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Ano: 2011  Vol. 15   Num. 3  - Jul/Set
DOI: 10.1590/S1809-48722011000300002
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Reconhecimento de fala em indivduos com e sem queixa clnica de dificuldade para entender a fala no rudo
Speech recognition in individuals having a clinical complaint about understanding speech during noise or not
Author(s):
Karine Thas Becker1, Maristela Julio Costa2, Larissa Lautenschlager3, Tania Maria Tochetto4, Sinia Neujahr dos Santos5.
Palavras-chave:
audio, percepo da fala, testes de discriminao da fala, rudo.
Resumo:

Introduo: Estudo clnico e experimental. Indivduos com audio normal podem ser prejudicados em situaes de comunicao desfavorveis, o que interfere negativamente na inteligibilidade de fala. Objetivo: Verificar e comparar o desempenho de adultos jovens, normo-ouvintes, com e sem queixa clnica de dificuldade para entender a fala no rudo, utilizando sentenas como estmulo. Mtodo: Foram avaliados 50 indivduos, 21 do sexo masculino e 29 do feminino, com idades entre 19 e 32 anos, normo-ouvintes, divididos em dois grupos: sem e com queixa clnica de dificuldade de entender a fala no rudo. Utilizando o teste Listas de Sentenas em Portugus, realizou-se a pesquisa dos Limiares de Reconhecimento de Sentenas no Rudo, com os quais foram obtidas as relaes sinal-rudo (S/R). O rudo competitivo foi apresentado a 65 dB NA. Resultados: Os valores mdios obtidos para as relaes S/R na orelha direita, para o grupo sem queixa e o grupo com queixa, foram respectivamente -6,26 dB e -3,62 dB. Para a orelha esquerda, foram -7,12 dB e -4,12 dB. Foi verificada diferena estatisticamente significante tanto na orelha direita quanto na esquerda entre os dois grupos. Concluso: Indivduos normo-ouvintes com queixa clnica de dificuldade de entender a fala em ambientes ruidosos possuem maior dificuldade na tarefa de reconhecimento de sentenas no rudo quando comparados a sujeitos que no relatam essa dificuldade. Assim deve-se incluir na avaliao audiolgica de rotina testes que empregam sentenas na presena de rudo competitivo, avaliando de forma mais confivel e eficiente o desempenho do reconhecimento de fala. ACTRN12610000822088

INTRODUO

A habilidade para compreender a fala um aspecto importante a ser considerado na avaliao audiolgica, pois permite analisar a funo comunicativa-perceptiva, fornecendo dados sobre como o sujeito entende a mensagem falada em situaes de escuta diria (1). Indivduos com audio normal, em geral, apresentam bom desempenho na maioria destas situaes, entretanto, em ambientes ruidosos, podem referir dificuldade para compreender a fala. Isso porque quando a avaliao ocorre no rudo so exigidos vrios canais auditivos para atingir o reconhecimento da fala, indicando que informaes sensoriais mais detalhadas so necessrias em condies de escuta difcil (2).

Para que a inteligibilidade da fala ocorra com sucesso, necessrio que o reconhecimento das caractersticas da mensagem e das caractersticas acsticas do ambiente acontea simultaneamente e de forma integrada (3).

O rudo ambiental est cada vez mais constante no cotidiano das pessoas, muitas vezes no a ponto de ser prejudicial e induzir algum dano audio, mas de interferir diretamente na compreenso das palavra (4). Analisar a relao entre os nveis audiomtricos e a capacidade de reconhecer os sinais de fala de cada indivduo em particular torna-se, ento, fundamental no processo de avaliao audiolgica. As queixas frequentes de dificuldades para reconhecer a fala, principalmente em ambientes ruidosos, mesmo em indivduos considerados audiologicamente normais do ponto de vista quantitativo (4, 5), nos leva a pensar de que forma o indivduo deve ser avaliado para quantificar essa dificuldade.

