Title
Search
All Issues
4
Ano: 2012  Vol. 16   Num. 2  - Abr/Jun
DOI: 10.7162/S1809-48722012000200004
Print:
Original Article
Versão em PDF PDF em Português Versão em PDF PDF em Ingls TextoTexto em Ingls
Avaliao do benefcio do uso de aparelhos de amplificao sonora individual em crianas
Evaluation of the benefit of amplification in children fitted with hearing aids
Author(s):
Luciana Regina de Lima Carvalho 1, Ida Lichtig 2, Maria Ins Vieira Couto 3.
Palavras-chave:
surdez, criana, avaliao.
Resumo:

Introduo: No Brasil, so raros estudos com crianas surdas usurias de aparelho auditivo acima de sete anos. Objetivo: Investigar o benefcio fornecido pela amplificao em crianas surdas de sete a 11 anos usurias de aparelho auditivo, sob a perspectiva da prpria criana e dos adultos com quem ela mais convive, e verificar se o tempo de convvio dos adultos com a criana interfere em suas respostas. Mtodo: Trata-se de um estudo clnico e experimental. Participaram do estudo 48 sujeitos, divididos em 4 grupos distintos: G1- 12 crianas surdas; G2- 12 adultos com convivncia mdia de 40 horas semanais com a criana surda; G3- 12 adultos com convivncia mdia de 20 horas semanais com a criana surda; G4- 12 adultos com convivncia mdia de 10 horas semanais com a criana surda. Todas as crianas eram usurias de aparelho bilateralmente e apresentavam perda auditiva de grau severo ou profundo. Resultados: Os resultados indicam um prejuzo nas habilidades auditivas das crianas avaliadas devido s dificuldades enfrentadas por elas para escutar elementos presentes em situaes de seu cotidiano. No houve diferenas nos resultados entre os diferentes grupos conforme o tempo de convivncia com a criana. Concluso: Constatou-se clinicamente a viabilidade da avaliao do benefcio proporcionado pelo aparelho auditivo em crianas com base nas informaes da famlia. O aparelho de amplificao sonora individual exerceu influncia nas habilidades auditivas das crianas avaliadas, apesar do benefcio proporcionado pelo seu uso ser menor do que o esperado.

INTRODUO

O avano tecnolgico dos sistemas de amplificao, em especfico o aparelho de amplificao sonora individual (AASI), tem trazido a necessidade de avaliar o impacto resultante desses recursos nas habilidades auditivas de seus usurios bem como nos servios prestados pelos programas de reabilitao audiolgica (1, 2). Questionrios e escalas de avaliao das habilidades auditivas tm sido amplamente utilizados com este objetivo, por serem de fcil aplicao e permitirem a realizao de estudos longitudinais com o uso do mesmo instrumento em diferentes etapas do processo teraputico (3).

Dentre os mtodos que consideram a perspectiva do usurio na avaliao dos benefcios da amplificao, existem instrumentos de auto-avaliao, os quais so, em sua maioria, dirigidos populao adulta e idosa. Os questionrios de avaliao relacionados s dificuldades auditivas disponveis para crianas e adaptados para o portugus concentram-se na faixa etria de zero a sete anos de idade e so dirigidos a seus pais: The Meaningful Auditory Integration Scale - MAIS (4,1); The Infant-Toddler Meaningful Auditory Integration Scale - IT-MAIS (5, 6). Estudos relacionados a crianas acima desta faixa etria e que considerem a perspectiva da prpria criana ainda so escassos (7).

O desenvolvimento lingustico da criana surda segue os mesmos estgios que de uma criana ouvinte, seja na modalidade oral ou visual (lngua de sinais). No entanto, devido interferncia da privao sensorial auditiva na aquisio da lngua oral, as crianas surdas filhas de pais ouvintes - que no so expostas lngua de sinais desde o nascimento, como ocorre com as crianas surdas filhas de pais surdos - geralmente atingem a fase escolar sem possuir uma lngua sistematizada. Da surge a dificuldade em acessar tal populao por meio de questionrios (8, 9, 10, 11).

importante ressaltar que os beneficirios do aparelho auditivo no so apenas os seus usurios, mas tambm todos aqueles que sofrem limitaes em suas atividades e restries de participao em razo da existncia de uma pessoa surda envolvida na ao ou tarefa. Isto , os familiares e demais pessoas que convivem com um usurio de aparelho auditivo tambm so beneficirios deste produto e, como tais, buscam evidncias de que ele promover uma melhora nas habilidades auditivas como um todo (12, 13).

