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Ano: 2012  Vol. 16   Num. 1  - Jan/Mar
DOI: 10.7162/S1809-48722012000100019
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Case Report
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Abscesso de lngua: Relato de caso
Tongue Abscess: Case Report
Author(s):
Thiago Bittencourt Ottoni de Carvalho1, Atlio Maximino Fernandes2, Raphael Angelo Sanches3.
Palavras-chave:
abscesso, doenas da lngua, lngua, implante dentrio.
Resumo:

Introduo: Os abscessos na lngua so raros mesmo estando frequentemente em contato com traumas, mordeduras, e corpos estranhos. Isto decorre devido s caractersticas imunolgicas da saliva e algumas caractersticas histolgicas e anatmicas da lngua. Este trabalho tem como objetivo relatar um caso de abscesso de lngua ocorrido em nosso servio, e fazer uma reviso da literatura. Relato do Caso: Paciente 76 anos, sexo masculino, atendido com queixa de dor a deglutio de evoluo progressiva h uma semana, com piora importante h 3 dias. Relata histria de cirurgia para implante dentrio no incio do perodo. Na admisso durante o exame da cavidade oral foi evidenciado abaulamento de aproximadamente 2X2 cm no tero mdio posterior de lngua direita, doloroso a palpao. Optou-se pela internao do paciente. Solicitou-se uma ressonncia nuclear magntica que evidenciou leso sugestiva de abscesso na base da lngua direita. Foi submetido a tratamento clnico com antibioticoterapia drenagem cirrgica. O paciente evoluiu satisfatoriamente. Discusso: A manifestao clnica do abscesso de lngua pode ser variada. O diagnstico deve ser feito pela histria clnica, correlacionando os fatores de risco associados, exame fsico e aos exames de imagem confirmatrios. A etiologia e os diagnsticos diferenciais devem ser considerados dependendo do local da manifestao clnica. A abordagem deve incluir a permeabilidade da via area, suporte clnico, antibioticoterapia sistmica e drenagem do abscesso. Consideraes Finais: O abscesso de lngua deve entrar no diagnstico diferencial dos abaulamentos de lngua devendo ser conduzido com antibioticoterapia e drenagem cirrgica de maneira rotineira.

INTRODUO

Apesar da lngua estar em contato frequente com trauma, mordidas e corpos estranhos, raro a ocorrncia de abscessos na lngua (1). Isto decorre devido ao fato dela apresentar epitlio escamoso queratinizado, uma musculatura ricamente vascularizada, rica drenagem linftica e contato direto com a saliva que apresenta funes imunolgicas de proteo, lubrificao e limpeza constantes (2). BERNARDINI relatou em uma reviso de literatura realizada entre 1816 e 1945 um total de 186 casos (3). SANDS encontrou 28 casos relatados na lngua inglesa de 1967 a 1993, sendo que apenas 12 foram fora da ndia (4). Foram encontrados 33 relatos de caso de 1993 a 2008 na lngua inglesa (1,2,4-13). Epidemiologicamente est mais associado ao gnero masculino, ao tabagismo, ao uso de prteses dentrias e a higiene oral precria (4). A etiologia deve ser considerada dependendo do local da manifestao clnica. Abscesso dos dois teros anteriores da lngua so resultados de mordidas, traumas locais e corpos estranhos. O tero posterior pode estar relacionado s tonsilas linguais, a resqucios do ducto tireoglosso e a patologias do primeiro e segundo molares (4,10). Fratura de mandbula, picadas de insetos e resseco da mucosa do septo nasal devem ser pesquisados (1). A literatura recente mostra associao entre piercing e abscesso de lngua (9). Este trabalho tem como objetivo relatar um caso de abscesso de lngua ocorrido em nosso servio, e fazer uma reviso da literatura.


RELATO DE CASO

Paciente AEF 76 anos foi atendido com queixa de dor a deglutio de evoluo progressiva h uma semana, com piora importante h 3 dias, associado reduo da ingesta alimentar devido dor. Relata histria de cirurgia para implante dentrio no incio do perodo. Apresenta histria de revascularizao miocrdica h 19 anos fazendo uso regular de antiagregante plaquetrio, associado hipertenso arterial sistmica e insuficincia renal crnica clinicamente controlados. Negava tabagismo e etilismo. No momento da admisso o paciente encontrava-se prostrado, desidratado ++/4+, eupneico e afebril. O exame da cavidade oral evidenciava abaulamento de aproximadamente 2x2 cm no tero mdio posterior de lngua direita, doloroso a palpao, sem limitao da abertura bucal. No eram evidenciadas leses vegetantes ou ulceradas. A nasofibroscopia mostrava moderado abaulamento em base de lngua direita, discreta hiperemia de epiglote, pregas vocais mveis bilateralmente, bom gap areo, ausncia de leses larngeas. Hemograma com 18.400 leuccitos s custas de segmentados (71%). Optou-se pela internao do paciente. Solicitou-se uma ressonncia nuclear magntica (RM) que evidenciou leso de configurao irregular, multiloculada, medindo 4 X 3 cm nos seus maiores dimetros na base da lngua direita, caracterizada por hiperintensidade de sinal nas sequncias ponderadas em T2 e hipointensidade de sinal nas sequncias ponderadas em T1. A leso apresentava realce perifrico aps injeo do meio de contraste paramagntico e estava associada a desvio para esquerda do septo interlingual. Diante da histria clnica, do quadro clnico e da ressonncia magntica, iniciou-se o suporte clnico do paciente e antibioticoterapia endovenosa com clindamicina e ceftrioxona. A explorao cirrgica da leso foi realizada no quinto dia de internao devido o paciente estar em uso de AAS. Foi evidenciada secreo espessa no ato cirrgico, sendo colhido material para anatomopatolgico e cultura. O paciente evoluiu satisfatoriamente com melhora importante da dor e do estado geral recebendo alta no stimo dia de internao. O anatomopatolgico do material colhido mostrou processo inflamatrio crnico inespecfico em meio a leve fibrose e tecido muscular esqueltico, sem sinais de malignidade. A cultura do material foi negativa.


