um aporte excessivo de endolinfa no saco (21).

Dados da literatura indicam que pelo menos 85% dos pacientes com DM tero uma boa resposta ao tratamento clnico (4). Porm, mesmo aps 20 anos sofrendo da doena, 21% dos pacientes permanecem com vertigem (22). Em um estudo prospectivo envolvendo 243 pacientes, houve aumento dos casos com ataques severos ou muitos severos (22), mostrando assim que, uma vez que a vertigem se torna incapacitante apesar do tratamento medicamentoso, o procedimento cirrgico indicado.

A descompresso do saco endolinftico uma alternativa cirrgica para aqueles pacientes que apresentaram resistncia terapia medicamentosa. Essa opo segura e conservadora do saco endolinftico pode ser realizada com ou sem a utilizao de um shunt (1).

A lgica dessa cirurgia muito discutida. Na base est o entendimento de que o shunt drena o excesso de endolinfa e alarga a luz do saco, ampliando a superfcie de absoro, enquanto que a descompresso ssea reduz a presso e aumenta o suprimento de sangue e as trocas (23).

Nos procedimentos cirrgicos do saco endolinftico sem shunt, realizada uma descompresso ssea ampla do saco, da rea sigmidea e da rea do bulbo jugular, sem entrar no saco endolinftico propriamente dito. Resultados de seguimentos de longo prazo mostraram que a cirurgia segura e eficiente para o controle da vertigem e para a estabilizao da audio (24). As taxas de melhora vo de uma escala de 85 a 100%, e a estabilizao ou melhora da audio pode atingir quase 85% (25).

A cirurgia do shunt do saco endolinftico uma modificao da cirurgia sem shunt. Neste caso, um shunt criado para o espao subaracnideo. O resultado do tratamento comparvel ao do shunt endolinftico mastideo (26). Entretanto, em longo prazo, a presena de fibrose ou o fechamento da inciso do saco endolinftico podem prejudicar os resultados. A aplicao de mitomicina C intraoperatria no saco endolinftico incisado pode ser benfica nesses casos (27), e a instilao de esteroides durante a cirurgia pode ajudar no controle da vertigem, na estabilizao da audio e na diminuio do zumbido (28,29). O controle da vertigem ocorre em 60-70% dos casos na cirurgia do shunt do saco endolinftico (26). Apesar disso, tem-se sugerido que o impacto dos shunts do saco endolinftico sobre os sintomas dos pacientes com DM seja muito parecido com o obtido com placebo (3,30), e alguns estudos do suporte ao conceito de efeito placebo nessas cirurgias. A insero de tubo de ventilao na membrana timpnica, a remoo completa extrassea do saco endolinftico e a mastoidectomia cortical apresentam resultados similares ao procedimento do shunt do saco endolinftico (31-33). Entretanto, o estudo de THOMSEN et al. contou com pequena amostragem e caractersticas estatsticas discutveis. PILLSBURY et al. (5) repetiram o estudo e obtiveram 87% de resultados favorveis para o shunt, contra 47% para o placebo (34).

Por outro lado, o procedimento cirrgico em si pode ser crtico, porque a anatomia do saco endolinftico mostra variaes, e o cirurgio pode ter dificuldades para encontrar e ampliar seu lmen em alguns casos - essa condio pode afetar os resultados da cirurgia. A preservao da integridade do saco endolinftico tambm importante. Uma cirurgia apropriada pode resultar em taxas de 90% de controle da vertigem (35).