Em uma avaliao audiolgica, as dificuldades na compreenso da fala s podem ser realmente evidenciadas com estmulos de fala que representem uma situao comunicativa (6). Por causa do desafio que esta tarefa representa, sua avaliao fornece informaes importantes sobre a capacidade do indivduo em lidar com a escuta em ambientes ruidosos (1).

Para esse fim, foi elaborado o teste Listas de Sentenas em Portugus - LSP (7), que utiliza frases como estmulo, as quais podem ser aplicadas tanto em situaes de silncio quanto na presena de rudo competitivo. As sentenas representam melhor as caractersticas de uma situao de conversao do que as palavras isoladas e, juntamente com o rudo, permitem a avaliao do reconhecimento de fala, simulando em ambiente clnico, situaes semelhantes s do dia-a-dia do indivduo (1).

O LSP proporciona preciso e objetividade para mensurar habilidades de reconhecimento de fala de um ouvinte como reflexo de seu desempenho em situaes auditivas realistas e seus achados so de extrema importncia para o diagnstico clnico mais preciso (6).

Com base nessas consideraes, o objetivo do presente estudo foi verificar e comparar o desempenho de adultos jovens, normo-ouvintes, com e sem queixa clnica de dificuldade para entender a fala no rudo, utilizando sentenas como estmulo na presena de um rudo competitivo.


MTODO

Este estudo foi realizado no Laboratrio de Prteses Auditivas do Servio de Atendimento Fonoaudiolgico (SAF) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no ano letivo de 2009, a partir do Projeto "Pesquisa e base de dados em sade auditiva", registrado no GAP do Centro de Cincias da Sade sob o n 019731e aprovado pelo Comit de tica em Pesquisa com certificado de n 0138.0.243.000.06.

Foram utilizados como critrios de incluso: audio dentro dos padres de normalidade, isto , limiares de audibilidade inferiores a 25 dB NA nas frequncias de 250 a 8000 Hz (8) e ausncia de comprometimento de orelha mdia, bem como queixa de zumbido e hiperacusia.

Assim, a amostra ficou constituda de 50 indivduos adultos jovens, com idades entre 19 e 32 anos, normo-ouvintes, que referiram ou no dificuldade de compreender a fala no rudo, os quais foram divididos em dois grupos: grupo A, sem queixa para compreender a fala, formado por 26 indivduos, 14 do sexo masculino e 12 do sexo feminino; e grupo B, com queixa para compreender a fala, formado por 24 indivduos, 7 do sexo masculino e 17 do sexo feminino.

Todos os participantes eram alunos de graduao ou ps-graduao, socialmente ativos e produtivos.

Aps receberem orientaes sobre os objetivos, justificativa e metodologia do estudo proposto, os sujeitos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Em seguida foram submetidos anamnese por meio de um questionrio, que colheu informaes referentes a dados pessoais, queixas auditivas e histria otolgica.

A avaliao audiolgica foi realizada aps a inspeo visual do meato acstico externo e consistiu de: audiometria tonal liminar por via area nas frequncias de 250 a 8.000 Hz e por via ssea nas frequncias de 500 a 4.000 Hz; pesquisa do limiar de reconhecimento de fala (LRF) e pesquisa do ndice percentual de reconhecimento de fala (IPRF). Para a obteno destas medidas, foram utilizados: um audimetro digital de dois canais, marca Fonix, modelo FA-12, tipo I e fones auriculares tipo TDH-39P, marca Telephonics. Ainda foram avaliadas as medidas de imitncia acstica (MIA) atravs da timpanometria e pesquisa dos reflexos acsticos, usando um analisador de orelha mdia INTERACOUSTIC AZ7, com fone TDH-39 e coxim MX-41, com tom sonda de 220 Hz a 70 dB NA, e calibrao segundo a norma ISO 389-1991. Os reflexos acsticos foram pesquisados nas frequncias de 500, 1000 e 2000 Hz.

