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Ano: 2011  Vol. 15   Num. 3  - Jul/Set
DOI: 10.1590/S1809-48722011000300009
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Correlao entre perda auditiva e resultados dos questionrios Hearing Handicap Inventory for the Adults - Screening Version HHIA-S e Hearing Handicap Inventory for the Elderly - Screening Version - HHIE-S
Correlation between hearing loss and the results of the following questionnaires: Hearing Handicap Inventory for the Adults - Screening Version HHIA-S and Hearing Handicap Inventory for the Elderly - Screening Version - HHIE-S
Author(s):
Isabela Hoffmeister Menegotto1, Cristina Loureiro Chaves Soldera2, Paula Anderle3, Tanise Cristaldo Anhaia4.
Palavras-chave:
questionrios, sensibilidade e especificidade, perda auditiva, envelhecimento.
Resumo:

Introduo: Os questionrios de autoavaliao so teis para quantificar as consequncias emocionais e sociais/situacionais percebidas em funo da perda de audio, podendo ser utilizados em diversas situaes na rotina clnica, como a triagem auditiva. Objetivo: Verificar a sensibilidade e a especificidade dos questionrios HHIA-S e HHIE-S na deteco de perda auditiva e suas aplicabilidades em triagens auditivas e analisar a capacidade desses questionrios em detectar diferentes graus de comprometimento auditivo na populao estudada. Mtodo: Estudo retrospectivo, 51 indivduos, entre 18 e 88 anos, responderam aos questionrios Hearing Handicap Inventory for Adults Screening Version - HHIA-S e Hearing Handicap Inventory for the Elderly Screening Version - HHIE-S em sala de espera de um ambulatrio de otorrinolaringologia do SUS. Resultados: Os instrumentos revelaram baixa sensibilidade (47%), no identificando indivduos com perda auditiva; porm, apresentaram alta especificidade (75%), identificando, corretamente, indivduos que no apresentavam problemas de audio. Ainda, no existiu associao significativa entre o grau da perda auditiva e o grau de restrio de participao. Concluso: Os referidos questionrios apresentaram baixa sensibilidade e alta especificidade, no sendo eficazes para triagens auditivas em um grupo com queixas auditivas prvias, e tambm no foram capazes de detectar diferentes tipos e graus de comprometimento auditivo.

INTRODUO

Segundo dados da OMS, no Brasil cerca de 2.250.000 habitantes so portadores de deficincia auditiva, o que corresponderia a 1,5% da populao (1). Para atender esta populao, o Sistema nico de Sade (SUS) criou o Servio de Ateno Sade Auditiva, que compreende triagem e monitoramento da audio de neonatos, pr-escolares e escolares; diagnstico de perda auditiva de crianas a partir de trs anos de idade, de jovens e de adultos (trabalhadores e idosos), respeitando as especificidades nas avaliaes exigidas para cada um desses segmentos (2).

A perda de audio pode ser considerada uma das mais devastadoras em relao ao convvio social do indivduo. Em adultos, o impacto deste tipo de alterao auditiva pode associar-se ao declnio cognitivo, depresso e reduo do estado funcional, principalmente para aqueles que apresentam a perda, mas no foram avaliados ou tratados (3).

Sendo assim, o levantamento dos indivduos com dificuldade de audio de uma comunidade, sua localizao e o estudo de suas condies sociais so de extrema importncia para a adequao das medidas de sade pblica, nos vrios nveis de preveno (4). Para isso, tornam-se imprescindveis mtodos de triagem auditiva que tenham alta sensibilidade na deteco da perda auditiva em indivduos que nem suspeitam ter alguma dificuldade de audio, e que, por isso, no procuram atendimento.

A triagem tem por definio a aplicabilidade em uma populao numerosa, a rapidez e simplicidade na sua aplicao, e deve identificar os indivduos que tm alta probabilidade de portar um distrbio que est sendo testado (5). A triagem auditiva, por sua vez, deve ter alta sensibilidade e especificidade para identificar a presena de uma alterao auditiva quando esta alterao realmente existe, alm de ter baixo custo (6).

