Title
Search
All Issues
17
Ano: 2011  Vol. 15   Num. 4  - Out/Dez
DOI: 10.1590/S1809-48722011000400017
Print:
Review Article
Versão em PDF PDF em Português Versão em PDF PDF em Ingls TextoTexto em Ingls
Internet e educao ao paciente
Internet and education for the patient
Author(s):
Brbara Guimares Bastos1, Deborah Viviane Ferrari2.
Palavras-chave:
aconselhamento, internet, fonoaudiologia.
Resumo:

Introduo: O processo de educao ao paciente tem como objetivos melhorar o conhecimento e habilidade do paciente e/ou famlia de forma a influenciar as atitudes e comportamentos necessrios para manter ou melhorar a sade. Deve ser uma parte integral da comunicao entre profissionais de sade e pacientes, podendo isto ocorrer por meio da comunicao interpessoal e outros diferentes meios como panfletos, manuais e, mais recentemente, recursos computacionais. Objetivo: Este artigo de atualizao aborda a educao ao paciente e as potencialidades da internet para este processo, apresentando ainda algumas iniciativas na rea da audiologia. Discusso: As informaes relacionadas sade so populares na internet, e incluem websites interativos, portais, e-mails, aplicaes de telessade, entre outros. A educao de pacientes apoiada pela internet pode contribuir para solucionar um grande desafio tico, poltico e econmico: o problema de conciliar as necessidades e expectativas dos pacientes com as caractersticas e limitaes do sistema de sade. Embora a utilizao da internet para a educao ao paciente seja promissora, esta no uma soluo que deve ser utilizada sem planejamento cuidadoso, monitoramento e avaliao. Na audiologia existem poucas iniciativas com o uso de e-mails e websites para complementao da educao ao paciente. Consideraes Finais: Os profissionais da sade, incluindo os fonoaudilogos, devem verificar se seus pacientes utilizam recursos da internet, reconhecer esta mudana de comportamento e preparar-se no s para discutir as informaes obtidas com o paciente, mas tambm sugerir websites com informaes confiveis e auxili-los a avaliar a qualidade das informaes disponveis online.

INTRODUO

Nas dcadas de sessenta e setenta os profissionais da sade eram responsveis pelo diagnstico, tratamento e acompanhamento dos pacientes, sendo estes ltimos considerados participantes passivos no processo de diagnstico e tomada de decises no tratamento. A partir da dcada de oitenta vrios pases estabeleceram legislaes que davam direito ao paciente de saber sobre sua condio de sade e opinar sobre o tratamento. Nos anos noventa os pacientes passaram a ser ativamente envolvidos na promoo de sua sade, partilhando com os profissionais de sade a responsabilidade por decises de tratamento e seu objetivo, em um dilogo mais igualitrio em lugar de um modelo paternalista. Alm disto, a influncia de pessoas do convvio do paciente como cnjuges, filhos e outros membros de sua rede social, foi reconhecida como importante no processo interventivo, sendo at mesmo incorporada como um sistema de apoio. Nesta poca, ressaltou-se de forma mais contundente a importncia dos comportamentos auto-regulatrios do paciente, em sua vida diria, nos resultados do tratamento o que, por conseguinte, levou a uma maior preocupao com o processo de educao ao paciente (1).

Neste contexto, a educao ao paciente entendida como parte do tratamento que permite uma reviso crtica do tradicional relacionamento profissional-paciente, enfocando os aspectos pessoais e emocionais e o reconhecimento da necessidade de centralizar a pessoa e no a doena (2). O objetivo principal permitir ao paciente realizar escolhas conscientes sobre o gerenciamento de sua condio (3).

De alguma forma, todos os profissionais da sade fornecem aos pacientes e/ou familiares informaes sobre suas condies e tratamento, preveno secundria e possveis complicaes. Isto pode ocorrer por meio da comunicao interpessoal e/ou diferentes meios como panfletos, manuais e, mais recentemente, recursos computacionais.

Os avanos nas tecnologias da informao, computao e comunicao transformaram a vida econmica, social e cultural da sociedade. Os computadores, mais do que ferramentas que facilitam a vida das pessoas, tornaram-se parte da cultura (4). Os computadores e a internet possibilitam a obteno de informao em diferentes fontes, locais, horrios e em uma velocidade sem precedentes, da o seu grande impacto no processo de educao ao paciente. Este artigo de atualizao aborda a educao ao paciente e as potencialidades da internet para este processo, apresentando ainda, algumas iniciativas na rea da Audiologia.


