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Ano: 2012  Vol. 16   Num. 2  - Abr/Jun
DOI: 10.7162/S1809-48722012000200015
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Audio e exposio ao tolueno - uma contribuio para o tema
Audition and exhibition to toluene - a contribution for the theme
Author(s):
Lvia Sanches Calvi Augusto1, Luiz Alexandre Kulay2, Eloisa Sartori Franco3.
Palavras-chave:
rudo ocupacional, tolueno, perda auditiva provocada por rudo, trabalhadores.
Resumo:

Introduo: Com os avanos tecnolgicos e as mudanas nos processos produtivos, os trabalhadores esto expostos a diferentes agentes fsicos e qumicos em seu ambiente laboral. O tolueno um solvente orgnico presente em colas, tintas, leos, dentre outros. Objetivo: Comparar os achados literrios que evidenciam que trabalhadores expostos simultaneamente a rudo e solventes tm maior probabilidade de desenvolverem uma perda auditiva de origem perifrica. Mtodo: Reviso de literatura a respeito da perda auditiva ocupacional em trabalhadores expostos a rudo e tolueno. Resultados: A exposio isolada ao tolueno tambm pode desencadear uma alterao dos limiares auditivos. Estes achados audiomtricos, por ototoxicidade a exposio ao tolueno, apresentam audiogramas semelhantes ao por exposio ao rudo, o que torna dificultoso diferenciar um resultado audiomtrico de exposio combinada - rudo e tolueno - e exposio apenas ao rudo. Concluso: A maioria dos estudos foi projetado para gerar hipteses e deveria ser considerado como passos preliminares de uma pesquisa adicional. At hoje os agentes no ambiente de trabalho e seus efeitos tm sido estudados de maneira isolada e os limites de tolerncia destes, no consideram as exposies combinadas. Considerando que os trabalhadores esto expostos a mltiplos agentes e que a perda auditiva irreversvel, os testes implementados devem ser mais completos e todos os trabalhadores devem fazer parte do programa de preveno auditiva, mesmo expostos a baixas doses do limite de exposio recomendado.

INTRODUO

Com os avanos tecnolgicos e as mudanas nos processos produtivos, os trabalhadores esto expostos cotidianamente a diferentes agentes fsicos e qumicos em seu ambiente laboral, os quais - em um numero significante de situaes - acabam por ser reverter em risco sade. Esse quadro apresenta-se ainda mais insegura quando a prevalncia desses riscos volta-se a exposio combinada desses produtos ao rudo.

Nas ltimas dcadas, as perdas auditivas ocupacionais tm sido discutidas nas publicaes cientficas, constituindo um problema de sade importante em nossa sociedade. Entretanto, surgem estudos sobre outros agentes, alm da presena do rudo nos ambientes de trabalho de inmeros processos produtivos, que combinados, representam um risco potencial audio (1).

Dentre os principais compostos qumicos ototxicos, pode-se destacar os metais, os asfixiantes e os solventes, considerando este ltimo grupo, o mais presente nos meios industriais. O tolueno um solvente orgnico presente em colas, tintas, leos, dentre outros, e sua avaliao no ambiente laboral d-se atravs de seu bioindicador urinrio (exame de cido hiprico) (2).

Neste artigo, nos deteremos a apresentar estudos do efeito combinado entre rudo e tolueno, no intuito de ampliarmos os conhecimentos quanto ao efeito da exposio concomitante entre esse solvente e o rudo.


REVISO DA LITERATURA

A exposio humana ao tolueno ocorre a partir do uso ocupacional, no ambiente domstico, atravs da inalao com fins de abuso e da exposio ambiental. A maior fonte de exposio ambiental ao tolueno a produo e uso da gasolina. Grandes quantidades de tolueno so introduzidas no ambiente anualmente atravs do uso da gasolina e da produo e processos de refinamento de petrleo. Calcular os nveis de exposio humana provenientes do ar, do solo e da gua pode ser difcil (3).