O teste ouro para a perda auditiva, a audiometria tonal liminar, requer pessoal treinado, cabine acstica e equipamento especfico, dificultando assim a sua execuo em larga escala. Por outro lado, o uso de questionrios, que tem alta sensibilidade na indicao da perda auditiva e so de administrao rpida e barata, pode ser uma opo vivel para triagem auditiva em grandes populaes (7).

Os questionrios de autoavaliao so teis para quantificar as consequncias emocionais e sociais/situacionais percebidas em funo da perda de audio, podendo ser utilizados em diversas situaes na rotina clnica, como triagem auditiva, entrevista inicial, aconselhamento, candidatura, avaliao do benefcio, uso e satisfao do indivduo com o aparelho de amplificao sonora e avaliao da efetividade dos programas de reabilitao audiolgica (8). So questionrios utilizados para este fim os The Abbreviated Profile of Hearin Aid Benefit - APHAB, The Nursing Home Hearing Handicap - NHHI, The Hearing Handicap Inventory for the Elderly: Screening Version - HHIE-S, The Hearing Handicap Inventory for Adults - HHIA, entre outros (9).

Especificamente entre esses questionrios, o Hearing Handicap Inventory for the Adults Screening Version - HHIA-S e o Hearing Handicap Inventory for the Elderly Screening Version - HHIE-S, que so verses reduzidas, respectivamente, do Hearing Handicap Inventory for the Adult - HHIA e do Screening Hearing Handicap Inventory for the Elderly - HHIE, tem aplicao rpida e fcil compreenso, o que favorece seu uso em indivduos idosos. Exatamente por isso, o questionrio HHIE-S recomendado pela American Speech-Language-Hearing Association (ASHA) como um instrumento para triagem auditiva (8,10).

Estudos realizados no exterior por STEWART e colaboradores, em 2002 (10), e por CHANG, HO e CHOU, em 2009 (11), pesquisaram a validade dos questionrios HHIE-S e HHIA-S em relao percepo da perda auditiva em idosos e adultos. Esses estudos demonstraram que os questionrios tm alta sensibilidade e especificidade na deteco da perda auditiva nessa populao.

No Brasil, j existem estudos (8, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18) mostrando a utilidade de questionrios de restrio de participao na identificao de indivduos com perda auditiva, e no Rio Grande do Sul, o questionrio HHIE-S foi utilizado para avaliar o impacto subjetivo de um programa de reabilitao auditiva em idosos (19). Por outro lado, existem estudos verificando a relao entre a queixa e a presena de perda auditiva em idosos (20) e mostrando o valor preditivo, sensibilidade e especificidade da indagao simples a respeito da presena de perda auditiva (21) no Estado do Rio Grande do Sul.

No primeiro estudo, os indivduos responderam a um questionrio demogrfico, no qual havia uma lista de problemas de sade que inclua a perda auditiva. Dos 50 participantes, de ambos os sexos, constatou-se que somente 12 (24%) tinham queixa especfica de perda auditiva, apesar de 33 (66%) apresentarem perdas auditivas de grau leve, moderado, severo e profundo, no evidenciando relao entre a queixa e a perda auditiva. No segundo, com amostra de 795 indivduos de ambos os sexos e todas as faixas-etrias, 525 (66%) pacientes apresentaram queixas de perda auditiva, 68 (8,6%) tiveram outras queixas auditivas e 202 (25,4%) demonstraram queixas no auditivas. Os resultados evidenciaram que a queixa de perda auditiva apresentou sensibilidade de 80,9%, especificidade de 69,6%, valor preditivo positivo de 86,5% e negativo de 60,4%.

Apesar disso, o uso de questionrios de restrio de participao mais abrangentes permite uma melhor compreenso das condies auditivas dos indivduos do que a mera indagao a respeito de sua condio auditiva, tanto em adultos como em idosos.