A cirurgia do saco endolinftico pode ser realizada em crianas ou idosos, em pacientes com perda auditiva unilateral e em casos onde a DM coexiste com outras doenas, como fstulas, otite mdia e otosclerose. Ela pode ser realizada bilateralmente, entretanto no pode ser aplicada em condies vertiginosas outras que nas hidropisias endolinfticas. A cirurgia pode resultar em 2% de perda auditiva, o que pode ser atribudo mais a infeces ou inflamaes do que ao procedimento cirrgico em si (36). Embora os resultados da cirurgia do saco endolinftico sejam conflitantes, ela tem sido um dos procedimentos cirrgicos mais comumente realizados na DM (35-37). Um estudo realizado na mesma instituio usando o guia da American Academy of Otolaryngology - Head and Neck Surgery mostrou que tanto a cirurgia do shunt do saco endolinftico para a mastoide quanto descompresso do saco endolinftico so efetivas para os pacientes com DM (38). A cirurgia de descompresso do saco endolinftico, conforme descrita por PAPARELLA e SAJJADI, continua sendo a pedra angular da terapia cirrgica para os pacientes com DM. Segundo os autores, o procedimento resistiu prova do tempo, sendo um procedimento relativamente seguro, com um ndice de menos de 2% de perda auditiva neurossensorial importante e menos de 1% de risco de paresia do nervo facial, controle importante (85%) da vertigem durante 2 a 5 anos, com excelentes resultados tambm quando da reviso da cirurgia de aumento do saco endolinftico. Outros estudos, porm, tm demonstrado que a cirurgia do saco endolinftico no altera, a longo termo, o curso natural da vertigem na DM (39,40). Em pacientes com DM h mais de 20 anos e que haviam sido submetidos cirurgia do saco endolinftico, todos apresentaram longas, intensas e frequentes crises vertiginosas em comparao com os que no haviam realizado a cirurgia, sendo que 90% consideraram seus ataques severos ou muito severos (22).

A saculotomia inclui a drenagem do sculo dilatado, com a resultante eliminao da hidropisia. Apesar das presentes modificaes nas tcnicas de saculotomia, a tack operation de CODY foi o mais popular dos procedimentos cirrgicos realizados no sculo. Segundo alguns autores, essa cirurgia pode ser uma opo quando o paciente tem uma perda auditiva no ouvido com hidropisia, pois quase 50% dos pacientes tero uma piora da audio, apesar do controle da vertigem com taxas acima de 60% (41). Em recente estudo histopatolgico (42) de osso temporal de pacientes submetidos a tack operation, foram observadas severa hidropisia endolinftica e mudanas degenerativas mais severas no rgo de Corti e nas clulas do gnglio espiral quando comparadas s da orelha contralateral, que no havia sido operada. Severa degenerao da mcula sacular tambm foi observada na orelha operada. Segundo os autores, esses achados esto em concordncia com os resultados do estudo de hidropisia em modelo animal, onde as fstulas cirrgicas endoperilinfticas no foram suficientes para reduzir a hidropisia e ainda causaram mudanas degenerativas nas estruturas da orelha interna (43). Embora os autores (42) no tivessem como detectar a hidropisia e as mudanas nas estruturas da orelha interna antes e logo aps a cirurgia, seus achados sugerem que esse tipo de cirurgia teve sucesso mais por aliviar a vertigem atravs da destruio das clulas ciliadas da mcula sacular do que pela resoluo da hidropisia endolinftica. Os considerveis danos ao rgo de Corti tambm demonstram os riscos de perda auditiva.

SCHUKNECHT desenvolveu a cocleossaculotomia, criando uma fstula entre a endolinfa e a perilinfa com acesso via janela redonda. Seus resultados foram analisados em detalhe pelo prprio autor (SCHUKNECHT), idealizador do procedimento. Segundo o autor, a vantagem dessa cirurgia sua simplicidade tcnica e curto tempo de realizao. Em sua reviso de 120 casos, uma melhora prolongada da vertigem foi atingida em 70% dos casos (44). Esses resultados so melhores do que os obtidos com qualquer outro procedimento de shunt endolinftico sacular, mas podem ser considerados pobres em comparao com a neurectomia do nervo vestibular, por exemplo, que atinge 94% de controle da vertigem. Perdas auditivas parciais foram notadas em 25% dos pacientes, e surdez sensorioneural profunda ocorreu em mais de 10%, em comparao com os menos de 5% associados a neurectomia vestibular. Embora outros estudos (45,46) demonstrem controle de vertigem em mais de 80% dos casos, a cocleossaculotomia no advogada porque, em longo prazo, esse controle pobre, e 30-80% dos pacientes tero significativa perda auditiva (47). Atualmente, a cocleossaculotomia raramente realizada, mas pode ser considerada em pacientes com DM idosos e cofticos (48).

A utriculostomia, alternativa cirrgica em estgio experimental idealizada por LAVINSKY et al. (19), consiste em obter uma fstula permanente no labirinto membranoso, comunicando os espaos endolinftico e perilinftico no utrculo. Tal objetivo foi posto em prtica em ovelhas atravs da janela oval, utilizando um microcautrio por radiofrequncia com programa de tempo de exposio e temperatura.