Nas ltimas dcadas, as perdas auditivas ocupacionais tm sido discutidas ostensivamente no meio acadmico pelo fato, indiscutvel, de constiturem-se em um problema de sade importante na nossa sociedade moderna. No entanto, estudos mais recentes revelam que a presena de agentes qumicos, em associao ao rudo fazem potencializar a perda de audio no ambiente de trabalho (1).

Os efeitos adversos de solventes orgnicos na sade foram descritos em muitos estudos (4, 5, 6). A baixas ou moderadas concentraes em ar, os solventes orgnicos podem causar sintomas passageiros como euforia, dor de cabea, e vertigem (7, 8) enquanto que, em nveis mais elevados podem conduzir a anestesia, problemas cardiovasculares e doenas das vias respiratrias (6). A exposio de longo prazo pode ainda causar danos para o Sistema Nervoso Central como Dficits Cognitivos e Emocionais, o que prejudicaria uma boa prtica do trabalhador em seu ambiente ocupacional, mesmo que em tarefas simples (9).

O tolueno um hidrocarboneto aromtico, lquido e incolor, com odor caracterstico, derivado do alcatro da hulha e do petrleo, utilizado como solvente para tintas, na produo de explosivos, corantes, medicamentos e detergentes e como solvente industrial para borrachas e leos e ainda na produo de outros qumicos (10). largamente utilizado na indstria grfica. um dos componentes da cola de sapateiro e da gasolina. Esta ltima corresponde a principal fonte de emisso atmosfrica e exposio da populao em geral.

O Tolueno um solvente empregado de forma ampla em processos de transformao antropica, particularmente como solvente. Nesta condio, o referido produto qumico aromtico pode, dado o grau de volatilidade em condies padro de temperatura e presso - 25oC e 1atm - aportar maiores impactos ao ser humano, manifestados na forma de irritao da pele e da mucosa. Os efeitos agudos do tolueno so semelhantes aqueles decorrentes da intoxicao etanlica, propiciando um quadro de estimulao seguido de depresso do Sistema Nervoso Central (SNC). J em situao de exposio crnica os riscos so de hepatotoxicidade, nefrotoxicidade e perda auditiva (5, 11).

Os mecanismos de ao das substncias ototxicas causam prejuzos funcionais ou danos celulares na orelha interna, principalmente nas estruturas finais da audio e equilbrio, agindo primeiramente ao nvel do tronco cerebral ou nas vias auditivas centrais (12).

Quando se trata da perda auditiva propriamente dita, as caractersticas da curva audiomtrica de um paciente acometido de exposio exclusiva a rudo ou de outro, com diagnstico confirmado de ototoxicidade so bastante semelhantes. Isso porque ambos os quadros so de origem neurosensorial, denotam leses cocleares, tendem a ser irreversveis, acometem inicialmente altas frequncias (sons agudos) e quase sempre so bilaterais (2).

O efeito ototxico dos agentes qumicos - e dentre estes, dos solventes orgnicos - tem se configurado em tema de investigao de grande nmero de pesquisadores.

A NIOSH identificou a emergente necessidade de estabelecer limites seguros para exposio combinada de substncias qumicas e rudo (13). Consta da Diretiva Europeia 2003/10/EC que estabelece exigncias de segurana mnima na sade de trabalhadores expostos a riscos, que o empregador dever dar ateno particular para trabalhadores expostos simultaneamente a agentes qumicos e rudo, ao levar em conta a avaliao de risco (14).

A ponte mais significativa da literatura disponvel sobre os efeitos do Tolueno no Sistema Auditivo advm essencialmente de duas origens: casos em que os pacientes inalaram voluntariamente o solvente (15) e de experimentos laboratoriais conduzidos com animais. Estes estudos evidenciam que a exposio a altas concentraes de Tolueno, pela diferentes vias de administrao (oral, inalao ou subcutnea) acentuam a perda auditiva. De maneira complementar a essa tese, nos estudos realizados em animais, foi possvel notar grande sinergismo entre este solvente e a exposio ao rudo.

Tal concluso corroborada por evidncias experimentais com animais, em que a inalao a altos nveis de tolueno prejudica o sistema auditivo e causam perda dos limiares audveis.


