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Ano: 2001  Vol. 5   Num. 3  - Jul/Set Print:
Case Report
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Pericondrite de Pavilho Auricular: Relato de Caso
Auricular Perichondritis: A Case Report
Author(s):
Antonio Celso Nunes Nassif Filho*, Antonio Celso Nunes Nassif**, Sandra Lunedo***, Fernando Gortz****, Marcielle Denardi Abicalaffe****.
Palavras-chave:
pericondrite auricular, prtese auditiva, tratamento cirrgico.
Resumo:

Introduo: Os autores abordam a pericondrite de pavilho auricular, enfatizando seus aspectos etiolgicos, clnicos e a conduta teraputica. Objetivo: Relatar um caso de pericondrite fistulizada por uso de prtese auditiva, bem como o tratamento cirrgico empregado. Relato do caso: Paciente idoso do sexo masculino com inflamao unilateral do pavilho auricular aps microtraumatismo causado pelo uso de prtese auditiva, sem melhora aps tratamento clnico e drenagem. Foi submetido a cirurgia com anestesia local, encontrando-se necrose e perda de tecido cartilaginoso. A compresso foi feita com botes fixados na poro anterior e posterior do pavilho auricular, retirados no 7o dia ps-operatrio. Aps 30 dias da cirurgia, os resultados obtidos foram muito bons, sem complicaes no meato acstico externo. Concluso: Os autores realam a importncia do diagnstico precoce da pericondrite auricular para evitar deformidades permanentes do pavilho.

INTRODUO

A pericondrite uma infeco do pericndrio, com acmulo de pus entre este e a cartilagem. Considerando que o pericndrio o responsvel pela nutrio da cartilagem, um processo inflamatrio a esse nvel pode levar necrose com deformidades importantes. Uma vez instalada, a infeco tende a espalhar-se rapidamente por todo o pavilho, principalmente nas pores livres ou no seu tero superior1.

Dentre os fatores que contribuem para a formao da pericondrite esto a escassez de tecido celular subcutneo entre a pele e a cartilagem e a pequena irrigao sangunea da cartilagem auricular, o que a torna mais suscetvel a infeces bacterianas. Histologicamente observa-se reas de supurao, eroso e necrose da cartilagem, bem como infiltrao de neutrfilos e perda difusa do estroma basoflico2.

Este trabalho relata um caso de pericondrite crnica de pavilho auricular decorrente do uso de prtese auditiva e tem por objetivo descrever uma tcnica nova de compresso do pavilho auricular para evitar as complicaes mais comuns desta patologia.

RELATO DE CASO

MEEF, 78 anos, masculino, casado, policial militar aposentado, natural de Porto Alegre, foi admitido no Servio de Otorrinolaringologia da Santa Casa de Misericrdia de Curitiba, com inflamao do pavilho auricular direita h cerca de oito meses, aps microtraumatismo causado pelo uso de prtese auditiva. Relatou ter sido submetido a trs procedimentos ambulatoriais de drenagem do pavilho em outro servio, sem melhora. Considerando o paciente ser hipertenso, cardiopata, com revascularizao do miocrdio h 3 anos, apresentando ainda estenose carotdea crtica direita, optou-se pelo tratamento clnico. A medicao utilizada foi levofloxacina, administrada por via oral durante 7 dias, o que levou a uma melhora significativa e quase completa remisso do processo inflamatrio.

Aproximadamente 30 dias depois, o paciente retornou ao servio apresentando intensa inflamao em todo o pavilho auricular, drenando material purulento e ftido atravs de um orifcio fistular localizado na poro anterior da concha (Figura 1). Uma puno da orelha foi realizada, com retirada de pus em grande quantidade (Figura 2). Esse material foi enviado para exame bacterioscpico, cultura e antibiograma. Pela bacterioscopia evidenciou-se a presena de polimorfonucleares e estreptococos. Na cultura, ocorreu o crescimento de Streptococcus do grupo D (Enterococcus), sensvel apenas a vancomicina.

Desta forma, a opo foi pelo tratamento cirrgico com anestesia local assistida, inciso em poro anterior do pavilho auricular, contornando a hlix (Figura 3), com exposio de toda a rea acometida pelo processo infeccioso. A abertura cirrgica demonstrou necrose e perda de grande parte da cartilagem auricular. Aps lavagem e limpeza cuidadosa da regio exposta, rifocina e corticides foram aplicados sobre o local, sendo a pele suturada com fio mononylon 5-0.

Para aumentar a adeso da pele cartilagem e evitar a formao de coleo serossangunea nesse espao com eventual recidiva da pericondrite, realizou-se a compresso por meio da tcnica de botes fixados nas pores anterior e posterior do pavilho auricular, de modo a produzirem adesividade necessria (Figuras 4 e 5). Alm disso, uma faixa com atadura de crepe foi colocada ao redor da cabea, igualmente compressiva. Os pontos e os botes foram retirados no stimo dia de ps-operatrio.

Decorridos 30 dias, observou-se boa evoluo ps-operatria, sem estenose do meato acstico externo (Figura 6).


Figura 1. Pericondrite fistulizada de pavilho auricular direito.


Figura 2. Drenagem ambulatorial de pericondrite de pavilho auricular.


Figura 3. Inciso em face anterior do pavilho auricular, com exposio da cartilagem comprometida.


Figura 4. Vista anterior da tcnica de compresso do pavilho auricular com botes.


Figura 5. Vista posterior da tcnica de compresso do pavilho auricular com botes.


Figura 6. Aspecto do pavilho auricular observado no 30o dia de ps-operatrio.