Segundo o autor, o mtodo se fundamenta no fato de que, quando se faz uma puno no sculo, esta tende a apresentar um fechamento muito rpido, j que faz uma ruptura linear no labirinto membranoso. Ao contrrio, o calor localizado, aplicado com agulha de 0,20 mm, gera uma perda de substncia, e observou-se histologicamente que h uma regenerao, formando uma frgil membrana que se comporta como uma vlvula, rompendo-se em momentos de hidropisia endolinftica e, assim, comunicando os dois espaos e evitando uma permanente mistura inica, com suas conhecidas consequncias. Pela exiguidade da perfurao, esta tenderia a ficar fechada em momentos de intercrise da DM, gerando a comunicao somente em momentos de hidropisia endolinftica. Assim, a utriculostomia oferece ntidas vantagens no que se refere permanente comunicao endo e perilinftica.

Na realidade, provvel que a utriculostomia criaria uma nova "vlvula" em substituio ao mau funcionamento da vlvula utrculo-endolinftica, tambm chamada de vlvula de BAST (49). Embora sua funo ainda seja incerta, na viso de alguns autores (50) ela se fecharia para prevenir maior perda de endolinfa no sistema utricular em casos de diminuio da presso em todo sistema endolinftico - ou, como props ZECHNER (51), sua disfuno que seria a causa da hidropisia endolinftica.

Nas observaes ps-operatrias, apesar da pesada manipulao do vestbulo, os autores relatam ausncia de perdas significativas de equilbrio e postura. Alguns animais apresentaram alteraes no equilbrio dinmico, que desapareceram 24 horas aps o procedimento, e nenhum nistagmo foi observado.

Por no atuar no sculo, que tem ntima relao anatmica com a cclea, esperam os autores poder demonstrar a existncia de uma menor repercusso coclear na utriculostomia quando comparada com as saculostomias.


COMENTRIOS FINAIS

A literatura sobre cirurgias do shunt endolinftico apresenta muita controvrsia sobre sua efetividade no tratamento da DM incapacitante, sendo que muitos estudos inclusive relatam danos prejudiciais orelha interna. A cirurgia experimental denominada utriculostomia aparece como uma nova e promissora opo para o tratamento cirrgico da DM, por apresentar vantagens em relao s demais modalidades. Pesquisas adicionais devem se concentrar em avaliar esses aspectos.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. Lavinsky L. Tratamento cirrgico do paciente vertiginoso. In: Lavinsky L (ed). Tratamento em otologia. Rio de Janeiro: Revinter; 2006, pp. 580-8.

2. Monsell EM. New and revised reporting guidelines from the Committee on Hearing and Equilibrium. American Academy of Otolaryngology - Head and Neck Surgery Foundation, Inc. Otolaryngol Head Neck Surg. 1995, 113:176-8.

3. Van Benthem PP, Giard JL, Verschuur HP. Surgery for Mnire disease. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2009, Issue 4.

4. Storper IS, Michael E, Glasscock I. Internal and external endolymphatic shunts for Meniere's disease. In: Harris JP (ed). Meniere's disease. Amsterdam: Kugler; 1999. pp. 349-54.

5. Pillsbury HC, Arenberg IK, Ferraro J, Ackley RS. Endolymphatic sac surgery. The Danish sham surgery study: an alternative analysis. Otolaryngol Clin North Am. 1983, 16:123-7.

6. Portmann G. Vertigo: surgical treatment by opening the saccus endolymphaticus. Acta Otolaryngol. 1927, 6:309-15.

7. Guild SR. The circulation of endolymph. Am J Anat. 1927, 39:57-81.

8. Yamakava K, Naito T. The modification of Portmann's operation for Meniere's disease (Yamakawa-Naito's operation). Med J Osaka Univ. 1954, 5:167-75.

9. Shea JJ. Teflon film drainage of the endolymphatic sac. Arch Otolaryngol. 1966, 83:316-9.

10. Paparella MM, Hanson DG. Endolymphatic sac drainage for intractable vertigo (method and experiences). Laryngoscope. 1976, 86:697-703.

11. Gardner G. Endolymphatic sac shunt operation in Meniere's disease. Trans Am Acad Ophthalmol Otolaryngol. 1975, 80:306-13.

12 Palva T, Ylikoski J, Paavolainen M, Holopainen E, Jauhianan T. Vestibular neurectomy and saccus decompression surgery in Meniere's disease. Acta Otolaryngol (Stockh). 1979, 88:74-8.