REVISO DE LITERATURA

A atividade de educao ao paciente tem recebido diferentes denominaes, no havendo uma terminologia consistentemente empregada na literatura fonoaudiolgica ou mesmo em outras reas da sade. Muitas vezes os termos aconselhamento, orientao e educao ao paciente so empregados como sinnimos. Este cenrio pode levar a compreenses equivocadas das prticas profissionais.

O aconselhamento uma oportunidade de receber e fornecer informaes de modo a facilitar o entendimento de uma condio de sade e propiciar ajuste a esta situao. Dois tipos de aconselhamentos so definidos na literatura: (a) aconselhamento de ajuste pessoal, que envolve o desenvolvimento de mecanismos e sistemas de suporte emocional para o indivduo lidar com a situao, e (b) aconselhamento informativo, que aborda questes relacionadas a uma determinada doena, fisiologia normal, resultados de exames e plano de tratamento (5). O termo "orientao" frequentemente utilizado no lugar de "aconselhamento informativo".

O Conselho Federal de Fonoaudiologia utiliza os termos "orientao" e "aconselhamento" para se referir a uma das reas de competncia do fonoaudilogo que engloba aes de escuta profissional, a explicao, instruo, demonstrao, proposio de alternativas e verificao da eficcia das aes propostas e da compreenso das orientaes ministradas (6).

O termo "educao ao paciente" refere-se a todas as atividades educacionais dirigidas aos mesmos, incluindo aspectos de educao teraputica, educao em sade e promoo de sade. O processo de educao ao paciente tem como objetivos melhorar o conhecimento e habilidade do paciente e/ou famlia de forma a influenciar as atitudes e comportamentos necessrios para manter ou melhorar a sade (7).

A educao teraputica definida como o processo de auxiliar o paciente a adquirir ou manter as competncias necessrias para lidar da melhor forma possvel com uma doena em sua vida. , portanto, um processo contnuo, integrado com o cuidado sade. centrada no paciente e inclui ateno, informao, aprendizagem de autocuidado e suporte psicossocial sobre a doena, tratamento prescrito, sobre o hospital ou outras instituies de sade, informao organizacional e de comportamento relacionado sade e doena (8).

O surgimento da educao teraputica como rea de estudo indica os sinais do declnio do modelo biomdico reducionista e dualista em favor de um modelo biopsicossocial com uma perspectiva sistmica. Ateno dada ao conceito de sade e no mais ao de doena, deslocando o eixo em torno do qual gira a interveno clnica, da doena para o bem-estar. O protagonista o prprio indivduo que age para melhorar sua sade (2). Por pressupor o paciente como agente ativo no processo, o termo "educao ao paciente" empregado neste artigo.

Os benefcios da educao ao paciente podem incluir alguns ou todos os itens a seguir: maior conhecimento da doena e compreenso das circunstncias desta para cada paciente, melhor compreenso da necessidade de tratamento, melhor comunicao entre o paciente e o profissional de sade, participao dos pacientes na escolha do tratamento, desenvolvimento de opinies e modelos adequados sobre a doena, melhoria do autocuidado, melhoria no gerenciamento de crises, desenvolvimento de habilidades de enfrentamento e de soluo de problemas, bem-estar emocional, melhora da qualidade de vida, maior conscincia da importncia de consultas de acompanhamento e/ou necessidade de mais procedimentos de triagem e diagnstico, maior concordncia com os planos de tratamento, melhor uso de tempo e dos recursos (3).

Algumas doenas crnicas levantam questes em relao ao significado do estado de sade para os pacientes e familiares. Pode haver importantes consequncias no modo como lidam com a vida diria como, por exemplo, a necessidade de ingesto de medicamentos, uso de prteses ou realizao de exames de sade peridicos. Estes fatores levam o paciente a uma reestruturao cognitiva da percepo de si mesmo, um "eu" que pode ter sofrido considerveis modificaes fsicas e a organizao de uma nova identidade, reconhecendo o estado de "estar doente". Assim a educao ao paciente tambm um instrumento teraputico e requer profunda sensibilidade relacionada aos aspectos de relaes interpessoais, necessidades individuais, expectativas e reais possibilidades de recuperao e reabilitao (2).

Destaca-se, no entanto, que nem sempre as informaes consideradas essenciais pelos profissionais so aquelas que o paciente considera necessrias (9). Deste modo, importante que o profissional reflita sobre suas atitudes e opinies sobre o conhecimento, aprendizado e educao como parte do tratamento do paciente. "O paciente tratado como um parceiro no aprendizado ou como um aluno? H um dilogo com o paciente para se saber as necessidades de aprendizagem e ideias ou apenas uma comunicao de mo nica com material padro?" No h aprendizado sem reflexo, interao, compreenso e interpretao eficientes por parte do paciente (10).