Em resposta a isso, o Instituto de Pesquisas Audiolgicas, desenvolveu o LSQ - Listening Situations Questionnaire (14). Mais tarde, APPLETON e BAMFORD (15) utilizaram este questionrio em uma pesquisa com 16 crianas surdas com perda auditiva pr-lingustica na faixa etria de sete a 11 anos, e seus respectivos pais. O estudo comparou o grau de dificuldade auditiva relatado pelas crianas e observado por seus pais. Na maioria dos casos, as crianas relataram menor dificuldade com relao s habilidades auditivas do que foi observado pelos adultos. Os autores discutiram se as diferenas nas respostas entre pais e crianas se devem ao fato dos pais superestimarem a dificuldade de seus filhos ou das crianas no conferirem tanta importncia dificuldade que sentem uma vez que no possuem uma experincia que sirva de parmetro para a comparao do grau de sua dificuldade. As situaes propostas no LSQ avaliam as habilidades auditivas da criana para detectar, discriminar, reconhecer e compreender a fala e alguns sinais sonoros de alerta ou de convvio social, considerando a distncia da fonte sonora (localizao) e a presena ou no de rudo (figura-fundo).

Considerando-se que a dificuldade auditiva gera restries de participao criana em diversas atividades de seu cotidiano e que o LSQ um instrumento que mede as habilidades auditivas, infere-se que o uso do aparelho auditivo poder promover mudanas nas habilidades auditivas da criana surda (2, 16).

Os objetivos do presente estudo foram: investigar o benefcio fornecido pela amplificao em crianas surdas de sete a 11 anos usurias de aparelho auditivo, sob a perspectiva da prpria criana e dos adultos com quem ela mais convive; e verificar se o tempo de convvio dos adultos com a criana interfere em suas respostas.


MTODO

Trata-se de um estudo clnico, observacional e transversal, aprovado em 24/08/2007 pela Comisso de tica para Anlise de Projetos de Pesquisa - CAPPesq da Diretoria Clnica do Hospital das Clnicas e da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo (protocolo n 0601/07).

Casustica

A pesquisa foi realizada com 12 famlias de crianas surdas na faixa etria de sete a 11 anos. Todas as crianas eram usurias de aparelho auditivo bilateralmente e apresentavam perda auditiva de grau severo a profundo. Todos os sujeitos eram usurios de aparelho auditivo h mais de trs anos e a mdia do tempo de uso do aparelho era de cinco anos (Tabela 1).

Os sujeitos cuja modalidade comunicativa preferencial era a lngua de sinais totalizavam sete crianas, todas com perdas auditivas de grau profundo. Entre os sujeitos cuja modalidade comunicativa preferencial era a lngua oral, de um total de cinco crianas, quatro (80%) apresentavam perdas auditivas de grau severo, e apenas uma criana (20%) apresentava perda de grau profundo.

Participaram do estudo 48 sujeitos, os quais foram divididos em quatro grupos distintos: C1- 12 crianas surdas; A1- 12 adultos com convivncia mdia de 40 horas semanais em relao criana surda; A2- 12 adultos com convivncia mdia de 20 horas semanais em relao criana surda; A3- 12 adultos com convivncia mdia de 10 horas semanais em relao criana surda.

A faixa etria dos adultos variou de 19 a 73 anos (mdia de 40 anos), dos quais 24 (66,7%) eram do sexo feminino e 12 (33,3%) do sexo masculino (Tabela 2).

Quanto ao grau de parentesco ou proximidade, 11 adultos do grupo A1 eram mes (91,7%), e apenas um sujeito (8,3%) era pai da criana surda. No grupo A2, 10 adultos eram pais (83,4%), um era amigo da famlia (8,3%) e uma era madrinha da criana (8,3%). No grupo A3, havia quatro avs (33,4%), dois amigos da famlia (16,8%), uma irm (8,3%), uma vizinha (8,3%), uma tia (8,3%), uma prima (8,3%), uma fonoaudiloga (8,3%) e uma professora (8,3%).

J quanto ao grau de escolaridade, 60% dos adultos eram de nvel fundamental (menos de nove anos de estudo), 20% de nvel mdio (nove a doze anos de estudo) e 20% de nvel superior (acima de doze anos de estudo).