O presente trabalho teve, assim, o objetivo de verificar a sensibilidade e a especificidade dos questionrios HHIA-S e HHIE-S na deteco de perda auditiva e sua aplicabilidade em triagens auditivas em pacientes adultos e idosos, com base em uma amostra de indivduos atendidos pelo SUS no Servio de Audiologia do Ambulatrio de Otorrinolaringologia do Hospital Santa Clara - Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre. Alm disso, como objetivo secundrio, o presente trabalho buscou analisar a capacidade dos referidos questionrios em detectar diferentes graus de comprometimento auditivo na populao estudada.


MTODO

A execuo do trabalho foi aprovada pelo Comit de tica em Pesquisa da Irmandade da Santa Casa de Misericrdia de Porto Alegre (ISCMPA), por meio do protocolo de nmero 3292/10, de 10 de maio de 2010.

A coleta de dados foi realizada no perodo compreendido entre maio a setembro de 2010, trs vezes por semana, no turno da tarde, tratando-se de um estudo de corte transversal. A amostra de convenincia foi formada por indivduos que se encontravam aguardando para a realizao de exames audiolgicos no Ambulatrio de Otorrinolaringologia do SUS do Hospital Santa Clara - Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre.

Para compor a amostra, os participantes obedeceram aos seguintes critrios de incluso: saber ler e escrever, declarar estar apto e interessado em participar da pesquisa e ter idade superior a 18 anos. Inicialmente, os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, autorizando o uso dos dados coletados no estudo, de acordo com as normas estabelecidas pelo Comit de tica da ISCMPA. Aps a assinatura do mesmo, os indivduos com mais de 60 anos, ou seja, considerados idosos segundo o Ministrio da Sade (20), receberam o questionrio HHIE-S, e os sujeitos com menos de 60 anos, responderam ao instrumento HHIA-S.

O questionrio Hearing Handicap Inventory for the Elderly Screening Version - HHIE-S foi desenvolvido por VENTRY e WEINSTEIN (1982) e adaptado para o portugus por Wieselberg (1997), e o Hearing Handicap Inventory for Adults Screening Version - HHIA-S foi traduzido e adaptado para o portugus por Almeida (1998). Estes instrumentos so compostos por dez perguntas divididas em cinco itens relacionados escala social/situacional e outros cinco correspondentes escala emocional. Estes instrumentos so adaptaes reduzidas do Hearing Handicap Inventory for the Elderly - HHIE e do Hearing Handicap Inventory for the Adult - HHIA, sendo assim, so os nicos protocolos equivalentes para serem aplicados em diferentes populaes de acordo com a faixa etria (16). Por esse motivo, os questionrios foram agrupados para a anlise dos dados.

A tcnica selecionada para aplicao do questionrio foi a "papel-lpis", ou seja, o indivduo foi orientado a ler e responder sozinho ao questionrio. No entanto, no foi possvel utilizar este tipo de tcnica com alguns participantes da amostra, sendo ento aplicada tcnica "frente a frente", que a aplicao oral do questionrio pela entrevistadora apenas com a leitura dos itens, sem maiores explicaes ou elaboraes sobre os mesmos. Isso ocorreu por solicitao ou opo do prprio indivduo, de acordo com o que lhe era mais conveniente, no momento da aplicao, normalmente devido a dificuldades visuais ou de leitura. Os participantes que responderam aos questionrios na modalidade "papel-lpis" e na modalidade "frente a frente" foram, de incio, analisados separadamente.

A possibilidade de respostas e a pontuao das mesmas no HHIA-S so idnticas s do HHIE-S. Foi solicitado aos usurios responder "sim" (4 pontos), "s vezes" (2 pontos) ou "no" (nenhum ponto) para cada questo, de acordo com o que julgaram ser mais adequado ao seu caso ou situao. A possibilidade de escore de ambos os questionrios varia de 0 (nenhuma percepo de restrio de participao) a 40 (restrio mxima de participao). Tal como o proposto por Rosis, Souza e Irio (12), os indivduos foram agrupados em trs categorias: 0-8 pontos (sem percepo da restrio de participao); 10-23 pontos (percepo leve a moderada) e 24-40 pontos (percepo significativa da restrio de participao).