O processo de educao ao paciente pode ser descrito em cinco passos. O primeiro inclui a avaliao do conhecimento prvio que o paciente possui, equvocos, habilidades e estilos de aprendizagem, cognio, atitudes e motivao. Isso pode ser recolhido por meio de entrevista ou testes especficos. Aps esta avaliao, os recursos dos pacientes, as barreiras e as necessidades de aprendizado podem ser identificadas. O terceiro passo o planejamento da educao juntamente com o paciente, os objetivos so definidos e as intervenes so escolhidas. Na fase de planejamento o mtodo utilizado para a educao, quem ir fornec-la, a frequncia, como e quando a educao ir ocorrer devem ser definidos. O prximo passo o fornecimento da educao, e o ltimo a avaliao. A partir disto, a avaliao continuada das necessidades do paciente e seus objetivos fornecem a base para mais educao (11).

O local escolhido para a educao ao paciente pode ser um hospital, um ambulatrio, unidades de ateno primria, a residncia do paciente ou mesmo a combinao de tais locais. O processo de educao inicia-se na ateno primria ou no hospital, dependendo de onde o paciente foi diagnosticado. Uma vez que o paciente recebe educao em diferentes momentos e de diferentes profissionais, o contedo deve ser consistente nesta cadeia de atendimentos, ou seja, as informaes devem ser claras e no contraditrias a fim de conseguir uma maior concordncia do paciente ao tratamento (10).

As tecnologias de informao e comunicao esto presentes na maioria dos campos da atividade humana, incluindo a rea da sade. A disseminao do uso da internet vem proporcionando um crescimento acentuado do acesso informao com benefcios para a educao ao paciente.

A internet uma rede global de computadores interligados por um protocolo especfico que permite no s o acesso s informaes, mas tambm a transferncia de dados de um computador a outro. Em dezembro de 2010 cerca de 1,9 bilhes de pessoas possuam acesso internet, uma penetrao global de aproximadamente 29%. A razo de usurios no mundo cresceu 445% entre o ano 2000 e 2010. A Amrica Latina e Caribe contam com 200,1 milhes de usurios sendo 75,9 milhes de pontos existentes s no Brasil (12).

O Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informao e da Comunicao no Brasil entrevistou 19.998 pessoas das reas urbanas e rurais no perodo de setembro e novembro de 2009, coletando informaes sobre o uso da internet. A porcentagem de indivduos com acesso internet neste perodo encontra-se na Figura 1 (13).

As informaes relacionadas sade so populares na internet, e incluem websites interativos, portais, e-mails, aplicaes de telessade, comunidades online, jogos e simuladores. Os websites com informaes de sade so um dos mais visitados - isto significa que os pacientes esto coletando informaes fora da interao tradicional com o profissional de sade (1). Existe desta forma a descentralizao e democratizao do acesso informao, com a possibilidade da informao ser revista quantas vezes o paciente julgar necessrio.

A internet tambm proporciona uma fonte til de informao e apoio para uma ampla gama de condies crnicas, proporciona fruns convenientes para muitas pessoas, evitando vrios obstculos convencionais para apoiar a participao de grupos como, por exemplo, tempo, localizao geogrfica, barreiras pessoais e fsicas (3). A educao de pacientes apoiada na internet pode contribuir para solucionar um grande desafio tico, poltico e econmico: o problema de conciliar as necessidades e expectativas dos pacientes com as caractersticas e limitaes do sistema de sade.

Computadores podem auxiliar no processo de democratizao e disseminao de informaes sobre a sade e permitir que, atravs deste conhecimento, indivduos, famlias e comunidades assumam um papel mais ativo nos cuidados com a prpria sade, minimizando a carga psicolgica frente a tratamentos, exames ou cirurgias, bem como diminuindo o uso de servios onerosos e desnecessrios (14).

Uma reviso sistemtica com doze estudos sobre as experincias subjetivas de pacientes que utilizaram servios de comunicao interativa de sade mostrou que o uso de tais aplicaes na internet aumentou o conhecimento, a confiana e melhoraram a sade de tais pacientes. Isto, por sua vez, permitiu que fossem estreitadas as relaes paciente-profissional de sade (15).

Com relao aos hbitos de pacientes brasileiros em relao ao uso da internet, 83% procuram informaes sobre sade na web e 85% voltam a fazer pesquisas on-line depois de uma consulta mdica. Os pacientes revelaram que as informaes obtidas na internet eram teis e os tornavam mais ativos em relao s decises sobre sua sade. Mais que 50% destes indivduos que fazem buscas por informaes de sade na internet utilizam o Sistema nico de Sade (16).