DISCUSSO

Com o crescimento da produtividade e o avano da tecnologia, os riscos de acidentes e doenas de origem ocupacional aumentaram e deram origem a vrios efeitos nocivos qualidade de vida, segurana individual e coletiva do trabalhador.

Em um estudo com 151 trabalhadores do setor de rotogravuras de uma indstria grfica de So Paulo, expostos simultaneamente a rudo (85-94dB) e tolueno (78-390 ppm), investigou-se o efeito combinado da exposio simultnea a ambos os agentes sobre a audio e o equilbrio (16).

Neste estudo, usando-se de testes de audio e equilbrio, os trabalhadores foram divididos em trs grupos: expostos a rudo e tolueno, expostos s a rudo e sem nenhuma exposio. Nos resultados encontrados, a porcentagem da perda auditiva observada no grupo exposto aos dois agentes foi significativamente maior do que nos outros dois grupos.

Alm disso, as medidas do reflexo do msculo estapdio sugeriram que as perdas auditivas encontradas neste grupo eram significativamente diferentes das do grupo exposto a rudo, sobretudo no que se refere a provvel localizao da leso. Mais uma vez aqui, a porcentagem de falhas na triagem de equilbrio foi significativamente maior no grupo de trabalhadores expostos a ambos os agentes.

Ainda na mesma linha de pesquisa, outro estudo conduziu uma investigao com solventes orgnicos e rudo, observando seus efeitos ocupacionais. Os indivduos pesquisados eram todos trabalhadores de indstria de rotogravura, do sexo masculino, com mais de um ano de empresa (17).

Como mecanismo de coleta de dados foram utilizados o exame audiomtrico e imitanciometria, alm de questionrio (idade, tempo de trabalho, tempo de exposio a rudo e produtos qumicos, diabetes, hipertenso, infeco de ouvido, uso de medicamentos ototxicos, atividades de lazer com rudo, servio militar).

Os trabalhadores foram divididos em quatro grupos: 50 trabalhadores sem qualquer tipo de exposio, 50 trabalhadores com exposio s a rudo (88-97dB), 51 trabalhadores expostos a rudo (88-98 dB) e tolueno (100 ppm) e 39 trabalhadores expostos a mistura de diferentes solventes (o maior componente dessas misturas era o tolueno).

Os resultados mostraram prevalncia de maior perda auditiva no grupo com exposio simultnea a rudo e tolueno (53% no grupo com exposio a rudo e tolueno, 8% no grupo sem exposio, 26% no grupo com exposio somente a rudo e 18% no grupo com exposio a mistura de diferentes solventes). Nos resultados dos exames de Imitanciometria, encontrou-se presena de recrutamento, principalmente nos grupos de trabalhadores expostos a rudo e a rudo e tolueno.

No ano de 1993, um outro estudo investigou trabalhadores expostos a uma concentrao mdia de 97ppm de solventes, que apresentaram latncias absolutas e interpicos maiores nas ondas nos intervalos I-III-V no PEATE em relao aos no expostos. Com estes dados, sugeriu-se que as alteraes ocasionadas pelo tolueno possam se localizar na regio do tronco enceflico e vias auditivas centrais. Todos os indivduos deste estudo tinham audiometria normais e ausncia de sintomas relacionados a exposio a solventes (18).

Em um outro estudo com solventes e rudo dentro dos limites exigidos, em uma empresa produtora de embalagens com aproximadamente 800 funcionrios, os resultados apresentados no mostraram potencializao de efeitos. Ocorrncia de perdas auditivas em trabalhadores expostos apenas a solventes chamaram a ateno sobretudo e trabalhadores jovens e com menos tempo de exposio. Nesta pesquisa utilizou-se dos exames de audiometria e imitanciometria, e os colaboradores foram separados e trs grupos: exposio somente ao rudo, exposio somente aos solventes e exposio combinada (19).

Em experimentos com animais, usou-se diversos pares de solventes e a incidncia das interaes de ototxicos no aditivos. Foram utilizados ratos machos da raa Long Evans em locais onde doses de solventes (10% de concentrao) eram administrados por 5 dias das 8:30 as 16:30 horas de Segunda a Sexta-feira. Os efeitos eram comparados de 2 a 13 dias aps a exposio e a funo auditiva era obtida na semana seguinte da exposio usando BERA (resposta de potencial evocado no crebro). Os solventes utilizados foram tricloroetileno (TCE), tolueno (TOL), xilenos mistos (XYL) e clorobenzenos (CBZ) e a combinao foi TOL+TCE, XYL+TCE, XYL+CBZ, CBZ+TOL (20).

