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Ano: 2008  Vol. 12   Num. 3  - Jul/Set Print:
Case Report
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Cisto Branquial Malignizado ou Metstase de Tumor Primrio? Relato de Caso
Malignant Branchiogenic Cyst or Primary Tumor Metastasis? Case Report
Author(s):
Carolina Pimenta Carvalho1, Alano Nunes Barcellos2, Daniel Caldeira Teixeira3, Marcos Antnio Carvalho de Lacerda4, Carlos Alberto Ribeiro5
Palavras-chave:
branquioma, neoplasias primrias desconhecidas, metstases linfticas
Resumo:

Introduo: A existncia de cisto branquial malignizado controversa desde a poca em que foi descrito pela primeira vez. A maioria dos autores acredita que, na verdade, uma metstase cstica de tumor primrio de cabea e pescoo. Objetivo: Discutir sobre a existncia de cisto branquial malignizado. Relato do Caso: Paciente apresentando massa cstica anterior poro superior do msculo esternocleidomastideo, que foi removida como um cisto branquial malignizado. Entretanto, o exame antomo patolgico sugeriu tratar-se de um tumor primrio desconhecido. A paciente vem sendo seguida com exames peridicos sem evidncias do primrio. Consideraes Finais: Provavelmente nunca saberemos se era um cisto branquial malignizado ou metstase de primrio desconhecido devido a sobreposio de critrios diagnsticos.

INTRODUO

Cisto branquial representa um resqucio do aparelho branquial (responsvel pelo desenvolvimento das estruturas osteocartilaginosas, musculares, neurais e vasculares do pescoo). Ocorre quando o seio cervical de His, espao formado devido ao crescimento das primeiras fendas branquiais, no se oblitera completamente. O cisto branquial mais encontrado o originrio da 2a fenda branquial e se localiza na regio cervical alta, anterior ao msculo esternocleidomastideo, regio jugulo-carotdea. Manifestam-se como uma massa cervical, de consistncia lisa e fibroelstica, com mobilidade lateral, geralmente aps episdio de infeco de vias areas superiores (1,2).

H grande controversa na literatura a respeito da existncia de cisto branquial malignizado. A maioria dos autores acredita que tal entidade no existe, tratando-se, sim, de metstase de tumor primrio desconhecido (3,4,7,8).


RELATO DO CASO

Trata-se da paciente M.I.M.L.P., 50 anos, leucoderma, casada, procedente de Belo Horizonte. Procurou o servio de otorrinolaringologia em janeiro de 2005 com a queixa de ndulo cervical direita, de crescimento lento e progressivo, pouco doloroso. Tal quadro se iniciou h cerca de 45 dias, quando a mesma apresentou uma amigdalite. Paciente negou outros sintomas como disfagia, disfonia ou emagrecimento. Exame otorrinolaringolgico sem alteraes. palpao cervical, identificamos um ndulo cervical, em cadeia jugular direita, com aproximadamente 2 a 3 cm de dimetro, mvel, consistncia fibroelstica. Solicitamos ultra-sonografia cervical, puno bipsia e fibronasolaringoscopia. Retornou com exames em abril de 2005: US mostrou imagem hipoecica, ligeiramente heterognea, com contornos bem definidos, medindo 40,7 x 28 x 16mm, junto poro nfero posterior da partida direita. PAAF: clulas epiteliais superficiais e intermedirias com escamas crneas, permeadas por clulas fusiformes tpicas e raros linfcitos, sugerindo cisto epitelial drmico. A fibroscopia nasal no evidenciou nenhuma leso. Diante do quadro exposto suspeitamos de cisto branquial e indicamos cirurgia, que foi realizada apenas em agosto deste mesmo ano. No peroperatrio, identificamos a leso de aspecto cstico em cadeia jugular direita alta, que rompeu drenando secreo amarelada e espessa. Enviado material para antomopatolgico que sugeriu tratar-se de carcinoma espinocelular pouco diferenciado metasttico. Realizado, ento, novo exame fsico da paciente sem alteraes. Solicitados ultrasonografia cervical e de abdome, endoscopia digestiva alta, RX de trax e, a seguir, tomografia computadorizada de trax e Pet Scan sem alteraes. A paciente foi encaminhada ao oncologista que indicou radioterapia. Agora, encontra- se no segundo ano de seguimento, sem sinais de doena e ainda sem a localizao do provvel tumor primrio.


Figura 1. Cisto branquial malignizado - ultra-sonografia cervical mostrando cisto em poro nfero posterior da partida direita.


