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Ano: 2007  Vol. 11   Num. 4  - Out/Dez Print:
Case Report
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Hemangioma Apresentando-se como Massa de Canal Auditivo Externo
Hemangioma Presenting as External Ear Canal Mass
Author(s):
Jos Faibes Lubianca Neto1, Mauricio Schreiner Miura2, Catia Saleh3, Marina de Andrade4, Melina Assmann4
Palavras-chave:
Hemangioma. Meato acstico externo. Orelha externa. Perda auditiva.
Resumo:

Introduo: Leses tumorais do meato acstico externo so achados pouco comuns na prtica otorrinolaringolgica diria. A possibilidade de hemangioma deve sempre ser lembrada. Objetivo: Descrever o caso de um paciente com hemangioma no conduto auditivo externo. Relato do Caso: Paciente com leso arredondada, amolecida, totalmente recoberta por pele sem alterao de cor no meato acstico externo, que comprometia aproximadamente 90% do dimetro do canal e que provocava sensao de abafamento na orelha afetada. A TC demonstrou no haver comprometimento da membrana timpnica e o exame anatomo-patolgico confirmou o diagnstico de hemangioma. Concluso: importante determinar se o hemangioma compromete ou no a membrana timpnica, o que algumas vezes s pode ser demonstrado por tomografia computadorizada de osso temporal. O tratamento consiste na exrese cirrgica da leso.

INTRODUO

Diversas doenas podem afetar o canal auditivo externo (CAE), provocando hipoacusia condutiva. Muitas vezes, apresentam-se associadas a manifestaes de otalgia, otorria e acfenos. As causas mais comuns so presena de cermen, eczema, otite externa e otomicose. Tumores benignos nesta localizao so menos freqentes, sendo importante seu diagnstico etiolgico (1), uma vez que o achado otoscpico no diferencia leses benignas ou malignas.

Entre os tumores benignos do CAE, a exostose a forma mais encontrada (6,3 casos a cada 1000 pacientes examinados por queixas ORL) (2). Leses vasculares so mais raras e, destas, o hemangioma o mais prevalente. importante o diagnstico diferencial para determinar a correta investigao e o tratamento adequado (3).

Hemangioma uma leso vascular que geralmente localiza-se na derme. comum em crianas pequenas, desaparecendo por volta dos 5-6 anos de idade, ocorrendo duas fases de evoluo (1). Uma fase de crescimento rpido (fase proliferativa), seguido por uma fase de involuo. Histologicamente observa-se na fase proliferativa uma hiperplasia endotelial e aumento do nmero de mastcitos. Na fase involutiva, observa-se fibrose, infiltrao gordurosa, diminuio da celularidade e normalizao do nmero de mastcitos (2). Pode ser capilar, quando os vasos organizam-se em estruturas tipo capilares, ou cavernoso, quando apresenta grandes espaos vasculares, forma mais comum em pele e mucosas. Durante a fase proliferativa, em crianas, observa-se o aumento dos nveis srico e urinrio do fator de crescimento bsico de fibroblastos (bFGF) (1).


RELATO DE CASO

J.S., masculino, 41 anos, branco, procurou atendimento otorrinolaringolgico devido a hipoacusia progressiva na orelha esquerda nos ltimos 2 meses. No havia queixa de otalgia ou otorria. No referia histria prvia de doena otolgica. H aproximadamente 45 dias havia consultado em outro local com queixas de abafamento auditivo na orelha esquerda, tendo recebido o diagnstico de disfuno tubria, que fora tratado com loratadina e pseudo-efedrina sem sucesso. Como o incmodo era progressivo, veio consulta. A otoscopia visualizava-se massa pediculada, originando-se na parede ntero-inferior do tero interno do canal auditivo externo (CAE) esquerdo (Figura 1). A leso ocupava virtualmente todo dimetro do CAE, mas era possvel comprimir a massa e observar a membrana timpnica (MT). Ao comprimi-la, ocorria melhora auditiva transitria, mas com o intumescimento da leso a audio voltava a piorar. Foi realizada tomografia computadorizada (TC) de osso temporal, que confirmou a localizao da leso, a ausncia de comprometimento da MT e a ausncia de extenso para as adjacncias, alm de leve impregnao pelo contraste na periferia da leso (Figuras 2 e 3).


Figura 1. Massa pediculada no canal auditivo externo esquerdo. (A: anterior; S: superior)


Figura 2. Tomografia computadorizada localiza a leso (seta), evidenciando ausncia de comprometimento da membrana timpnica e ausncia de extenso para estruturas adjacentes.


Figura 3. Tomografia computadorizada demonstra leve impregnao pelo contraste na periferia da leso (seta).



O paciente foi submetido a procedimento cirrgico transcanal, com descolamento da pele do CAE at a leso. Nesse momento, houve intenso sangramento, controlado parcialmente com algodes embebidos em vasoconstritor e cauterizao do pedculo da leso que transfixava o osso timpnico, sem eros-lo. Tentou-se, sem sucesso, dissecar a pele aderente leso. Procedeu-se, ento, a inciso medial massa, para evitar-se descolamento e leses inadvertidas na pele mais medial do CAE e do nulo timpnico. Nessa etapa, fez-se a exrese da leso, com posterior broqueamento, utilizando broca diamantada da parede anterior do CAE, para melhor hemostasia. Foi realizado preenchimento da rea desnuda com enxerto de pele retirada da face medial do brao esquerdo. O exame antomo-patolgico diagnosticou hemangioma microvascular (Figura 4). O paciente apresentou boa evoluo, estando assintomtico na ltima reviso (6 meses aps a cirurgia) com cicatrizao completa do CAE e ausncia de recidiva da leso.