Por resultados estes autores obtiveram evidncias de que a combinao de modo dose-aditivo dos solventes ototxicos nos efeitos da audio dos ratos. No estudo com CBZ+TOL os efeitos desenvolveram ao longo da semana e no imediatamente. O limiar do grupo exposto foi de 10dB maior do que no grupo de controle.

Segundo os autores, mesmo com os resultados obtidos, no se pode concluir que os solventes sempre se combinaro aditivamente em seus efeitos na audio, pois obtm-se sinergismo quando o efeito txico das exposies combinadas maior do que a soma dos efeitos observados.

Em um estudo com ratos com longa exposio ao tolueno por inalao apresentaram achados sugestivos de leses no sistema vestibular central sem evidncias de leses na funo vestibular perifrica (21).

Com o objetivo de estudar o efeito do tolueno na estrutura e funo do Sistema Auditivo, aplico-se testes de potencial evocado (BERA - avaliao da cclea) em ratos adultos do sexo masculino, de peso mdio varivel entre 450-500g, e criados em laboratrio. O experimento teve inicio quando a prole atingiu o limite de 200 dias de vida, durando por um intervalo varivel compreendido entre 3 e 4 meses. Completado o sexto ms de idade os animais foram confinados em caixas individuais, condio de isolamento na qual foram mantidos pelos 30 dias que precederam o inicio do processo experimental (22).

Aps serem sedados receberem eletrodos capazes de medir seus potenciais evocados os ratos foram submetidos a dosagens variveis de vapores de tolueno com concentraes, respectivamente de 1000, 1250, 1500, 1750 e 2000 ppm, por um perodo regular de 6 hs dirias, durante cinco dias da semana, ao longo de 4 meses.

Os resultados obtidos indicaram que apenas trs das dosagens de tolueno a que foram submetidos os animais - de 1500ppm, de 1750ppm e de 2000ppm - produziram alterao confirmada de limiar auditivo. A exposio ao tolueno resultou em dficit auditivo significativo na amplitude da mdia frequncia (8-24KHz) dos ratos adultos. O resultado obtido mostrou uma alterao coclear, pela inalao do tolueno e o principal achado foi o trauma coclear localizado no meio do rgo de Corti (16-20 KHz) e do meio para o pice (4-5 KHz).

Outros autores pesquisaram os efeitos da exposio simultnea do tolueno (2000 ppm) e do rudo (92 dB) em ratos. Estes animais foram expostos ao tolueno durante 6h/dia, 5 dias da semana, pelo perodo de um ms. Os resultados mostraram a induo de perda auditiva, clulas ciliadas externas prejudicadas e estereoclia danificada, com maior predominncia nos ratos expostos simultaneamente ao rudo e ao tolueno. O dano coclear induzido pelo tolueno ou por rudo foi causado por dois mecanismos diferentes, envenenamento e mecnico (23).

Com todas as informaes e resultados cientficos existentes at ento, novas pesquisas mostraram novamente os efeitos ocupacionais da exposio de trabalhadores a solventes e rudo de uma indstria de rotogravuras, acrescentando o clculo da concentrao dessas misturas no ar e o exame de cido hiprico. Participaram do estudo 124 trabalhadores com exposio a mistura de solventes (principalmente tolueno, etanol e ethyl acetate) e diferentes nveis de rudo. Realizou-se um questionrio com todos os trabalhadores (histrico de trabalho, aspectos psicosociais, medicamentos, sade em geral, exposio a rudo e produtos qumicos), exame de audiometria e imitanciometria. Colheu-se tambm a urina destes funcionrios ps jornada de trabalho, para exame de cido hiprico (24).