A popularidade e o aumento de informaes de sade disponveis na internet apresentam novos desafios, como, por exemplo, a qualidade e a objetividade das informaes apresentadas. Vrios instrumentos de avaliao tm sido desenvolvidos com a finalidade de guiar os consumidores para boas fontes de informao. Estes instrumentos so geralmente genricos de forma que podem ser aplicados para websites que fornecem diferentes informaes para uma srie de condies de sade. A mensurao do impacto clnico e a capacidade do consumidor aprender o contedo encontrado online tambm devem ser consideradas na avaliao de um website (17).

Na Alemanha foi observado como as pessoas realizavam buscas na internet sobre assuntos relacionados sade e como avaliavam as informaes encontradas. A maioria dos indivduos utilizava buscadores como, por exemplo, o Google. Foi observado que 97,2% analisavam apenas os 10 primeiros resultados e depois realizavam uma nova busca. Os participantes utilizavam os seguintes critrios para avaliar a qualidade dos websites: origem das informaes, aparncia e layout do website, facilidade de leitura, existncia de links, contato fornecido, qualificaes dos autores, atualizaes do contedo e selo de qualidade fornecido por algum rgo responsvel (18).

Um dos instrumentos mais populares para avaliao de websites o Health on the Net Code (HONcode), desenvolvido por um grupo de profissionais da sade que observaram a necessidade de avaliao da qualidade das informaes de sade fornecidas online. O HONcode certifica websites que obedeam a oito critrios (19):

-Qualificaes dos autores: qualquer orientao de sade oferecida no website dever ser fornecida por profissionais treinados e qualificados.

-Complementaridade: as informaes oferecidas devem auxiliar, e no substituir, a relao mdico-paciente.

-Privacidade: devem ser respeitadas a privacidade e confidencialidade dos dados pessoais que o usurio ou visitante envia para o website de acordo com os requisitos legais do estado ou pas onde o website foi desenvolvido.

-Atribuio: devem ser citados a bibliografia consultada e/ou as fontes dos dados fornecidos no website e, se houver, devem ser fornecidos os links para tais fontes. A data em que cada pgina foi modificada pela ltima vez dever ser fornecida de maneira clara.

-Justificativas: quaisquer afirmaes feitas sobre os benefcios e desempenho de um determinado tratamento, produto comercial ou servio devero ser sustentados por evidncias.

-Transparncia: a informao deve ser apresentada de forma acessvel. Deve ser oferecida uma forma de contato para os visitantes que desejarem informaes ou ajuda adicional.

-Patrocnio: as fontes de financiamento devem estar identificadas.

-Poltica de Publicidade: uma breve descrio da poltica de divulgao adotada pelo website deve ser apresentada.

O Centro Nacional para Medicina Complementar e Alternativa (20) tambm fornece um guia para os usurios da internet avaliarem websites com informaes de sade de acordo com dez perguntas bsicas: 1. Quem o responsvel pelo site e pelas informaes que esto nele? 2. Quem financia o site? 3. Qual o propsito/objetivo do site? 4. De onde vem a informao fornecida no site? 5. Quais so as referncias das informaes? 6. Como foi selecionada a informao? Ou seja, h corpo editorial? O contedo foi revisado por profissionais com qualificaes cientficas? 7. Quo atualizadas so as informaes? 8. Como este site escolhe links para outros sites? (alguns sites pagam para terem seus links em outras pginas; outros estabelecem alguns critrios para colocar links). 9. Qual informao sobre o visitante que foi coletada pelo website e por qu? 10. Como o site administra interaes com seus visitantes/usurios?

Um estudo comparou a usabilidade de diferentes instrumentos para avaliao de websites de sade. As pesquisadoras solicitaram que cinco participantes navegassem no website "Sade na Internet" e avaliassem via administrao de trs instrumentos diferentes traduzidos para o portugus pelas autoras: (a) Emory (22), 36 itens divididos nas escalas contedo, preciso, autores, atualizaes, pblico, navegao, links e estrutura - apresenta fcil pontuao e preenchimento; (b) Michigan (22), 43 itens divididos nas escalas contedo, preciso, autores, atualizaes, pblico, valores, navegao, links, publicidade e estrutura - apresenta fcil entendimento, porm, de difcil pontuao; e (c) o HonCode adaptado para o portugus (23). Foram avaliados o tempo despendido e resultado obtido pela aplicao de cada instrumento. Os comentrios dos participantes sobre o uso dos instrumentos foram analisados qualitativamente. O tempo mdio de aplicao dos instrumentos foi de 2,2 (HonCode), 11 (Emory) e 13 minutos (Michigan). Para cada instrumento utilizado observou-se variabilidade da pontuao interavaliadores, sendo esta maior para o questionrio Michigan. Houve discrepncia do resultado da avaliao interinstrumentos, ou seja, o website foi considerado adequado pelos instrumentos Emory e HonCode e fraco pelo Michigan. A classificao obtida pela aplicao do instrumento nem sempre correspondeu ao julgamento subjetivo da qualidade do website dado pelo avaliador, especialmente no caso do HonCode. O questionrio Michigan foi considerado de difcil entendimento e muito longo. O Emory foi considerado o mais fiel na classificao do website e o de maior facilidade de entendimento das questes (24).