Posteriormente foi realizada a pesquisa do limiar de reconhecimento de sentenas no rudo (LRSR) e calculada a relao sinal/rudo (S/R), atravs da aplicao do teste LSP (7). Esse material apresenta-se gravado em CD e contm oito listas de sentenas e um rudo com espectro de fala, gravados em canais independentes, permitindo a apresentao das sentenas no rudo, com intensidades de apresentao diferentes. As sentenas e o rudo foram apresentados utilizando-se um Compact Disc Player Digital Toshiba - 4149 acoplado ao audimetro acima descrito.

Antes de iniciar o teste com cada indivduo, a sada de cada canal do CD foi calibrada atravs do VU-meter do audimetro. O tom de 1 kHz presente no mesmo canal do CD em que esto gravadas as sentenas, bem como o rudo mascarante presente no outro canal, foram colocados no nvel zero.

As listas de sentenas e o rudo competitivo foram apresentados de forma monoaural e ipsilateralmente, atravs de fones auriculares, permitindo a avaliao das orelhas separadamente. As listas de sentenas utilizadas esto descritas na Figura 1.

As sentenas foram aplicadas na seguinte ordem:

a) Apresentao das sentenas de 1 a 10 da lista 1A, com a presena de rudo competitivo ipsilateralmente, na orelha direita, para familiarizao do indivduo com o teste.

b) Apresentao das sentenas de 11 a 20 da lista 1A, com a presena de rudo competitivo ipsilateralmente, na orelha esquerda, para familiarizao do indivduo com o teste.

c) Apresentao da lista 3B com a presena de rudo competitivo ipsilateralmente, na orelha direita.

d) Apresentao da lista 4B com a presena de rudo competitivo ipsilateralmente, na orelha esquerda.

A intensidade inicial de apresentao da primeira sentena de cada lista foi baseada nos resultados encontrados no treinamento acima descrito, sendo que a intensidade do rudo foi mantida constante a 65 dB NA (9). Assim, a relao S/R inicial foi modificando-se a partir da mudana na intensidade de cada sentena.

Por meio do treinamento, foi possvel estabelecer para cada indivduo o nvel de intensidade necessria para que este tivesse xito na primeira sentena de cada lista do teste.

A estratgia utilizada para pesquisar o LRSR foi a sequencial ou adaptativa, ou ainda ascendente-descendente (10). Esta permite mensurar o nvel necessrio para o indivduo identificar, de forma correta, aproximadamente 50% dos estmulos de fala apresentados em uma determinada relao S/R.

So sugeridos intervalos de 4 dB at a primeira mudana no tipo de resposta e, posteriormente, intervalos de apresentao dos estmulos de 2 dB entre si at o final da lista (10). Porm, devido s possibilidades tcnicas do equipamento disponvel para a realizao desta pesquisa, foram utilizados intervalos de apresentao das sentenas de 5 dB e 2,5 dB, respectivamente.

Seguindo essa estratgia, quando o indivduo foi capaz de reconhecer corretamente o estmulo de fala apresentado, a intensidade do mesmo foi diminuda; caso contrrio, sua intensidade foi aumentada. Uma resposta s foi considerada correta quando o indivduo repetiu, sem nenhum erro ou omisso, toda a sentena apresentada.

importante mencionar aqui que foi observado, no primeiro estudo realizado com fones auriculares (11), uma diferena de 7 dB entre o volume de gravao dos dois sinais apresentados (fala e rudo), sendo que as sentenas esto gravadas em uma intensidade mdia de 7 dB abaixo da intensidade do rudo. Por esta razo, a autora do teste referiu que, nas avaliaes realizadas com fones auriculares, necessrio que seja subtrado 7 dB dos valores de fala observados no dial do equipamento, procedimento este adotado nesta pesquisa.

Os nveis de apresentao das sentenas foram anotados para posterior clculo da mdia a partir dos valores onde houve mudana no tipo de resposta e ento, subtrados os 7 dB, resultando no LRSR. Para a obteno do valor da relao sinal/rudo (S/R), foi subtrado o nvel de intensidade do rudo (65 dB NA) do valor do LRSR. A varivel considerada no estudo foi o LRSR, expresso atravs da relao S/R.