Os resultados da audiometria apontaram 49% dos trabalhadores com perda auditiva bilateral e os resultados de imitanciometria sugeriram transtorno auditivo central ou retrococlear na maioria dos trabalhadores. Os resultados mostraram tambm alterao do exame de cido hiprico em 95% dos trabalhadores. Com isto, sugeriu-se piora da perda auditiva, quando o trabalhador est tambm exposto ao tolueno (a partir dos dados de cido hiprico) e 4 vezes mais chances de perda auditiva em trabalhadores com exposio a tolueno e rudo. A concentrao de tolueno no ar no apresentou relao significativa com a perda auditiva dos trabalhadores e com os resultados de cido hiprico.

Na avaliao de 64 ratos expostos a tolueno e etanol, dividiu-se os animais em 3 grupos com exposio e um grupo de controle. O primeiro grupo estava exposto a vapores de tolueno (1750 ppm, 6 horas por dia, 5 dias da semana por 4 meses). O segundo grupo ficou exposto ao etanol (4g/kg por 4 meses), o qual foi injetado via intubao gstrica e depois exposto em ar ambiente por 6 horas; e o terceiro grupo foi exposto simultaneamente ao tolueno e ao etanol (o etanol era injetado antes da exposio ao tolueno). Realizou-se exame de cido hiprico nos animais expostos ao tolueno. A urina foi coletada no 1 dia e depois a cada 4 dias. Nenhum alimento ou bebida foi dado aos animais durante a exposio (25).

Os resultados mostraram que a perda auditiva mais frequente na exposio a tolueno e etanol do que s a tolueno. O etanol puro modifica o metabolismo do tolueno. No se constatou perda auditiva na exposio isolada ao etanol.

Avaliou-se tambm a cclea de ratos expostos a tolueno, a partir do exame de Eletrococleografia. O estudo foi desenvolvido utilizando-se dois grupos cada qual com 8 ratos adultos. O primeiro grupo ficou exposto a vapores de tolueno (1750 ppm) durante 6h por dia, 5 dias da semana, por 4 meses e o segundo no tinha exposio (26).

Aps esse perodo de exposio, realizou-se o exame de Eletrococleografia e os resultados mostraram alterao de clulas auditivas localizadas na poro de frequncias mdias-baixas da cclea e no s em frequncias mdias. Assim as clulas perdidas da Cclea, concentravam-se na regio de frequncias mdias baixas e sugeriu-se relao de perda auditiva com a exposio ao tolueno.

Em um outro estudo com emisses otoacsticas evocadas transitrias (EOAET) e o efeito de supresso, observou-se um grupo exposto a rudo e tolueno, comparando com um grupo somente exposto ao rudo e a um outro sem exposio. Foram avaliados 140 colaboradores com idade entre 18-48 anos com resultados normais de audiometria e imitanciometria (27).

A prevalncia de ausncia de respostas nas EOAET em pelo menos uma das orelhas foi maior no grupo exposto a rudo e tolueno (64%) e no grupo exposto apenas a rudo (62%), que no grupo no exposto (27,5%).

A prevalncia de ausncia do efeito de supresso no grupo exposto a rudo e tolueno foi maior (48,9%) em relao aos expostos a rudo (17,4%) e no expostos (7.5%).

O risco de ausncia de supresso no grupo rudo e tolueno foi expressivamente maior quando comparado aos outros grupos. Os resultados sugerem a existncia de uma ao neurotxica do tolueno sobre a audio afetando particularmente a poro retrococlear da via auditiva e ocasionando um tipo de leso distinta daquela provocada pelo rudo.

Em pesquisa sobre o efeito do rudo e de mistura de solventes aferidas por meio de audiometria de altas frequncias, observou-se limiares piores na comparao dos limiares auditivos nas altas frequncias do grupo exposto simultaneamente a rudo e mistura de solventes. Esta diferena foi significante para as altas frequncias, enquanto que os resultados dos limiares testados em audiometria convencional no mostraram diferenas significativas (28).

Pesquisou-se tambm alteraes na Avaliao do Processamento Auditivo Central em um grupo de trabalhadores expostos a mistura de solventes. Participaram do estudo 10 trabalhadores expostos a mistura de solventes e 10 trabalhadores no expostos, com resultados de audiometria e imitanciometria dentro dos padres de normalidade (29).