Para a construo de sistemas de informao computadorizados faz-se necessrio seguir atributos de qualidade para que o mesmo obtenha bons resultados em sua avaliao. O desenvolvimento de um website contendo informaes de sade pode seguir os atributos de qualidade de um sistema de informao computadorizado (25), sendo eles:

-Usabilidade: considera as diferentes formas de sua utilizao, durante as fases de desenvolvimento e uso. Para os desenvolvedores deve se garantir que as atividades relacionadas ao desenvolvimento e manuteno possam ser realizadas com qualidade e facilidade. Para os profissionais da sade, garantir que o sistema possua caractersticas adequadas aos seus usurios (os pacientes) e que, ao surgirem necessidades de alteraes e/ou de introduo de novas informaes, estas podero ser realizadas num tempo hbil e com custo aceitvel, mantendo-se a qualidade desejada. Para o usurio final (os pacientes) os atributos de qualidade relacionados a este objetivo referem-se a caractersticas relacionadas facilidade de uso do sistema e satisfao do usurio com o seu uso.

-Confiabilidade conceitual: avaliar e garantir a confiabilidade do contedo disponvel. As informaes fornecidas no podem apresentar erros, pois, do contrrio, podem levar a consequncias indesejadas para a sade dos usurios finais - os pacientes.

-Confiabilidade de representao: para que um sistema de educao ao paciente atenda o objetivo de complementar ou, em casos especficos, substituir as informaes dadas por profissionais de sade necessrio que estas estejam representadas de forma a facilitar seu entendimento.

Uma reviso literria identificou quatro pontos principais para que o uso da tecnologia de informao e comunicao atinja seu potencial pleno para a educao ao paciente. As intervenes baseadas na internet devem ser desenvolvidas de modo a maximizar a comunicao interativa com os usurios de forma a encorajar seu envolvimento ativo na promoo e cuidado sade. Os sistemas devem ser desenhados para trabalhar de forma efetiva e transparente em diferentes plataformas de comunicao e com diferentes populaes de usurios. As intervenes devem ser desenhadas para engajar os interesses e emoes de usurios para promover a mxima exposio e influncia das informaes postadas. Finalmente, as aplicaes devem ser desenvolvidas para ter um acesso amplo a diversas populaes e, ao mesmo tempo, adaptar-se as necessidades e interesses especficos de diferentes usurios (26).



Figura 1. Porcentagem de usurios de internet por regies do Brasil (13).




DISCUSSO

Embora a utilizao da internet para a educao ao paciente seja promissora, esta no uma soluo que deve ser utilizada sem planejamento cuidadoso, monitoramento e avaliao. A tecnologia deve ser utilizada como um meio para se chegar a uma finalidade e no como a finalidade em si. Os cinco passos do processo de educao descritos por RANKIN e STALLINGS (11) podem ser aplicados quando se planeja um material de educao ao paciente baseado na internet.

Uma das primeiras consideraes sobre o uso da internet no processo de educao ao paciente diz respeito ao acesso do mesmo internet bem como aos custos envolvidos. importante saber se o paciente possui ou tem acesso a um computador, se sabe como us-lo e se tem interesse em utilizar este recurso para obter informaes de sade. Embora o uso da internet continue aumentando, existe uma lacuna entre as pessoas com acesso efetivo s tecnologias digitais e de informao e aqueles com pouco ou nenhum acesso - neste ltimo caso pessoas com menor instruo, menor renda familiar, com idade superior a 65 anos e que vivam em reas rurais (4).

Outra questo de grande importncia o controle muito limitado das informaes que so inseridas na internet. A preocupao de muitos profissionais que os pacientes tomem importantes decises sobre sua sade baseados em informaes que no tenham sido revisadas em termos de sua qualidade, objetividade, atualidade, acurcia e ausncia de vis. Ressalta-se que pode haver outros interesses, como por exemplo, econmicos, por trs das informaes fornecidas (7) da a importncia de avaliao dos websites.