A coleta das audiometrias foi realizada por meio do preenchimento de um formulrio com os limiares das frequncias de 250, 500, 1000, 2000, 3000, 4000, 6000 e 8000 Hz para via area, e 500, 1000, 2000 e 4000 Hz para via ssea, de ambas as orelhas. O exame audiomtrico foi coletado no pronturio de cada paciente, aps ser realizado de acordo com o procedimento habitual do estgio curricular do curso de Fonoaudiologia da UFCSPA, realizado no referido Ambulatrio. Os equipamentos utilizados para realizar as audiometrias foram os audimetros Interacoustics AD 227 ou Sibelmed AC 50-D.

Quanto ao tipo de perda auditiva, foi utilizada a classificao de SILMAN e SILVERMAN (22), a qual classifica os tipos de perda auditiva em condutiva, neurossensorial e mista. Segundo o grau da perda, os indivduos foram classificados levando-se em conta a orelha de melhor audio, tal como proposto nos estudos de LIMA, AIELLO e FERRARI (23) e COSTA, SAMPAIO e OLIVEIRA (24). Utilizou-se a melhor orelha, pois a pior orelha tende a ser compensada pela funo do melhor lado na percepo subjetiva (7). Essa classificao seguiu a recomendao da BIAP (Bureau Internacional dAudio Phonologie, 1997) (22), que utiliza a mdia aritmtica das respostas nas frequncias audiomtricas de 500, 1000, 2000 e 4000Hz, e classifica os graus das perdas auditivas em: leve (de 21 a 40dBNA); moderada de grau I (de 41-55dBNA); moderada de grau II (de 56-70dBNA); severa de grau I (de 71-80dBNA); severa de grau II (de 81-90dBNA); muito severa de grau I (de 91-100dBNA); muito severa de grau II (de 101-110dBNA); muito severa de grau III (de 111-119dBNA) e perda auditiva total/cofose (a partir de 120dBNA).

A comparao dos resultados obtidos entre as duas formas de aplicao dos questionrios (papel-lpis e frente a frente) foi realizada por meio do teste T de Student. Para a verificao de associao entre as variveis utilizaram-se os testes estatsticos Qui-Quadrado e Exato de Fisher, sendo que este ltimo foi utilizado como alternativa ao Qui-Quadrado para o caso da amostra ser pequena em algumas clulas da tabela cruzada.

Para todos os testes acima citados, o nvel de significncia mximo assumido foi de 5% (p<0,05) e o software utilizado para a anlise estatstica foi o SPSS verso 10.0.


RESULTADOS

A amostra foi composta por 51 indivduos, dos quais 49% (n=25) do sexo feminino e 51% (n=26) do sexo masculino. Do total de participantes do estudo, 31,3% (n=16) estavam na faixa etria entre 18 e 39 anos, 29,4% (n=15) estavam entre 40 e 59, e 39,3% (n=20) tinham 60 anos ou mais. A idade mdia observada foi de 52 anos, com variao (desvio padro) de 16,6 anos.

Quanto aos questionrios, 60,7% (n=31) dos indivduos responderam ao HHIA-S e 39,3% (n=20) responderam ao HHIE-S. Na comparao entre os questionrios, no foi encontrada diferena estatisticamente significativa entre resultados dos mesmos (t = 0,22), mostrando que estes protocolos, mesmo em faixas etrias diferentes, podem ser aplicados com a mesma finalidade.

Com relao ao modo de aplicao dos questionrios, 55% (n=28) dos indivduos responderam no modo papel-lpis e 45% (n=23) responderam no modo frente a frente. Tambm no houve diferena estatisticamente significativa na comparao entre os modos de aplicao dos questionrios (t =0,16) de forma que os modos de aplicao foram agrupados para anlise.

No que diz respeito ao tipo da perda auditiva, conforme a classificao de SILMAN e SILVERMAN (21), 45% (n=23) da amostra apresentou perda auditiva neurossensorial, 11,7% (n=6) perda auditiva condutiva; 11,7% (n=6), perda auditiva mista, e 31,3% (n=16) apresentaram limiares auditivos normais.