Os achados do processamento auditivo central foram mais baixos no grupo exposto a mistura de solventes, sugerindo que, mesmo sem apresentar alterao no exame auditivo, trabalhadores expostos a mistura de solventes apresentam dificuldades com as questes cotidianas, o que foi comprovado com as alteraes auditivas centrais apresentadas no teste de processamento.

Na avaliao do risco de perda auditiva em trabalhadores de uma indstria de adesivos expostos a rudo e tolueno, dividiu-se os trabalhadores em 3 grupos: no primeiro grupo, 58 trabalhadores foram expostos a rudo (78.6-87.1dB) e tolueno (33,0 ppm, 107,6 ppm e 164,6 ppm); no segundo grupo, 58 trabalhadores expostos somente a rudo (67.9 - 72,6dB); e no terceiro grupo, 60 trabalhadores do setor administrativo, que no tinha qualquer tipo de exposio, servindo de grupo de controle (30).

Todos responderam a um questionrio com informaes de sade e estilo de vida e realizaram exame audiomtrico. Os testes foram realizados 14 horas depois do trmino da jornada. A porcentagem da perda auditiva foi calculada a partir do resultado da orelha pior. O grupo exposto a rudo e tolueno foi subdividido em outros grupos, levando em considerao o nvel do rudo. Aproximadamente 28% dos trabalhadores expostos a rudo e tolueno trabalhavam h mais e 20 anos. A predominncia das concentraes de rudo foram: setor rudo e tolueno: 83,9dB; setor rudo 85,0 dB e 70,0 no setor administrativo. Apenas 15% dos trabalhadores expostos a rudo utilizavam EPI. A prevalncia da perda auditiva foi muito maior no grupo de rudo e tolueno (86,2%) em relao ao grupo exposto s ao rudo (44,8%) e 5% no grupo administrativo.

Em pesquisa com exposies a tintas e rudo, estudou-se setores de pintura de automveis de duas empresas e verificou efeito agravante da exposio a tintas sobre os limiares auditivos de indivduos expostos a rudo entre 81 e 85dB. As perdas auditivas verificadas no grupo exposto a rudo e tintas foi semelhante as observadas no grupo exposto somente a rudo entre 92-107dB (31).

Na avaliao dos efeitos da exposio a rudo e solventes sobre as vias auditivas perifricas e central em trabalhadores de uma indstria grfica de Guarulhos no perodo de setembro/2004 a agosto/2005, observou-se a associao da exposio de 3 solventes orgnicos (gasolina, n-hexano e tinner) e a alterao na via auditiva central foi verificada por meio do resultado do teste do potencial evocado auditivo de longa latncia P300 (PEAL-P300) (32).

A pesquisa foi realizada com 136 trabalhadores e a prevalncia de perdas auditivas encontradas no grupo exposto a rudo e solventes (23,3%) foi consideravelmente maior que nos outros 2 grupos, no expostos (8%), somente expostos a rudo (12,5%), expostos somente a solventes (20%).

Os resultados do estudo sugerem que a exposio ao rudo teve maior repercusso sobre o limiar auditivo e a exposio aos solventes mostrou forte associao com alteraes nos resultados do PEALL-P300.

Estudos como os descritos antes, em sua maioria realizados com animais criados em laboratrios, mostram os efeitos da exposio combinada ou no ao rudo e solventes (neste caso, o tolueno) e os diferentes mtodos de avaliao do sistema auditivo.

Todas as anlises de associao realizadas indicaram que as exposies, combinadas ou no, associam-se a casos de perdas auditivas. Os resultados sugeriram que a exposio a altas concentraes de misturas de solventes e ao tolueno num ambiente ruidoso, podem aumentar significativamente o risco de adquirir uma perda auditiva ocupacional. Os resultados da imitanciometria tambm sugeriram alterao do sistema auditivo central.

Os testes de audiometria e imitanciometria utilizados nos estudos no so suficientes para avaliar os efeitos de solventes audio. Os outros mtodos de avaliao utilizados, nos mostram a importncia de uma bateria completa de exames audiolgicos para determinao do local e tipo de leso.