Realizou-se a anlise descritiva dos valores e, em seguida, os dados coletados foram submetidos a tratamento estatstico, primeiramente, por meio da anlise do comportamento das variveis. Por ser constatada distribuio no-normal dos dados na orelha direita, foi aplicado o teste Mann Whitney; aps constatar distribuio normal dos dados encontrados na orelha esquerda, foi aplicado o teste t Pareado. Ambos os testes tem como finalidade comparar se a diferena entre as mdias das relaes S/R entre os grupos com e sem queixa tiveram significncia ou no. Foi considerado nvel de significncia estatstica de
p < 0,05 (5%).


RESULTADOS

A seguir, esto apresentados os resultados obtidos com as avaliaes realizadas nos 50 indivduos, sendo 24 sem queixa clnica para compreender a fala no rudo (Grupo A) e 26 com queixa (Grupo B).

Na anlise estatstica, no foi evidenciada diferena estatisticamente significante quanto ao sexo, portanto esta varivel foi desconsiderada.

Nas Tabelas 1 e 2 esto expostos os resultados da relao S/R de cada grupo.

Nas Tabelas 3 e 4 esto expostos os dados obtidos atravs da anlise comparativa da relao S/R mdia por orelha, encontrada para cada grupo.









DISCUSSO

Os valores mdios obtidos para as relaes S/R na orelha direita, para o grupo A (sem queixa) e grupo B (com queixa), foram de -6,26 dB e -3,62 dB, respectivamente. J para a orelha esquerda foram -7,12 dB e -4,12 dB.

Com base nesses resultados, pode-se verificar que os valores mdios das relaes S/R obtidos para os indivduos que no apresentam queixa foram melhores que os valores mdios das relaes S/R obtidos para os indivduos que apresentam queixa de entender a fala no rudo. Isso evidencia que os sujeitos do grupo A conseguiram reconhecer em torno de 50% dos estmulos de fala apresentados diante de rudo competitivo (65 dB NA) com uma relao S/R mais desfavorvel, ou seja, o estmulo de fala foi apresentado em intensidades menores em relao ao rudo.

Segundo a literatura, indivduos com audio normal podem ser prejudicados em situaes de comunicao nas quais a relao S/R for desfavorvel e interferir negativamente na inteligibilidade de fala (2).

Tal fato foi verificado no presente estudo, pois, ao comparar os resultados entre os grupos, foi verificada diferena estatisticamente significante, tanto na orelha direita quanto na esquerda, revelando que o grupo com queixa (B) teve desempenho significantemente pior se comparado ao grupo sem queixas (A).

Resultados semelhantes foram encontrados por outros pesquisadores (12,13,14).

O grupo A teve, em mdia, uma relao S/R -2,64 dB melhor que o grupo B na OD e -3 dB melhor na OE. Testes de sentenas com rudo competitivo podem evidenciar pequenas mudanas na relao S/R, traduzindo-as em grandes mudanas de inteligibilidade (15).

A variao de 1 dB na relao S/R em pessoas com audio normal representa mudanas importantes de no reconhecimento da fala. So encontrados na literatura vrios estudos que citam diferentes valores de variao para cada incremento favorvel na relao sinal/rudo, como 18% (9), 13,2%(15) e 12,12% (5), sendo este ltimo pesquisado com o mesmo instrumento de avaliao utilizado no presente estudo.

Dessa forma, as diferenas entre os valores da relao S/R entre os dois grupos aqui estudados so bastante relevantes, pois se usarmos o valor encontrado na pesquisa citada acima (5) que encontrou mudana no ndice percentual de reconhecimento de fala 12,12 % a cada variao de 1 dB na relao S/R, poderamos projetar que os indivduos do grupo B, que necessitaram em torno de 3 dB de relao S/R mais favorvel para reconhecer 50% dos estmulos de fala, teriam ndices percentuais de reconhecimento de fala no rudo em torno de 36,36 % piores do que os indivduos sem queixa (grupo A), se estivessem submetidos a uma mesma situao de comunicao, com uma relao S/R de -6 a -7 dB, por exemplo.