A avaliao dos websites de sade traz vrios benefcios, entre eles, promoo de melhorias na qualidade, utilidade e efetividade do website, diminuio de possveis efeitos negativos, conservao de recursos e participao de potenciais usurios no processo de desenvolvimento do website. As avaliaes podem ser realizadas antes do desenvolvimento do website, durante e aps a divulgao do mesmo, garantindo constantes atualizaes de contedo e aprimoramento da apresentao (27).

Alm da avaliao da qualidade do contedo so de extrema importncia a mensurao do impacto clnico e da capacidade do prprio consumidor aprender o contedo encontrado online (17).

Nem todas as informaes existentes na web so de fcil compreenso. Alm disto, pode ser que o nmero de informaes existentes seja maior do que aquela com que o indivduo consiga lidar. Por exemplo, um indivduo em fase inicial de diagnstico pode encontrar informaes sobre o curso da patologia. Desta forma importante que o profissional pergunte ao paciente se estes tm utilizado a internet e explorar os tipos de informaes encontradas. Alguns pacientes no se sentem vontade em revelar que procuram informaes na internet com receio de que isto abale a relao entre ele e o profissional, ou seja, que o profissional entenda isto como falta de confiana no cuidado recebido.

Muitos pacientes realizam buscas na internet sobre suas condies de sade e de membros de sua famlia mesmo antes de procurar o profissional de sade. Desta forma, os pacientes tero noes prvias, verdadeiras ou no, sobre o diagnstico e tratamento. Desta forma, faz-se necessrio uma mudana na conduta do profissional para lidar com estes pacientes, assumindo uma postura mais aberta, capaz de trabalhar as informaes encontradas pelos pacientes e indicar as fontes com maior fidelidade, deixando assim a antiga postura autoritria (28).

Foi realizada uma reviso dos estudos examinando como as buscas na internet feitas pelos pacientes afetavam as relaes com os seus profissionais de sade. De modo geral, trs tipos de resultados foram encontrados: (a) os profissionais se sentiram ameaados por pacientes que trazem informaes obtidas na internet e reagem defensivamente oferecendo sua "opinio de especialista"; (b) o profissional e o paciente atuam em conjunto para encontrar e analisar a informao e (c) o profissional guia o paciente para websites que sejam confiveis (29).

O uso da internet como ferramenta para auxiliar o processo de educao ao paciente vem sendo discutido em diferentes reas da sade, sobretudo na enfermagem, medicina, psicologia, nutrio e farmcia tanto nacional como internacionalmente. No que tange a fonoaudiologia, existe na internet um grande nmero de websites com informaes referentes aos diversos processos e distrbios da comunicao sendo estes desenvolvidos tanto por sociedades cientficas como por empresas ou clnicas que atuam na rea. No entanto, at o presente momento, estudos que avaliaram a qualidade, contedo e uso de tais websites para a educao do paciente so extremamente escassos.

KALDO-SANDSTRM, LARSEN e ANDERSSON (30) avaliaram a efetividade da terapia de cognio-comportamento aplicada por meio de um website no tratamento do zumbido. Os participantes completaram mdulos semanais e ao final de cada sesso completavam um dirio no prprio website para monitoramento do progresso. Foi observada significativa reduo do estresse, ansiedade, depresso e insnia para aqueles que cumpriram o programa. O nvel de desistncia dos participantes foi de 30% sendo esta maior do que a observada para o tratamento face a face. No entanto, no houve diferena entre os julgamentos de credibilidade do tratamento aplicado tradicionalmente e pela internet.

No Brasil pesquisadoras avaliaram a eficcia do website "Portal dos Bebs - Fonoaudiologia" como instrumento de orientao distncia aos pais de crianas deficientes auditivas usurias de AASI em um estudo preliminar. Neste estudo participaram 31 pais de crianas deficientes auditivas recm adaptadas com AASI, divididos em grupos A (n=18) e B (n=13) que receberam orientaes presenciais sobre as caractersticas da deficincia auditiva e uso e cuidados com o AASI. O grupo B acessou o website durante os meses iniciais do uso do AASI. Foi aplicado um questionrio fechado a respeito das orientaes fornecidas imediatamente aps a adaptao do AASI e no primeiro retorno da criana. Ambos os grupos reconheceram 83% da informao sobre as caractersticas da perda auditiva no momento da adaptao e no retorno. Quanto ao uso e cuidados com o AASI os participantes reconheceram 89% (A) e 85% (B) da informao na adaptao e 77% (A) e 94% (B) no retorno. Na avaliao realizada no retorno o grupo B reconheceu significativa maior quantidade de informao que o grupo A. As autoras puderam concluir que programas de orientao a pais de crianas deficientes auditivas que permitam o acesso conveniente s orientaes fornecidas so necessrios para auxili-los na reteno da informao e, consequentemente, assegurar o uso efetivo do AASI (31).