Os critrios de incluso utilizados neste estudo foram:

-Crianas escolares com faixa etria entre sete anos a 11 anos e 11 meses; inseridas em programa de interveno bilngue; com perda auditiva neurossensorial de grau severo ou profundo; usurias de AASI h no mnimo um ano, a fim de garantir sua experincia de uso; pertencentes a famlias de ouvintes, pois no questionrio foram observadas situaes que costumam fazer parte da rotina de famlias ouvintes, como ouvir msica e falar ao telefone; tempo mnimo de uso dirio dos aparelhos de oito horas.

-Adultos com faixa etria acima de 18 anos de idade; ouvintes; tempo de convivncia com a criana igual ou superior a dez horas semanais. Na ausncia de familiares que satisfizessem os critrios exigidos para participao na pesquisa, foram convidados outros adultos que convivessem com a criana conforme os critrios estabelecidos.

Foram considerados como critrios de excluso:

-Crianas com comprometimentos associados - neurolgico (sndromes, deficincias ou qualquer outra condio que gerasse um atraso cognitivo, uma vez que isto prejudicaria a compreenso das perguntas), visual (cegueira, baixa viso ou viso subnormal, o que impediria a correta manipulao do AASI e dificultaria a identificao das figuras do questionrio), emocional (depresso/hiperatividade, para garantir a colaborao da criana);

-Crianas que no frequentassem escola (uma vez que um dos fatores analisados na pesquisa foi o benefcio proporcionado pelo AASI no ambiente escolar).

Material

Foi utilizado o Questionrio de Situaes de Escuta (LSQ) - verso para crianas (14) e verso para pais (17). Este questionrio foi traduzido e adaptado para o portugus brasileiro conforme as normas do Scientific Advisory Committee of Medical Outcomes Trust (18,19) e atualmente encontra-se em fase de validao. Compreende dez situaes relacionadas s dificuldades auditivas comuns maioria das crianas surdas, a saber: ouvir o que dito pelo professor em uma sala de aula barulhenta; ouvir as instrues de um adulto em ambientes externos; ouvir a campainha ou o toque do telefone quando est em outro cmodo da casa; ouvir o som de veculos se aproximando; conversar com vrias crianas em uma sala de aula; ouvir televiso com outras pessoas; ouvir televiso sozinho; ouvir msica; ouvir o que dito no telefone; ouvir o som da sirene de uma ambulncia. Para cada situao, so feitas trs perguntas: a) o quanto essa situao importante para a criana; b) qual a frequncia em que ela ocorre; c) quanta dificuldade a criana apresenta nessa situao (escore de dificuldade).

Para cada um dos trs itens do LSQ havia quatro possibilidades de resposta, as quais variavam de 1 a 4 pontos, de acordo com a importncia/frequncia/grau de dificuldade das dez situaes apresentadas. O escore total mximo para este questionrio era de 120 pontos, e o mnimo, 30 pontos. Quanto maior o escore, maior a dificuldade enfrentada pela criana e, consequentemente, menores suas habilidades auditivas (15).

O escore de dificuldade foi determinado pela soma das pontuaes obtidas nos itens C de cada questo. O escore mximo era de 40 pontos, e o mnimo dez. Nos casos em que a criana no usava o aparelho auditivo em determinada situao, perguntava-se se a criana no o usava por apresentar muita dificuldade nesta situao (4 pontos), ou por ela no ter nenhuma dificuldade (1 ponto).

Segundo APPLETON e BAMFORD (15), escores totais superiores a 100 pontos indicam a necessidade de reviso do aparelho e escores de dificuldade acima de 22 exigem a anlise das situaes em que a criana apresenta mais dificuldade, associada a uma reviso detalhada do funcionamento do aparelho. O escore de dificuldade est intimamente ligado ao benefcio oferecido pelo aparelho auditivo, sendo que escores elevados revelam a existncia de obstculos na execuo de atividades consideradas relevantes no cotidiano de uma criana.

Considera-se, portanto, que o benefcio fornecido pela amplificao est adequado quando h escore total abaixo de 100 pontos e escore de dificuldade inferior a 22 no LSQ (Tabela 3).

Aps a assinatura do termo de consentimento (Anexo 1), o questionrio foi administrado com a criana surda e, na sequncia, com trs adultos com os quais a criana convivia. Nos casos das crianas surdas cuja modalidade comunicativa preferencial era a lngua de sinais, a aplicao do questionrio foi feita em lngua brasileira de sinais (LIBRAS). Para tanto, a pesquisadora recebeu o treinamento de um professor surdo. Para as crianas que se encontravam nos estgios iniciais da lngua oral, utilizou-se as figuras do questionrio para facilitar sua compreenso, solicitando-se criana que apontasse a opo escolhida.