Na Tabela 1, apresentada a frequncia dos diferentes graus de perda auditiva, levando-se em conta o grau da melhor orelha, ou seja, aquela que apresenta a melhor mdia audiomtrica de acordo com os padres sugeridos pela BIAP (21). Assim, foi observado que a maior parte dos indivduos apresentou audio normal (31,3%) e perda auditiva de grau leve (29,4%).

No que se refere s respostas obtidas nos questionrios, os indivduos da amostra foram classificados de acordo com a proposta de ROSIS, SOUZA e IRIO (11), sendo obtidos os seguintes resultados: 29,4% (n=15) sem restrio de participao, 29,4% (n=15) com percepo de restrio de participao de leve a moderada e 41,1% (n=21) com percepo de restrio de participao significativa.

A avaliao audiolgica convencional determinou o grau e o tipo da perda auditiva; os questionrios aplicados avaliaram o grau de restrio de participao, ou seja, as desvantagens sociais e emocionais decorrentes da deficincia auditiva na amostra estudada. A partir disso, foram investigados os resultados da aplicabilidade dos instrumentos HHIA-S e HHIE-S na deteco da perda auditiva em pacientes adultos e idosos, alm da capacidade dos mesmos em detectar diferentes tipos e graus de comprometimento auditivo.

Na Tabela 2, mostrada a associao entre o tipo de perda auditiva e o grau de restrio de participao. Observa-se, nesta Tabela, que no existiu relao significativa (p= 0,701) entre qualquer tipo de perda auditiva e a presena de qualquer grau de restrio de participao, o que mostra que estes questionrios no parecem ser instrumentos vlidos para identificar diferentes tipos de perda auditiva.

Na Tabela 3, apresentada a associao entre o grau da perda auditiva, de acordo com a classificao da BIAP (22), e o grau da restrio de participao na amostra estudada. Por meio do resultado do Teste Exato de Fisher, observa-se, mais uma vez nesta tabela, que no existe associao significativa entre o grau da perda auditiva e o grau de restrio de participao.

No Grfico 1, apontada a porcentagem de indivduos com e sem perda auditiva e com e sem percepo de restrio de participao. Neste grfico, possvel observar que 53,3% dos indivduos com problema de audio, e 46,7% dos indivduos sem problema auditivo no apresentam percepo de restrio de participao; por outro lado, 75% dos indivduos com perda auditiva, e 25% dos indivduos sem perda apresentam percepo de restrio de participao. Por meio do teste Qui-Quadrado, foi possvel observar que no existiu associao significativa entre a presena ou no de perda auditiva de qualquer grau e a presena ou no de percepo de restrio de participao (p= 0,118).

Para analisar a validade dos questionrios HHIE-S e HHIA-S quanto sensibilidade e especificidade em termos de deteco de perdas auditivas e sua aplicabilidade em triagens auditivas, foram investigados quantos indivduos eram corretamente detectados como tendo dificuldade auditiva, considerando que a preciso de um teste em identificar corretamente os pacientes positivos, ou seja, com distrbio, chamada sensibilidade e sua preciso em classificar corretamente os pacientes negativos, ou seja, sem distrbio, chamada especificidade (12).

Na amostra estudada, foi possvel observar que dos 16 sujeitos com audio normal, 9 percebiam e 7 no percebiam restrio de participao decorrente de dificuldades auditivas; e que dos 35 participantes com perda auditiva, 27 apresentavam percepo de restrio de participao e 8 no percebiam a mesma. Com isso, os instrumentos revelaram baixa sensibilidade (47%), ou seja, no identificaram indivduos com perda auditiva; porm, apresentaram alta especificidade (75%), identificando, corretamente, indivduos que no apresentavam problemas de audio.



* Classificao inexistente na proposta BIAP (1997): indica presena de audio mdia dentro da normalidade, mas presena de perda auditiva exclusiva em frequncias altas.