COMENTRIOS FINAIS

O uso da internet como fonte de informao de sade vem se tornando cada vez mais popular. Os profissionais da sade, incluindo os fonoaudilogos, devem verificar se seus pacientes utilizam tal recurso, reconhecer esta mudana de comportamento e preparar-se no s para discutir tais informaes com o paciente, mas tambm sugerir websites com informaes confiveis e auxili-los a avaliar a qualidade das informaes disponveis online.

Tambm de importncia que fonoaudilogos participem mais ativamente no desenvolvimento de websites que auxiliem o processo de educao do paciente tendo como base para a criao de contedos as necessidades e perspectivas dos usurios, os princpios de qualidade bem como as possibilidades de interao oferecidas pela internet 2.0 ou web 2.0. Este termo identifica a mudana para uma Internet como plataforma, onde os aplicativos aproveitam os efeitos de rede para se tornarem melhores quanto mais so usados pelas pessoas, aproveitando a "inteligncia coletiva". O usurio ativo, ou seja, no s usufrui, mas contribui. O exemplo clssico da web 2.0 o Wikipedia onde cada usurio tem a possibilidade de ler e adicionar informaes livremente.

Os indivduos que buscam informaes de sade na internet podem utilizar estas mesmas ferramentas da web 2.0 para compartilhar no s informaes, mas, sobretudo, seus sentimentos e experincias do "estar doente", para, desta forma, darem significado ao momento conturbado que vivenciam; para compartilhar suas experincias, suas angstias e seus sofrimentos do adoecer com outras pessoas, e para construrem conhecimentos sobre seus problemas de sade, permitindo se sentirem mais seguros e confiantes durante o tratamento ao qual so submetidos (32).

Finalmente deve ser lembrada que a educao ao paciente baseada na internet ainda um campo bastante novo de pesquisa para a Fonoaudiologia, devendo a mesma ser utilizada como forma de complementao e no de substituio da educao fornecida de forma presencial. imprescindvel a realizao de estudos randomizados e controlados a fim de avaliar a efetividade e eficcia dos processos de educao ao paciente via internet.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. Hoving C, Visser A, Mullen PD, Van Den Borne B. A history of patient education by health professionals in Europe and North America: From authority to shared decision making education. Patient Educ Couns. 2010; 78: 275-81.

2. World Health Organization. Therapeutic patient education of patients with coronary heart disease: training guide for general practioners. Udine (Italy): WHO, 2006.

3. Reed K. Therapeutic Patient Education. Disponvel em: http://www.diabetesinfo.org.nz/library/pe_therapeutic.pdf. Acesso em: 14 Jun. 2010.

4. Sopeczik DL. Technology in education. In: Bastable SB. Essentials of patient education. Sudbury: Jones and Bartlett, 2006. Cap. 13, p. 502p.

5. Margolis RH. Page 10: What do your patients remember? Hear J. 2004, 7:10-7.

6. Conselho Federal de Fonoaudiologia. Exerccio do profissional fonoaudilogo. 2002. Disponvel em: http://www.fonoaudiologia.org.br/publicacoes/epdo1.pdf. Acesso em: 01 Fev. 2011.

7. Visser A, Deccache A, Bensing J. Patient education in Europe: united differences. Patient Educ Couns. 2001, 44: 1-5.

8. World Health Organization. The therapeutic patient education: continuing education programmes for health care providers in the field of prevention of chronic diseases. Copenhagen (Denmark): WHO, 1998.

9. Falvo D. Effective patient education: a guide to increased compliance. 3. ed. Sudbury: Jones and Barlett Publishers; 2004.

10. Strmberg A. The crucial role of patient education in heart failure. Eur J Heart Fail. 2005; 7(3): 363-9. Disponvel em: . Acessado em: 13 out. 2008.

11. Rankin SH, Stallings KD. Patient Education: Principles and Practice. 4a ed. Philadelphia: Lippincott, Williams, & Wilkins; 2001.

12. Internet World Stats. Usage and population statistics. 2009. Disponvel em: . Acesso em: 10 apr. 2010.

13. Centro de Estudos de Sobre Tecnologias da Informao e da Comunicao (CETIC). Pesquisa sobre o uso das tecnologias da informao e comunicao no Brasil: TIC domiclios e usurios 2009. Disponvel em: http://www.cetic.br/usuarios/tic/2009-total-brasil/rel-int-02.htm. Acesso em: 27 de janeiro de 2011.