Optou-se por administrar o protocolo nas residncias dos sujeitos a fim de oferecer maior conforto s famlias e desinibir a criana, uma vez que estando fora do ambiente teraputico esta se comportaria de maneira mais natural, propiciando a observao da mesma em situaes do cotidiano e a dinmica familiar (20).


RESULTADOS

Habilidades auditivas na percepo das crianas

Houve grande variabilidade de respostas para o item A (quanto a situao importante para a criana). Isto talvez se explique devido ao carter mais pessoal desta questo, gerando maior divergncia entre as respostas dadas pelos sujeitos. No item B (qual a frequncia em que a situao ocorre), houve algumas divergncias entre as respostas devido a diferenas na rotina e dinmica familiar dos sujeitos analisados. J o item C (dificuldade apresentada pela criana na situao) teve pouca divergncia entre as respostas, o que se justifica pelo elevado grau de dificuldade auditiva referido por todos os sujeitos (Tabela 4).

Dois sujeitos (16,7%) apresentaram escores totais acima do esperado no LSQ. J quanto ao escore de dificuldade, 11 sujeitos (91,7%) obtiveram desempenho inadequado (Tabela 5).

Os sujeitos 3, 10 e 11 apresentaram os escores de dificuldade mais elevados. Apenas o sujeito 1 teve escore de dificuldade adequado.

Considerando-se que escores totais elevados no LSQ revelam uma reduo das habilidades auditivas, pode-se dizer que houve melhora das habilidades auditivas na maioria das crianas surdas analisadas, contudo ainda persiste um alto grau de dificuldade nas diferentes situaes de escuta apresentadas.

Habilidades auditivas na percepo dos adultos

Nos comparativos entre os membros quanto s respostas por questo, utilizou-se o teste ANOVA com medidas repetidas, e no houve diferenas estatisticamente significantes em nenhum dos comparativos (Tabela 6).

Tambm no houve diferenas estatisticamente significantes entre as respostas das crianas e dos adultos e entre os trs grupos de adultos (Tabela 7).


















DISCUSSO

A maioria dos sujeitos apresentou escores totais dentro do esperado no LSQ, no entanto somente uma criana surda obteve escore de dificuldade adequado. Isto talvez se deva ao fato do escore total englobar outros aspectos (importncia e frequncia das situaes), os quais podem ter mascarado as dificuldades enfrentadas pelas crianas.

As situaes relatadas pelas crianas como de maior dificuldade foram as compreendidas nos itens 8 (ouvir msica) e 9 (ouvir o que dito no telefone), ambas situaes que envolvem habilidades auditivas mais avanadas (compreenso de fala sem pista visual). As situaes de menor dificuldade foram ouvir a sirene de uma ambulncia e ouvir o toque do telefone em outro cmodo da casa (itens 10 e 3, respectivamente), devido elevada intensidade destes sinais sonoros.

A maioria dos sujeitos apresentou prejuzo em suas habilidades auditivas devido perda auditiva, mesmo fazendo uso de aparelho. Uma possvel explicao para tal fato a identificao tardia da surdez das crianas pertencentes ao estudo (11). Apenas um sujeito (sujeito 4) recebeu o diagnstico antes dos seis meses de vida, sendo diagnosticado ao nascer (me teve rubola na gestao). A idade mdia do diagnstico para os demais sujeitos foi de 25,3 meses, idade muito acima da recomendada pelo Comit Brasileiro Sobre Perdas Auditivas da Infncia (CBPAI). Segundo o comit, todas as crianas devem ser testadas ao nascimento ou no mximo at os trs meses de idade, e, em caso de deficincia auditiva confirmada, receber interveno educacional at os seis meses de vida (8).

Os trs sujeitos com os piores escores de dificuldade tinham perdas auditivas de grau profundo, desta forma, pode-se dizer que o grau da perda auditiva interferiu nas habilidades auditivas das crianas surdas avaliadas.

Todas as crianas com perda auditiva de grau severo preferiram utilizar a lngua oral de sinais. J entre as crianas com perda profunda, apenas uma (12,5%) preferiu utilizar a lngua oral. Tais dados sugerem que o grau de audibilidade com o uso do aparelho auditivo pode interferir tambm na escolha da modalidade lingustica.

interessante notar ainda que o nico sujeito com escore de dificuldade adequado no LSQ era tambm o nico a apresentar desempenho ligustico satisfatrio tanto na lngua oral quanto de sinais, apresentando perda auditiva de grau severo e fazendo uso de aparelho h um longo perodo.