DISCUSSO

Os resultados obtidos no presente estudo demonstraram a presena de um nmero praticamente equivalente de mulheres e homens e um maior percentual de indivduos adultos (60,7%) do que idosos (39,3%) na amostra analisada. Cabe ressaltar que esta amostra, de convenincia, foi composta por indivduos que apresentavam queixas auditivas prvias, e que, portanto, haviam sido encaminhados para a avaliao audiolgica. Assim, pode-se supor que indivduos idosos sejam atendidos em outros centros de referncia audiolgica, que no no ambulatrio onde a pesquisa foi realizada, uma vez que esperado uma maior prevalncia de perdas auditivas na terceira idade (25).

Na comparao entre os questionrios, no houve diferena significativa entre resultados dos mesmos (t = 0,22). Esse dado era esperado, uma vez que FREITAS e COSTA (16) apontam que estes so os nicos protocolos equivalentes para serem aplicados em diferentes populaes de acordo com a faixa etria. No que tange o modo de aplicao dos referidos instrumentos, no foi evidenciada diferena entre os dois tipos de aplicao, o que era esperado, pois, em outra pesquisa recente, o mtodo de aplicao tambm no afetou o escore obtido em um questionrio de autoavaliao relacionado audio (26).

Conforme foi verificado, houve maior prevalncia de perda auditiva neurossensorial na amostra estudada. Este resultado era previsto devido ao nmero de indivduos idosos que constituram a amostra, visto que nesta populao prevalente a ocorrncia da presbiacusia (25). Esse achado tambm compatvel com o encontrado no estudo de JARDIM et al (27), que do mesmo modo verificou um predomnio deste tipo de perda em indivduos adultos e idosos atendidos no setor privado de um servio de diagnstico audiolgico brasileiro.

A frequncia dos diferentes graus de perda auditiva, apresentados na Tabela 1, apontou para um maior nmero de indivduos com audio normal, embora um nmero destes tenha perda unilateral. Pode-se notar que, quanto maior a perda auditiva apresentada, menor o nmero de pessoas; o que pode ser explicado pelas perdas progressivas, caracterizadas pela presbiacusia (25), apresentadas pelos indivduos idosos da amostra estudada.

No que diz respeito s respostas dos questionrios, a maior parte dos indivduos apresentaram restrio de participao significativa. Isso era esperado, pois a populao envolvida na amostra apresentava queixas auditivas prvias e, portanto, referia dificuldade nas atividades dirias. Outro estudo realizado em So Paulo, tambm em um ambulatrio de audiologia, encontrou resultados semelhantes nas porcentagens (12).

Na Tabela 2, no so observadas correlaes estatisticamente significativas entre qualquer tipo de perda auditiva e grau de restrio de participao. Ainda nesta Tabela, possvel observar que 23,1% e 26,1% dos indivduos com limiares auditivos normais apresentaram, respectivamente, percepo leve a moderada e percepo significativa do grau de restrio de participao. Este achado poderia ser explicado por alteraes de processamento auditivo, pois alguns pacientes que apresentam audiometria dentro dos padres de normalidade relatam queixas auditivas com relao inteligibilidade de fala, em consequncia de distrbio do processamento auditivo (DPA), o que pode exercer efeito significativo sobre autoavaliao da percepo de restrio de participao (26, 28, 29). Diante disso, foi levantada a hiptese de que estes indivduos que no tinham perda auditiva perifrica, mas que referiram alteraes nos aspectos sociais e emocionais devido s dificuldades auditivas, possivelmente, apresentassem DPA.

A Tabela 3 mostra que no houve associao significativa entre grau da perda auditiva e grau de restrio de participao (p= 0,705). Esse achado concorda com a literatura nos trabalhos desenvolvidos por ARAJO et al. (30) e ROSIS, SOUZA e IRIO (12) que, tambm, observaram ausncia entre esta relao, concluindo que a percepo do prejuzo auditivo no estava relacionada ao grau da perda auditiva.

Alm disso, os resultados mostrados na Tabela 3 indicam que indivduos com perda auditiva leve apresentaram maior grau de percepo de restrio de participao, o que revela que o grau da perda auditiva no suficiente para evidenciar restrio das atividades dirias, pois indivduos portadores de perda leve, moderada de grau I, severa de grau I e em frequncias altas podem ter diferentes graus de percepo de restrio de participao. Este resultado tambm concorda com os achados de CORREA e RUSSO (8), que verificaram, em sua pesquisa, indivduos com perda leve ou moderada com maior grau de percepo de restrio de participao do que indivduos com perdas maiores.