Estes outros testes mostraram que os solventes ototxicos danificam as clulas ciliadas da cclea, sugerindo que o tolueno pode danificar seletivamente membranas celulares. As clulas ciliadas externas, que facilitam a codificao da informao auditiva pelo processo motor da cclea, foram os alvos mais frequentes dos ototxicos.

No se pode concluir, no entanto, que os solventes sempre se combinaro aditivamente em seus efeitos na audio. A infinidade de produtos e as diferentes concentraes impedem uma avaliao confivel de seus efeitos. Os traumas induzidos por solventes no seriam causados pela contaminao do fluido, mas por intoxicao do tecido envolvendo o sulco externo, em vez do nervo auditivo (20, 33).

Os resultados sugeriram tambm a existncia de uma ao neurotxica do tolueno sobre a audio afetando particularmente a poro retrococlear da via auditiva e ocasionando um tipo de leso distinta daquela provocada pelo rudo. O registro das EOAET e a anlise do efeito de supresso podem servir com instrumento importante na deteco precoce das alteraes auditivas de origem coclear e retrococlear e para a elaborao de aes preventivas em audiologia nos ambientes de trabalho (27).

Na Tabela 1, encontra-se a descrio dos principais artigos descritos acima, de forma resumida, sobre a mistura de solventes e rudo.


COMENTRIOS FINAIS

At hoje os agentes no ambiente de trabalho e seus efeitos tm sido estudados de maneira isolada e os limites de tolerncia destes, no consideram as exposies combinadas. Considerando que os trabalhadores esto expostos a mltiplos agentes e que a perda auditiva irreversvel, os testes implementados devem ser mais completos e todos os trabalhadores devem fazer parte do programa de preveno auditiva, mesmo expostos a baixas doses do limite de exposio recomendado. Estudos sobre os efeitos ototxicos do tolueno na exposio ocupacional ainda no so conclusivos.

importante lembrar que, como para o rudo, a simples presena do agente ototxico estudado (no caso o tolueno), no sinnimo de exposio. Para que ocorra algum tipo de efeito no rgo auditivo, a dose absorvida, que depende , entre outros, dos nveis de concentraes no ambiente e do tempo de exposio, deve ser suficiente para causar o efeito

Sendo assim, importante que os gestores e/ou profissionais que trabalham com a questo da Sade do Trabalhador, sejam alertados do efeito combinado acerca da exposio a rudo e substncias qumicas, para que se possa buscar ferramentas para discusses de normas vigentes e dos programas de conservao auditiva, contribuindo para uma melhor gesto na sade do trabalhador. A perspectiva de estudo dos efeitos combinados, no s do tolueno, mas da maioria dos agentes qumicos, deve merecer maior ateno para que se possa planejar medidas adequadas de proteo, repensando os Programas de Conservao Auditiva existentes.


















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1) Mestrado. Fonoaudiloga Clnica e Ocupacional. Mestre em Gesto Integrada em Sade do Trabalho e Meio Ambiente - Centro Universitrio SENAC.
2) Doutorado. Engenheiro Qumico. Doutor em Engenharia Qumica - Escola Politcnica da Universidade de So Paulo (EPUSP). Pesquisador do Grupo de Preveno da Poluio - GP2 do Departamento de Engenharia Qumica - EPUSP.
3) Doutorado. Fonoaudiloga. Doutora em "Sade da Criana e do Adolescente" - Departamento de Pediatria - FCM/UNICAMP; Docente do Curso de Fonoaudiologia da Universidade Metodista de Piracicaba - UNIMEP.

Instituio: Centro Universitrio SENAC - Campus Santo Amaro.
Campinas / SP - Brasil.
Endereo par correspondncia: Lvia Sanches Calvi Augusto - Rua Olavo Bilac, 419 Apto. 71 - Cambui - Campinas/SP - Brasil - CEP: 13024-110 - E-mail: bioaudio@gmail.com.br ou luiz.akulay@sp.senac.br ou eloisafranco@uol.com.br

Artigo recebido em 11 de Agosto de 2010. Artigo aprovado em 5 de Fevereiro de 2011.
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