As crianas do estudo foram capazes de responder ao LSQ de modo satisfatrio, uma vez que nenhum dos sujeitos apresentou dificuldade para responder s perguntas do questionrio. Trata-se, portanto, de um instrumento adequado para utilizao com crianas surdas brasileiras acima de sete anos, pois sua linguagem simples e o apoio visual proporcionado pelas figuras permitem a compreenso de seu contedo mesmo por crianas em estgios iniciais do desenvolvimento lingustico, independente de sua modalidade (oral ou lngua de sinais). Ressalta-se que o fonoaudilogo deve ter noes bsicas de LIBRAS para administrar o questionrio com crianas usurias de lngua de sinais (9,10).

Os resultados demonstraram a viabilidade da avaliao das habilidades auditivas em crianas surdas usurias de aparelho auditivo com base nas informaes da famlia, uma vez que a diferena entre os dados oferecidos pelos grupos que participaram desta pesquisa no foi estatisticamente significante, diferentemente dos resultados encontrados no estudo de APPLETON e BAMFORD (15).

Independente do tempo de convvio semanal com a criana, os adultos dos diferentes grupos tiveram vises semelhantes sobre o aproveitamento, as dificuldades e a frequncia de cada situao apresentada no questionrio. No entanto, interessante observar que, dentre os adultos que fizeram sugestes ou comentrios no LSQ, cinco pertenciam ao grupo A1, trs eram do grupo A2 e apenas um pertencia ao grupo A3. Isto leva concluso de que os adultos cuja convivncia com a criana maior, tendem a ter vises mais amplas de seu comportamento, estando mais atentos s suas reaes e preferncias, apesar dos resultados no terem sido estatisticamente significantes neste aspecto. interessante observar tambm que houve uma tendncia de os grupos C1 e A1 apresentarem respostas mais similares no LSQ, salientando que quanto maior o convvio com a criana, maior pode ser a equivalncia entre as respostas.

Pensando em formas de reduzir as dificuldades enfrentadas pelas crianas surdas usurias de aparelho auditivo, a fim de melhorar a qualidade de vida destas crianas e de suas famlias, um recurso disponvel a utilizao de sistemas de frequncia modulada (FM) em ambientes onde haja competio sonora (salas de aula, por exemplo), uso que, infelizmente, ainda pouco disseminado no Brasil devido ao elevado custo financeiro (2).

Estudos futuros tornam-se necessrios para validar a utilizao do LSQ tambm em crianas ouvintes, uma vez que o questionrio capaz de fornecer importantes informaes acerca do comportamento auditivo desta populao mediante situaes de competio sonora, podendo ser um instrumento de grande utilidade para a avaliao de crianas com problemas de processamento auditivo. Crianas usurias de implante coclear tambm podem se beneficiar de tal uso.












CONCLUSO

Os resultados fornecidos pelos grupos estudados indicam um prejuzo nas habilidades auditivas das crianas avaliadas devido s dificuldades enfrentadas por elas para escutar elementos presentes em situaes de seu cotidiano. Tal prejuzo, no entanto, sofre sensvel reduo com o uso do aparelho auditivo, uma vez que a maioria das crianas se beneficiou da amplificao fornecida pelo aparelho, obtendo escores totais adequados no LSQ.

O aparelho de amplificao sonora individual exerceu influncia nas habilidades auditivas das crianas avaliadas e dos adultos com os quais elas convivem, apesar do benefcio proporcionado pelo seu uso ser menor do que o esperado.

Constatou-se clinicamente a viabilidade da administrao do LSQ com crianas surdas acima de sete anos usurias de aparelho auditivo e com os adultos cuja convivncia com estas crianas seja superior a dez horas semanais, indicando a eficcia deste instrumento para avaliao de tal populao. Ressalta-se, no entanto, que o LSQ no deve ser o nico instrumento de avaliao das habilidades auditivas desta populao, e sim um complemento aos procedimentos estruturados.

So necessrios mais estudos para corroborar os dados encontrados nesta pesquisa e esclarecer as diferenas entre os dados disponveis na literatura internacional e os resultados obtidos no presente estudo.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. Casquitini EAT, Bevilacqua MC. Escala de Integrao Auditiva Significativa: Procedimento adaptado para a avaliao da percepo da fala. Rev Soc Bras Fonoaudiol. 2000, 4(6):51-60.

2. Moeller MP, Hoover B, Peterson B, Stelmachowicz P. Consistency of hearing aid use in infants with early-identified hearing loss. Am J Audiol. 2009, 18(1): 14-23.