Figura 4. Exame histopatolgico demonstra hemangioma microvascular.



DISCUSSO

O primeiro relato da presena de hemangioma na orelha externa foi feito por Freedman em 1972, descrevendo dois homens na sexta dcada de vida com leso que se originava na parede posterior do CAE e comprometia a MT (4). Desde ento, poucos casos foram relatados. Em 1987, Hawnk e van Nostrand descreveram o primeiro caso de hemangioma do CAE sem comprometimento da MT (5). At o momento, h 3 relatos com esta caracterstica (1). No caso relatado, a leso iniciava na parede anterior do CAE e ao ser comprimida no parecia haver comprometimento da MT.

O diagnstico diferencial das leses vasculares da orelha inclui glmus jugular, glmus timpnico, bulbo da jugular alto, artria cartida interna aberrante, malformaes artrio-venosas, entre outras (1). A otoscopia, a leso no era pulstil e no havia alterao na colorao da pele. Mesmo assim, fundamental a realizao de tomografia computadorizada (TC) do osso temporal com contraste para o diagnstico diferencial, delimitando a extenso da leso e avaliando sua vascularizao (6). A TC no demonstrava comprometimento da MT nem extenso para estruturas adjacentes, alm de demonstrar leve impregnao pelo contraste na periferia da leso.

O tratamento do hemangioma cirrgico e consiste na exrese da leso. Quando realizamos a remoo da leso, devido extenso da rea cruenta, optamos pela confeco de enxerto de pele no local. O diagnstico definitivo realizado atravs do exame antomo-patolgico (8). O prognstico favorvel na maioria dos casos e recorrncia rara (7). O paciente evoluiu bem, com adequada cicatrizao do CAE e no houve recorrncia da leso.


CONCLUSO

A presena de massa tumoral no CAE abre um leque de hipteses diagnsticas, dentre as quais, hemangioma, principalmente se a leso amolecida e compressvel, como no caso, independentemente da colorao da pele. importante a delimitao da leso, quanto localizao, comprometimento da membrana timpnica e invaso de estruturas adjacentes. Para este fim, a TC o exame indicado. O tratamento dos hemangiomas cirrgico com mnima chance de complicao e bom prognstico.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

1. Reeck JB, Yen TL, Szmit A, Cheung SW. Cavernous hemangioma of the external ear canal. Laryngoscope. 2002 Oct;112(10):1750-2.

2. Newcomer NT, Marple B. Benign Tumors of the External Ear. Emedicine, 2002: http://www.emedicine.com/ent/topic706.htm.

3. Limb CJ, Mabrie DC, Carey JP, Minor LB. Hemangioma of the external auditory canal. Otolaryngol Head Neck Surg. 2002 Jan;126(1):74-5.

4. Freedman SI, Barton S, Goodhill V. Cavernous angiomas of the tympanic membrane. Arch Otolaryngol. 1972 Aug;96(2):158-60.

5. Hawke M, van Nostrand P. Cavernous hemangioma of the external ear canal. J Otolaryngol. 1987 Feb;16(1):40-2.

6. Chakeres DW, Kapila A, LaMasters D. Soft-tissue abnormalities of the external auditory canal: subject review of CT findings. Radiology. 1985 Jul;156(1):105-9.

7. Jackson CG, Levine SC, McKennan KX. Recurrent hemangioma of the external auditory canal. Am J Otol. 1990 Mar;11(2):117-8.

8. Kemink JL, Graham MD, McClatchey KD. Hemangioma of the external auditory canal. Am J Otol. 1983 Oct;5(2):125-6.














1. Doutor em Cincias Mdicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor Adjunto do Departamento de Otorrinolaringologia e Oftalmologia da Fundao Federal Faculdade de Cincias Mdicas de Porto Alegre. Professor do Programa de Ps-Graduao em Cincias Mdicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
2. Doutorando do Programa de Ps-Graduao em Cincias Mdicas de Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Otorrinolaringologista do Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre.
3. Acadmica da Fundao Federal Faculdade de Cincias Mdicas de Porto Alegre (6 Ano).
4. Acadmica da Fundao Federal Faculdade de Cincias Mdicas de Porto Alegre (5 Ano).

Instituio: Fundao Federal Faculdade de Cincias Mdicas de Porto Alegre. Programa de Ps-Graduao em Cincias Mdicas - Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Endereo para correspondncia:
Jos Faibes Lubianca Neto
Clnica Otorrinos Porto Alegre
Rua Dona Laura, 320, 9 andar
Porto Alegre/RS - CEP 90430-090
Telefax: (51) 3029-8749
E-mail: jlubianca@terra.com.br

Este artigo foi submetido no SGP (Sistema de Gesto de Publicaes) da R@IO em 10 de janeiro de 2007. Cd. 207. Artigo aceito em 29 de junho de 2007.
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