13. Miller GW, Welsh RL. Surgical management of vestibular Meniere's disease with endolymphatic mastoid shunt. Laryngoscope. 1983, 93:1430-40.

14. Spector GJ, Smith PG. Endolymphatic sac surgery for Meniere's disease. Ann Otol Rhinol Laryngol (Stockh). 1983, 92:113-8.

15 Stahle J. Ultrasound treatment of Meniere's disease. Long term follow-up of 356 advanced cases. Acta Otolaryngol (Stockh). 1985, 81:120-6.

16. Kitahara M, Kitano H. Surgical treatment of Meniere's disease. Am J Otol. 1985, 6:108-9.

17. Cody DTR, Simonton KM, Hallberg OE. Automatic repetitive decompression of the saccule in hydrops (tack operation): preliminary report. Laryngoscope. 1967, 77:1480-501.

18. Schuknecht HF. Pathology of Meniere's disease as it relates to the sac and tack procedures. Ann Otol Rhino Laryngol. 1977, 86:677-82.

19. Lavinsky L, Goycoolea M, Ganana MM, Zewtsch Y. Surgical treatment of vertigo by utriculostomy: an experimental study in sheep. Acta Otolaryngol (Stockh). 1999, 119:522-7.

20. House WF, Gardner G, Hughes RL. Middle cranial fossa approach to acoustic tumor surgery. Arch Otolaryngol. 1968, 88:631-41.

21. Benitez Del Rosario JJ, Escamz JAL. Fisiopatologia de la enfermedad de Mnire. In: Ponencia oficial Del LX congreso nacional de la Sociedad Espanola de Otorrinolaringologia y Patologia Cervicofacial. 2009, 91-96.

22. Havia M, Kentala E. Progression of symptoms of dizziness in Mnire's disease. Arch Otolaryngol Head Neck Surg. 2004, 130:431-5.

23. Glasscock ME 3rd, Jackson CG, Poc DS, Johnson GD. What I think of sac surgery in 1989. Am J Otol. 1989, 10:230-3.

24. Ostrowski VB, Kartush JM. Endolymphatic sac-vein decompression for intractable Mnire's disease: long-term treatment results. Otolaryngol Head Neck Surg. 2003, 128:550-9.

25. Gianoli GJ, Larouere MJ, Kartush JM, Wayman J. Sac-vein decompression for intractable Mnire's disease: two year treatment results. Otolaryngol Head Neck Surg. 1998, 118:22-9.

26. Brackmann DE, Nissen RL. Mnire disease: results of treatment with the endolymphatic subarachnoid shunt compared with the endolymphatic mastoid shunt. Am J Otol. 1987, 8:275-82.

27. Yazawa Y, Susuki M, Kitano H, Kitajima K. Intraoperative mitomycin C in endolymphatic sac surgery for Mnire's disease: a pilot study. ORL J Otorhinolaryngol Relat Spec. 1999, 61:184-94.

28. Kitahara T, Takeda N, Mishiro Y, Saika T, Fukushima M, Okumura S, et al. Effects of exposing the opened endolymphatic sac to large doses of steroids to treat intractable Mnire's disease. Ann Otol Rhinol Laryngol. 2001, 110:109-12.

29. Kitara T, Kubo T, Okumura S, Kitahara M. Effects of endolymphatic sac drainage with steroids for intractable Mnire's disease: a long-term follow-up and controlled study. Laryngoscope. 2008, 118(5):854-61.

30. Thomsen J, Bretlau P, Tos M, Johnsen NJ. Placebo effect in surgery for Mnire's disease: three-year follow-up. Otolaryngol Head Neck Surg. 1983, 91:183-6.

31. Thomsen J, Bonding P, Becker B, Stage J, Tos M. The non-specific effect of endolymphatic sac surgery in treatment of Mnire's disease: a prospective, randomized controlled study comparing "classic" endolymphatic sac surgery with insertion of a ventilation tube in the tympanic membrane. Acta Otolaryngol. 1998, 118:769-73.

32. Thomsen J, Kerr A, Bretlau P, Olsson J, Tos M. Endolymphatic sac surgery: why we do not do it. The non-specific effect of a sac surgery. Clin Otolaryngol 1996, 21:208-11.

33. Welling DB, Pasha R, Roth LJ, Barin K. The effect of endolymphatic sac excision in Mnire's disease. Am J Otol. 1996, 17:278-82.