DISCUSSO

A manifestao clnica do abscesso de lngua pode ser variada. Dor, febre, abaulamento, odinofagia, disfagia e otalgia podem estar presentes (8).

O diagnstico deve ser feito pela histria clnica, correlacionando os fatores de risco associados como tabagismo, higiene oral precria, uso de prteses dentrias e sexo, exame fsico da cavidade oral e frequentemente exames de imagem confirmatrios. A ultrassonografia define e diferencia estruturas csticas, vascularizadas e abscessos porm na lngua tem-se uma dificuldade para utilizao do transdutor. A tomografia computadorizada permite definio e relao anatmica da leso principalmente do tero posterior da lngua. A ressonncia magntica possibilita melhor visualizao de partes moles e evita artefatos da mandbula e amlgamas dentrios sendo este o exame escolhido no caso (6,14). O tempo de evoluo do caso apresentado, a histria pregressa de implante dentrio, manifestaes clnicas do paciente e achados na ressonncia magntica, nos direciona para suspeita diagnstica de abscesso de lngua, entretanto de extrema importncia considerarmos diagnsticos diferenciais dependendo da localizao da leso (4).

O diagnstico diferencial das leses anteriores da lngua inclui falso aneurisma artria lingual, tuberculose, sfilis, neoplasias e actinomicose (2,7,15). As leses do tero posterior devem incluir cisto tireoglosso e abscesso de tonsilas linguais (2). Infartos, edema, macroglossia decorrente de hipopituitarismo, alteraes metablicas como deficincia de vitamina B12, hipotireoidismo, amiloidose, acromegalia, deficincia de ferro, tambm devem ser considerados como diagnsticos diferenciais (8).

A abordagem deve incluir a permeabilidade da via area, suporte clnico, antibioticoterapia sistmica e drenagem do abscesso (4,12).

A antibioticoterapia utilizada no nosso caso, clindamicina e ceftriaxona, apresentavam cobertura adequada para os microorganismos mais comumente responsveis pelo abscesso de lngua segundo a literatura. Eles compem uma flora mista e esto presentes frequentemente na via area superior e na flora da cavidade oral. Os mais comuns so o Streptococus Viridans, Haemophilus influenzae, Staphylococus aureus, Bacterioides e Neisseria,entre outros (1,2,4,5,6)

A opo pela drenagem cirrgica, que deveria ter sido imediata, foi realizada aps o quinto dia de internao devido o paciente estar em uso de antiagregante plaquetrio e ter respondido satisfatoriamente no incio do tratamento clnico, o que nos possibilitou evitar o risco de sangramento. Poderia ter sido optado pela drenagem por puno guiada por ultrassonografia, sendo este um procedimento menos invasivo, com menos risco de sangramento tambm eficaz na drenagem do abscesso (1), porm no tnhamos condies tcnicas para sua realizao.

O abscesso quando localizado no tero posterior da lngua, requer drenagem cirrgica sob anestesia geral, pois pode evoluir com edema local e obstruo de via area, aumentando ainda mais o risco do procedimento (1).

O bom prognstico e a no recorrncia do abscesso em casos onde so realizadas drenagens do abscesso (cirrgica ou por puno) decorrente dos fatores de proteo apresentados pela lngua como a ao bactericida da saliva, sua rica vascularizao e musculatura que ao contrair-se, limita a inflamao e a cavidade formada pelo abscesso (1). Apesar da gravidade do abscesso, no h relatos na literatura de casos fatais aps o uso amplo de antibiticos (4).



Figura 1. Corte axial T1 SPIR com contraste.




Figura 2. Corte Axial T2.




Figura 3. Corte Coronal T1 com contraste.




Figura 4. Corte Axial T1 sem contraste.




CONSIDERAES FINAIS

O abscesso de lngua uma doena rara entretanto deve ser considerada como diagnstico diferencial dos abaulamentos de lngua. Os exames de imagem auxiliam no diagnstico. A antibioticoterapia sistmica associada drenagem o tratamento de escolha para os abscessos de lngua e devem ser realizados de maneira rotineira.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

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1) Mdico Residente em Otorrinolaringologia.
2) Doutorado pela Faculdade de Medicina da USP Ribeiro Preto. Docente do Departamento de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo da Faculdade de Medicina de So Jos do Rio Preto - FAMERP.
3) Mdico Radiologista. Prof. Auxiliar de Ensino do Departamento de Imagem do Hospital de Base de So Jos do Rio Preto.

Instituio: Departamento de Otorrinolaringologia e Cirurgia de Cabea e Pescoo da Faculdade de Medicina de So Jos do Rio Preto - SP - FAMERP. So Jos do Rio Preto / SP - Brasil. Endereo para correspondncia: Thiago Bittencourt Ottoni de Carvalho - Rua Jos Picerni 449, Apto 21 - Jardim Panorama - So Jos do Rio Preto / SP - Brasil - CEP: 15091-200 - Tel.: (+55 61) 7814-7648; (+55 17) 8141-5584 - E-mail: drthiago.ottoni@yahoo.com.br

Artigo recebido em 29 de Novembro de 2009. Artigo aprovado em 27 de Janeiro de 2010.
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