Figura 2. Cisto branquial malignizado - cortes da pea coradas por HE.



DISCUSSO

O aparelho branquial constitudo de cinco arcos de origem mesodrmica, sendo separados, externamente, por sulcos de origem ectodrmica e, internamente, por bolsas, endodrmicas, que daro origem s estruturas osteocartilaginosas, musculares, neurais e vasculares do pescoo (1,2).

Existem quatro tipos de cistos branquiais, de acordo com o arco de origem: o mais comum o da 2a fenda branquial, seguido pelo da 1a e, depois, 3a e 4a. Manifestam-se, geralmente, como leso lisa, consistncia fibroelstica, mvel, na regio jugulo-carotdea alta, aps infeco de via area superior (1,2).

H vrios anos vm se tentando provar a existncia de cisto branquial malignizado (3). A maioria dos autores, no entanto, acreditam que eles no existem ou, ento, so extremamente raros, cerca de 0,3% de todas as neoplasias supraclaviculares. Descrevem que, na verdade, eles so degeneraes csticas de metstases de tumor primrio desconhecido (3,4,5,6,7,8).

O motivo de tanta controversa ocorre devido a vrios fatores: dificuldade histolgica de se distinguir malignizao de cisto branquial de um linfonodo metasttico; as metstases linfonodais geralmente ocorrem na mesma localizao dos cistos branquiais; as metstases so muito mais freqentes que cistos branquiais e porque as metstases cervicais podem ser a primeira manifestao de um tumor do trato areodigestivo alto (3,5,6,7). Alm disso, as metstases, na maioria dos casos, no podem ser descartadas por no haver perodo adequado de seguimento do paciente (3).

MARTIN et al props quatro critrios para se caracterizar uma massa cervical como cisto branquial malignizado, porm estes tambm se aplicam em metstases csticas. So eles: 1) Deve se localizar logo a frente da borda anterior do msculo esternocleidomastideo; 2) Aparncia histolgica de que o crescimento ocorre em tecido com vestgios branquiais; 3) O paciente deve estar vivo e ter um seguimento, com exames peridicos, por, pelo menos 5 anos sem desenvolver um tumor primrio e 4) Apresentar evidncias histolgicas de que o tumor se desenvolveu na parede epitelial de um cisto lateral do pescoo (3,4).

A possibilidade de ocorrncia de metstase cstica cervical bem conhecida. Sua incidncia chega 33 a 50% quando se trata de tumores do anel de WALDEYER (3,4). Por causa disto, alguns autores sugerem amigdalectomia para auxiliar no diagnstico diferencial (3,9).

O tratamento para cisto branquial malignizado deve ser agressivo e similar ao de tumor primrio desconhecido. Procede-se com exrese da leso, caso a identifique e esvaziamento cervical em ndulos mltiplos ou maiores que 3 cm (6). recomendvel ainda o uso de radioterapia ps-operatria (3,5,7).


CONCLUSO

A grande maioria dos casos descritos de cisto branquial malignizado, na verdade, eram metstases de tumores primrios. Porm, caso no se encontre o primrio, nunca saberemos se realmente foi um cisto branquial que malignizou ou se foi uma metstase cervical corretamente tratada e erradicada, j que o diagnstico se superpe.


REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

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9. Delank KW, Feytag G, Stoll W. Clinical relevance of Lateral Branchial Cyst. Laryngorhinootologie. 1992, 71(12):611-7.

















1. Residente do 3 ano de Especializao em Otorrinolaringologia.
2. Mdico Especialista em Otorrinolaringologia.
3. Residente do 2 ano de Especializao em Otorrinolaringologia.
4. Especialista em Cirurgia Crvico-Facial e Otorrinolaringologia. Preceptor da Especializao em Otorrinolaringologia do Hospital Socor de Belo Horizonte.
5. Mestre em Patologia pela UFMG. Professor Assistente do Departamento de Anatomia Patolgica da UFMG Patologista do Instituto Roberto Alvarenga.

Instituio: Hospital Socor Belo Horizonte / MG - Brasil.

Endereo para correspondncia:
Carolina Pimenta Carvalho
Rua Augusto Moreira, 237 - Apto. 202 - Santa Amlia
Belo Horizonte / MG - Brasil - CEP: 31555-100
Fax: (+5531) 3330-3294 - E-mail: cpcarvalho8@yahoo.com.br

Artigo recebido em 18 de setembro de 2007.
Artigo aceito em 3 de julho de 2008.
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