DISCUSSO

A pericondrite de pavilho auricular uma entidade rara, mesmo considerando-se o nmero de cirurgias otolgicas contaminadas que so realizadas na prtica diria do otorrinolaringologista3. Em reviso de literatura, Bassiouny encontrou apenas 191 casos descritos at 1981. A infeco quando instalada, tende a espalhar-se rapidamente por todo o pavilho, principalmente nas pores livres ou no seu tero superior, levando deformidade da orelha3.

Os microorganismos alcanam o plano do pericndrio mais freqentemente em trs situaes: a) traumatismos, cortes ou laceraes, precipitando a formao de otohematoma; b) cirurgia, principalmente quando se usa a via do meato acstico externo; c) disseminao a partir de um foco superficial, como pode ocorrer na furunculose do meato1.

A causa mais freqente o traumatismo local com hematoma e infeco secundria subsequente. A acupuntura com o uso de agulhas um tipo de trauma penetrante que pode causar pericondrite auricular4,5.

Dentro da sintomatologia, os sinais subjetivos so os que primeiro aparecem, com fortes dores irradiando-se para a regio cervical e temporal, piorando com o manuseio do pavilho. A hipertermia, em geral, discreta. O aspecto nesta fase inicial pode ser semelhante erisipela ou furnculo de meato acstico externo. Entretanto, a evoluo posterior chama nossa ateno para o edema do pavilho auricular, sensvel a presso. O relevo se faz irregular de acordo com a formao de abscesso de localizao profunda, podendo resultar na chamada \"orelha em couve flor\". A partir da, quando no se efetua nenhum tratamento medicamentoso ou cirrgico precoce, pode advir extensa necrose da cartilagem com eliminao de seqestros e finalmente com mutilao completa do pavilho auricular. Em muitos casos, pode ocorrer fistulizao espontnea, resultando em eliminao crnica de pus.

O diagnostico feito baseando-se nos sintomas subjetivos, gerais e sobretudo locais. O tratamento curativo exige, alm de medidas locais, atitudes sistmicas como o uso de antibiticos. O objetivo bsico localizar e confinar a infeco na menor rea possvel1.

Nos casos de traumas acidentais ou cirrgicos, as infeces podem ocorrer por vrios microorganismos, com predomnio das espcies de Pseudomonas 4. Lactobacilos devem ser includos no diferencial da pericondrite ps- piercing 6,7. Nos casos presumivelmente surgidos espontaneamente, so mais frequentes os microorganismos gram-positivos4. O mais til antes da formao da coleo purulenta a antibioticoterapia. Havendo melhora clnica dentro de 48 horas, a medicao programada no dever ser suspensa antes do 7o dia. O ideal procurar sempre identificar o germe atravs dos testes laboratoriais, inclusive com antibiograma para melhor orientao teraputica.

Quando, no entanto, houver formao de pus, evidenciado pela flutuao, est indicada a inciso e drenagem do pavilho. Vrias so as proposies para as incises, sendo que alguns autores usam apenas uma e paralela ao contorno de todo pavilho1. Outros, nos casos de comprometimento extenso do pavilho, usam mltiplas incises com abertura de janela na cartilagem1.

No h relatos na literatura fazendo referncia ao uso de prtese auditiva como causa da pericondrite nem tcnica cirrgica descrita. Sendo assim, ressalta-se a importncia desta nova tcnica utilizada, uma vez que no apresenta dificuldades e a sua eficcia torna-a procedimento de escolha em pacientes com pericondrite de pavilho auricular.

CONCLUSES

Os autores pretendem alertar quanto necessidade de um diagnstico precoce das condies que favorecem a ocorrncia de pericondrite porque, uma vez instalada, apresenta difcil tratamento e leva a deformidades permanentes do pavilho auricular.

REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. NASSIF, A. C. N.; AQUINO, C. N. H. Pericondrite crnica do pavilho da orelha. Rev. Bras. Otorrinolaringologia, 45(3): 23-28, 1979.

2. RIOS, O. A. B.; SOUZA NETO, O. M.; CASTRO JNIOR, N. P. Pericondrite supurativa do pavilho auricular. Rev. Bras. Med. Otorrinolaringol., 5(4): 131-4, 1998.

3. BASSIOUNY, A. Perichondritis of the auricle. Laryngoscope, 91(3): 422-31, 1981.

4. RAMOS, S.; PINTO, L. F.; RAMOS, R. F. Pericondrite do pavilho auricular em consequncia de acupuntura. Rev. Bras. Otorrinolaringologia, 63(6): 589-92, 1997.

5. GILBERT, J. G. Auricular complication of acupunture. N. Z. Med. J., 100(819): 141-2, 1987.

6. DAVIS, O.; POWELL, W. Auricular perichondritis secondary to acupuncture. Arch. Otolaryngol., 111(11): 770-1, 1985.

7. RAZAVI, B.; SCHILLING, M. Chondritis attributable to Lactobacillus after ear piercing. Diagn. Microbiol. Infect. Dis., 37(1): 75-6, 2000.

* Chefe do Servio de Otorrinolaringologia da Santa Casa de Misericrdia de Curitiba.
** Coordenador Cientfico do Servio de Otorrinolaringologia da Santa Casa de Misericrdia de Curitiba.
*** Mdica Otorrinolaringologista da Santa Casa de Misericrdia de Curitiba.
**** Mdico(a) Residente do Servio de Otorrinolaringologia da Santa Casa de Misericrdia de Curitiba.

Trabalho realizado no Servio de Otorrinolaringologia da Santa Casa de Misericrdia de Curitiba
Endereo para correspondncia: Dr. Fernando Gortz - Rua Danilo Gomes, 759 Sb. 1 E - CEP: 81670-250 - Curitiba - PR - Telefone: (41) 376-5484 / 9909-5456 - E-mail: fernando_gortz@hotmail.com
Artigo recebido em 19 de fevereiro de 2001. Artigo aceito em 8 de agosto de 2001.
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