Outro dado constatado na literatura (16) o valor de referncia para a relao S/R quando realizada a avaliao em fones auriculares, que foi de -5,29 dB para adultos jovens normo-ouvintes, variando de -2,55 a -9,22 dB, com um desvio-padro (DP) mdio de 1,13 dB. Considerando os dados da referida pesquisa e ponderando mais ou menos dois DP, a partir da mdia, chega-se a um valor mnimo encontrado para as relaes S/R de indivduos jovens normo-ouvintes de -3 dB, tendo sido verificado que apenas um indivduo necessitou de relao S/R mais favorvel do que -3 dB.

Por sua vez, na presente pesquisa, quando foram analisados os resultados individuais das relaes S/R, constatou-se que todos os indivduos do grupo A reconheceram 50% do material de fala apresentado com uma relao S/R igual ou mais desfavorvel do que -3 dB em ambas as orelhas, sendo que os valores variaram entre -3,07 e -12,8 dB na OD e entre -3,66 e -11,77 dB na OE.

J no grupo B, encontraram-se valores de -1,04 e -8,07 dB na OD e -0,75 e -7,25 na OE. Apenas 17 (70%) dos indivduos alcanaram esse desempenho com relao S/R mais desfavorvel ou igual a - 3 dB na OD e 16 (66%) na OE.

Isso mostra que os indivduos que referem queixa para entender a fala em ambientes ruidosos realmente possuem maior dificuldade na tarefa de reconhecimento de sentenas no rudo, quando comparados a sujeitos que no relatam essa dificuldade com idade e caractersticas audiolgicas semelhantes.

Compreender a fala em ambientes ruidosos um desafio para qualquer ouvinte. Esta dificuldade atribuda, em parte, aos efeitos negativos do rudo na sincronia neural, resultando em uma representao degradada da fala em nveis corticais e subcorticais (17).

Sujeitos com as mesmas habilidades de reconhecimento de fala no silncio podem apresentar resultados extremamente diferentes em ambientes ruidosos. Quando a avaliao ocorre no rudo, ao contrrio do silncio, so exigidos vrios canais auditivos para atingir o mesmo nvel de reconhecimento da fala, indicando que informaes sensoriais mais detalhadas so necessrias em condies de escuta difcil (2).

Esta tarefa requer um conjunto complexo de habilidades cognitivas e perceptuais, incluindo a memria de trabalho auditiva, deteco e processamento de aspectos espectrais e temporais (18, 19), alm das habilidades auditivas de figura-fundo (20), fechamento auditivo e ateno seletiva (21).

Portanto, torna-se importante a avaliao da decodificao auditiva, pois qualquer prejuzo envolvido na aquisio de conhecimentos pela habilidade de integrar auditivamente a informao sonora dificultar a compreenso da fala em ambientes ruidosos (22).

Assim sendo, considerando todos estes aspectos e retomando os resultados da atual pesquisa - que evidenciou, atravs do teste LSP, que indivduos audiologicamente normais, com queixa clnica de dificuldade para entender a fala no rudo, apresentaram desempenho inferior quando comparado ao de indivduos da mesma faixa etria, porm sem a queixa -, pode-se levantar a hiptese de que estes indivduos possam apresentar prejuzo em alguma das etapas do processamento da fala e no conseguem realizar as habilidades de ateno seletiva figura-fundo com eficincia, levando ao baixo desempenho encontrado.

O objetivo da avaliao do reconhecimento de fala a obteno de uma compreenso abrangente sobre a forma de como a dificuldade auditiva afeta os diferentes processos envolvidos na compreenso da fala (23).

Se houver reduo intrnseca combinada com a diminuio das pistas redundantes extrnsecas, a inteligibilidade ser prejudicada. Os testes de reconhecimento de fala na presena de escuta difcil possibilitam avaliar as habilidades perceptuais auditivas e identificar uma alterao auditiva central (21).