3. Coninx F, Weichbold V, Tsiakpini L, Autrique E, Bescon G, Tamas L et al. Validation of the LittlEARS Auditory Questionnaire in children with normal hearing. Int J Pediatr Otorhi. 2009, 73:1761-1768.

4. Robbins AM, Renshaw JJ, Berry SW. Evaluating meaningful auditory integration in profoundly hearing impaired children. Am J Otol. 1991, 12(suppl):144-150.

5. Zimmerman-Phillips S, Osberger MJ, Robbins AM. Infant-Toddler: Meaningful Auditory Integration Scale (IT-MAIS). Sylmar, Advanced Bionics Corporation, 1997.

6. Casquitini EAT. Escala de integrao auditiva significativa: procedimento adaptado para a avaliao da percepo da fala. So Paulo, 1998 (Dissertao de Mestrado - Pontifcia Universidade Catlica).

7. Boscolo CC, Costa MPR, Domingos CMP, Perez FC. Rev Bras Ed Esp. 2006, 12(2):255-268.

8. Comit Brasileiro sobre Perdas Auditivas da Infncia (CBPAI). Recomendao 01/99 do Comit Brasileiro Sobre Perdas Auditivas da Infncia. Jornal do CFFa. 2000, 5: 3-7.

9. Schemberg S. Educao escolar e letramento de surdos: reflexes a partir da viso dos pais e professores. Curitiba, 2008 (Dissertao de Mestrado - Faculdade de Cincias Biolgicas da Sade da Universidade Tuiuti do Paran).

10. Guarinello AC, Berberian AP, Santana APO, Bortolozzi KB, Schemberg S, Figueiredo LC. Surdez e letramento: pesquisa com surdos universitrios de Curitiba e Florianpolis. Rev Bras Ed Esp. 2009, 15(1):99-120.

11. Korver AMH, Konings S, Dekker F, Beers M, Wever CC, Frijns JHM et al. Newborn Hearing Screening vs Later Hearing Screening and Developmental Outcomes in Children With Permanent Childhood Hearing Impairment. JAMA-J Am Med Assoc. 2010, 304(15):1701-1708.

12. Carvalho LS, Cavalheiro LG. Deteco precoce e interveno em crianas surdas congnitas inseridas em escolas especiais da cidade de Salvador / BA. Arq Int Otorrinolaringol. 2009, 13(2): 189-194.

13. Abrams HB, Chisolm TH, MCardle R. Health-related quality of life and hearing aids: A tutorial. Trends Amplif. 2005, 9(3):99-109.

14. Institute of Hearing Research. Listening Situations Questionnaire. University of Manchester 2000.

15. Appleton JA, Bamford J. Parental and child perception of hearing aid benefit. Deafness Educ Int. 2006, 8(1):3-10.

16. Nikolopoulos TP, Vlastarakos PV. Treating options for deaf children. Early Hum Dev. 2010, 86(11):669-674.

17. Institute of Hearing Research. Listening Situations Questionnaire (Parent version). University of Manchester 2004.

18. Scientific Advisory Committee of Medical Outcomes Trust. Assessing health status and quality of life instruments: attributes and review criteria. Qual Life Res. 200, 11:193-205.

19. Carvalho LRL. Qualidade de vida da criana surda de 7 a 11 anos: O papel do aparelho de amplificao sonora individual. So Paulo, 2010 (Dissertao de Mestrado - Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo).

20. Fitzpatrick E, Graham ID, Durieux-Smith A, Angus D, Coyle D. Parents' perspectives on the impact of the early diagnosis of childhood hearing loss. Int J Audiol. 2007, 46(2):97-106.









1) Mestre em Comunicao Humana. Fonoaudiloga.
2) Doutora em Cincias da Comunicao. Professora Doutora do Curso de Fonoaudiologia da Universidade de So Paulo.
3) Doutora em Cincias da Comunicao. Tcnica do Curso de Fonoaudiologia da Universidade de So Paulo.

Instituio: Universidade de So Paulo. So Paulo / SP. Endereo para correspondncia: Luciana Regina de Lima Carvalho - Rua Augusto Cesar do Nascimento Neto, 35 - Vila Gomes - So Paulo / SP - Brasil - CEP: 05589-060 - E-mail: lurelica@gmail.com

Artigo recebido em 19 de junho de 2011. Artigo aprovado em 12 de outubro de 2011.
  Print:

 

All right reserved. Prohibited the reproduction of papers
without previous authorization of FORL © 1997- 2024