14. Abramson R. Personal physician: an expert system designed for patients. MD Comput. 1995, 12:11-3.

15. kesson KM, Saveman BI, Nilsson G. Health care consumers experiences of information communication technology - a summary of literature. Int J Med Inform. 2007, 76:633-45.

16. Silva WM. Navegar preciso: avaliao de impactos do uso da internet na relao mdico-paciente. So Paulo, 2006, p.146 (Dissertao de Mestrado - Faculdade de Sade Pblica da Universidade de So Paulo).

17. O'Grady L. Future directions for depicting credibility in health care web sites. Int J Med Inform. 2006, 75:58-65.

18. Eysenbach G, Khler C. How do consumers search for and appraise health information on the world wide web? Qualitative study using focus groups, usability tests, and in-depth interviews. BMJ. 2002, 324:573-7.

19. Health on the Net Foundation. Disponvel em: Acesso em: 24 Oct. 2008.

20. National Centre for Complementary and Alternative Medicine (NCCAM). 10 Things to Know About Evaluating Medical Resources on the Web. 2006. Disponvel em: Acesso em: 21 Oct. 2008.

21. Emory University Rollins School of Public Health. Health-Related Web Site Evaluation Form. 1998. Disponvel em: http://www.sph.emory.edu/WELLNESS/instrument.html. Acesso em: 10 abr. 2009.

22. Anderson NA, Groove S, Hill S. Web Site Evaluation Checklist 1999, 1998. University of Michigan.

23. Barbosa AL, Martins EN. Avaliao da informao dos pacientes sobre miopsias e fotopsias atravs da Internet. Arq Bras Oftalmol. 2007, 70:839-43.

24. Souza PJS, Bastos BG, Ferrari DV. Instrumentos para avaliao de websites de sade: estudo preliminar. Trabalho apresentado na XVI Jornada Fonoaudiolgica de Bauru, Bauru, Ago. 2009.

25. Valle C, Ximenes AA, Campos GHB, Rocha AR, Rabelo A. Educao de Pacientes atravs de Sistemas de Acesso Pblico. RBIE. 1997, 1.

26. Kreps GL, Neuhauser L. New directions in eHealth communication: Opportunities and challenges. Patient Educ Couns. 2010, 78:329-36.

27. Eng TR, Gustafson DH, Henderson J, Jimison H, Patrick K. Introduction to evaluation of interactive health communication applications. Am J Prev Med. 1999, 16:10-5.

28. Kuppersmith RB. The physician-patient relationship and the internet. Otolaryngol Clin North Am. 2002, 35:1143-7.

29. Mcmullan M. Patients using the Internet to obtain health information: how this affects the patient-health professional relationship. Patient Educ Couns. 2006, 63:24-8.

30. Kaldo-Sandstrm V, Larsen HC, Andersson G. Internet-based cognitive-behavioral self-help treatment of tinnitus: clinical effectiveness and predictors of outcome. Am J Audiol. 2004, 13:185-92.

31. Ferrari DV, Tom T, Bastos BG. Internet based hearing aid orientation. Trabalho apresentado no British Academy of Audiology Convention, Liverpool, 2008.

32. Maia F, Struchiner M. The use of weblogs and orkut communities as pedagogical tools in courses in the health area. Interface Comum Sade Educ. 2010, 14:905-18.









1) Fonoaudiloga graduada pela Faculdade de Odontologia de Bauru - Universidade de So Paulo (FOB/USP). Mestranda em Fonoaudiologia - FOB/USP.
2) Doutora em Neurocincias e Comportamento - Instituto de Psicologia da Universidade de So Paulo. Professora Doutora do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia de Bauru - Universidade de So Paulo.

Instituio: Departamento de Fonoaudiologia - Faculdade de Odontologia de Bauru - Universidade de So Paulo (FOB/USP). Bauru / SP - Brasil. Endereo para correspondncia: Deborah Viviane Ferrari - Departamento de Fonoaudiologia - FOB/USP - Alameda Octavio Pinheiro Brisola, 9-75 - Vila Universitria - Bauru / SP - Brasil - CEP: 17012-901 - Telefone: (+55 14) 3235-8232 - E-mail: deborahferrari@usp.br

Fonte de auxlio pesquisa: Fundao de Amparo Pesquisa do Estado de So Paulo - Fapesp. Processo: 2008/07963-0.

Artigo recebido em 1 de Fevereiro de 2011. Artigo aprovado em 21 de Maio de 2011.
  Print:

 

All right reserved. Prohibited the reproduction of papers
without previous authorization of FORL © 1997- 2023