Em vista do exposto, percebe-se que de fundamental importncia a avaliao do reconhecimento da fala da forma mais prxima possvel das situaes do dia-a-dia. Para isso, a utilizao de rudo competitivo, que requer atividade auditiva complexa para que o estmulo de fala seja processado; e de testes que utilizam sentenas como estmulo, que simulam situaes de comunicao na qual a extenso do enunciado a ser reconhecido e a complexidade lingustica so fatores levados em considerao, mostram-se efetivos para estimar queixas clnicas relacionadas dificuldade para entender a fala.

Ento, para que se consiga mensurar a real dificuldade do indivduo com queixa clnica de dificuldade para entender a fala no rudo, mesmo com limiares auditivos dentro da normalidade, sugere-se a introduo, na avaliao audiolgica de rotina clnica, de testes que empregam sentenas na presena de rudo. Esta seria a forma mais confivel e eficiente de quantificar o desempenho das habilidades envolvidas neste processo. uma abordagem mais abrangente, diferente da metodologia empregada nas avaliaes atualmente realizadas, as quais avaliam o indivduo somente em situaes ideais de escuta, ou seja, no silncio e com palavras isoladas, no demonstrando as reais dificuldades do paciente.

Deve ficar claro que dificuldades relacionadas capacidade de extrair pistas acsticas da informao auditiva, focalizar a ateno na informao relevante e dificuldade de evocar a mensagem retida na memria de curto prazo influenciaro no desempenho dos indivduos em ambientes que demandem essas habilidades. importante ressaltar que este teste vai mostrar, confirmar e quantificar a dificuldade especfica referida pelo paciente, norteando metas para uma possvel interveno e reabilitao.

A partir destes achados, quando o resultado for abaixo do esperado, o paciente ser encaminhado para outras avaliaes, tais como testes de processamento auditivo e exames eletrofisiolgicos, quando possvel, pois visam ratificar e complementar o diagnstico para que, dessa forma, sejam fornecidas as orientaes e sugestes de conduta teraputica para auxiliar o paciente a minimizar a queixa clnica.


CONCLUSO

Com base nos resultados encontrados, pode-se concluir que indivduos, normo-ouvintes, com queixa de dificuldade de entender a fala em ambientes ruidosos, apresentaram maior dificuldade na tarefa de reconhecimento de sentenas no rudo quando comparados a sujeitos que no relataram essa dificuldade, com idade e caractersticas audiolgicas semelhantes.

Portanto, deve-se incluir na avaliao audiolgica clnica de rotina testes que empregam sentenas na presena de rudo competitivo, pois esta a forma mais confivel e eficiente de quantificar o desempenho dos indivduos na tarefa de reconhecer a fala quando um ambiente sonoro desfavorvel.

A partir desta avaliao, acredita-se que necessrio investigar as habilidades de processamento auditivo quando houver queixa clnica de dificuldade para entender a fala no rudo mesmo quando o indivduo apresenta audio normal, pois estes indivduos podem apresentar algum dficit nas etapas do processamento da fala.


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1) Graduao. Fonoaudiloga.
2) Doutora. Fonoaudiloga; Professora Adjunta do Departamento de Fonoaudiologia da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM.
3) Mestre. Fonoaudiloga do Centro Auditivo Phonak.
4) Doutora. Fonoaudiloga, Professora Associada do Departamento de Fonoaudiologia da UFSM.
5) Mestre. Fonoaudiloga do Centro Auditivo Sonora.

Instituio: Universidade Federal de Santa Maria - UFSM. Santa Maria / RS - Brasil. Endereo para correspondncia: Karine Thas Becker - Rua Pedro Santini, 177 - apto. 109/C - Nossa Senhora de Lourdes - Santa Maria / RS - Brasil - CEP: 97060-480 - Telefone: (+55 55) 8406-3292 - E-mail: katthais@hotmail.com

Artigo recebido em 4 de Outubro de 2010. Artigo aprovado em 27 de Maro de 2011.
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