34. Smith WC, Pillsbury HC. Surgical treatment of Mnire disease since Thomsen. Am J Otol. 1988, 9:39-43.

35. Huang TS. Endolymphatic sac surgery for Mnire disease: experience with over 3000 cases. Otolaryngol Clin North Am. 2002, 35:591-606.

36. Paparella MM, Fina M. Endolymphatic sac enhancement: reversal of pathogenesis. Otolaryngol Clin North Am. 2002, 35:621-37.

37. Kerr AG. Emotional investments in surgical decision making. J Laryngol Otol. 2002, 116:575-9.

38. Brinson GM, Chen DA, Arriaga MA. Endolymphatic mastoid shunt versus endolymphatic sac decompression for Mnire's disease. Otolaryngol Head Neck Surg. 2007, 136:415-21.

39. Silverstein H, Smouha E, Jones R. Natural history vs surgery for Mnire's disease. Otolaryngol Head Neck Surg. 1989, 100:6-16.

40. Filipo R, Barbara M. Natural history of Mnire's disease: staging the patients or their symptoms? Acta Otolaryngol Suppl. 1997, 526:10-3.

41. MacDonald TJ, Cody TR. The sacculotomy procedure. Otolaryngol Clin North Am. 1995, 27:403-12.

42. Morita N, Cureoglu S, Paparella M. Tack operation for Mnire's disease: temporal bone histopathology case of the month. Otol Neurotol. 2009, 3. Epub ahead of print. doi: 10.1097/MAO.0b013e3181a527df.

43. Yazawa Y, Kitano H, Suzuki M, Kitanishi T, Kitajima K. Effects of endolymphatic-perilymphatic fistula on endolymphatic hydrops in guinea pig. Otolaryngol Head Neck Surg. 2000, 122:119-23.

44. Schucknecht HF. Cochlear endolymphatic shunt. Am J Otol. 1984, 5:546-8.

45. Montandon PB, Hausler RJ, Kimura RS. Treatment of endolymphatic hydrops with cochleosacculotomy. Clinical results and experimental findings. Otolaryngol Head Neck Surg. 1985, 93:615-21.

46. Dionne J. Cochleosacculotomy. J Otolaryngol. 1985, 14:59-61.

47. Giddings NA, Shelton C, O'Leary MJ, Brackmann DE. Cochleosacculotomy revisited. Long-term results poorer than expected. Arch Otolaryngol Head Neck Surg. 1991, 117:1150-2.

48. Kinney WC, Nalepa N, Hughes GB, Kinney SE. Cochleosacculotomy for the treatment of Mnire's disease in the elderly patient. Laryngoscope. 1995, 105:934-7.

49. Hofman R, Segenhout JM, Buytaert JA, Dirckx JJ, Wit HP. Morphology and function of Bast's valve additional insight in its functioning using 3D-reconstruction. Eur Arch Otorhinolaryngol. 2008, 265:153-7.

50. Barchor E, Karmody CS. The utriculo-endolymphatic valve in paediatric temporal bones. Eur Arch Otorhinolaryngol. 1995, 252:167-71.

51. Zechner G. Innenohrhydrops als Folge gestorter Endolymphzirkulation. Laringol Rhino Otol. 1980, 59:829-33.









1) Doutor em Otorrinolaringologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professor Convidado da Disciplina de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina e Cirurgia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
2) Doutor em Neurologia. Professor Visitante da Pontifcia Universidade Catlica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
3) Ps-Doutorado em Otorrinolaringologia. Professor da Faculdade de Medicina da UFRGS.

Instituio: Centro de Pesquisa do Hospital de Clnicas de Porto Alegre. Rua Ramiro Barcelos - 2350 - Bairro Rio Branco - Porto Alegre / RS - Brasil - CEP 90035-003 - Telefone: (+55 51) 2101-8232. Endereo para correspondncia: Francisco Carlos Zuma e Maia Rua Ipiranga, 95 - Sala 604 - Centro - Canoas / RS - Brasil - CEP: 92010-290 - Telefone: (+55 51) 3472-1820 - E-mail: zumaemaia@gmail.com

Artigo recebido em 10 de Fevereiro de 2010. Artigo aprovado em 29 de Maio de 2010.
  Print:

 

All right reserved. Prohibited the reproduction of papers
without previous authorization of FORL © 1997- 2023