No Grfico 1, possvel observar que 75% dos indivduos com percepo de restrio de participao apresentaram perda auditiva, e que 53,3% dos que no referiram percepo dessa restrio tambm tinham perda de audio. Isso pode ter ocorrido pelo fato de muitos indivduos terem respondido ao questionrio de acordo com as adaptaes j realizadas nas suas atividades dirias, conforme referido pelos mesmos s pesquisadoras durante a coleta. Por exemplo, na questo 8 do instrumento HHIA-S ("Voc tem dificuldade em escutar a TV ou o rdio por causa do problema de audio?"), alguns entrevistados responderam que no tinham dificuldades, pois bastava aumentar a intensidade do som dos aparelhos.

Este estudo mostrou que no existiu associao significativa entre a presena ou no de perda auditiva de qualquer grau e a presena ou no de percepo de restrio de participao (p= 0,118). Este achado corresponde ao de outro estudo (12), no qual tambm no foi encontrada associao estatstica significativa entre o resultado encontrado na audiometria e a percepo de restrio de participao nos indivduos atendidos no Ambulatrio de Audiologia da Universidade Federal de So Paulo (UNIFESP).

No que se refere sensibilidade e especificidade do uso dos questionrios HHIA-S e HHIE-S na deteco de perda auditiva e sua aplicabilidade em triagem de adultos e idosos com problemas auditivos, o estudo apontou que estes instrumentos no parecem ser bons para detectar alteraes de audio ou para triar indivduos nos servios de audiologia, nos quais os pacientes j chegam com queixas relacionadas audio, acarretando em baixa sensibilidade (47%) e alta especificidade (75%). Esse achado concorda com outra pesquisa (12), que tambm aplicou o questionrio HHIE-S e encontrou valores baixos para sensibilidade (23%) e altos para especificidade (73,7%), em grupo atendido em servio de audiologia. Nesse mesmo estudo (12), para um grupo atendido em servio de sade no especfico para atendimento relacionado s alteraes auditivas, foram encontradas alta sensibilidade (94,7%) e especificidade (75%), mostrando que o questionrio HHIE-S pode ser vlido neste tipo de populao como instrumento de triagem. Os achados da presente pesquisa tambm encontram apoio no trabalho realizado, no exterior, por GATES et al. (31), que obteve resultados de 35% e 94 % para sensibilidade e especificidade, respectivamente, utilizando o instrumento HHIE-S em uma populao idosa.



Grfico 1. Porcentagem de indivduos com e sem percepo de restrio de participao, segundo a presena ou no de perda auditiva, na amostra estudada (Teste Qui-Quadrado; p=0,118).




CONCLUSO

Na populao estudada, os questionrios HHIA-S e HHIE-S evidenciaram baixa sensibilidade e alta especificidade, demonstrando no serem instrumentos eficazes para triar indivduos que j possuem queixas auditivas.

Ainda, na presente pesquisa, estes questionrios no se mostraram eficientes para detectar diferentes tipos e graus de comprometimento auditivo, apontando que a percepo do comprometimento da audio no est relacionada necessariamente ao tipo ou ao grau da perda auditiva.


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1) Doutora em Distrbios da Comunicao Humana pela Universidade Federal de So Paulo. Professora do Departamento de Fonoaudiologia da UFCSPA.
2) Doutoranda em Gerontologia Biomdica (PUCRS). Professora do Departamento de Fonoaudiologia da UFCSPA.
3) Especializanda em Motricidade orofacial pelo CEFAC-RS. Fonoaudiloga Clnica.
4) Mestranda do PPG em Cincias da Reabilitao da UFCSPA. Mestranda do PPG em Cincias da Reabilitao da UFCSPA.

Instituio: Universidade Federal de Cincias da Sade de Porto Alegre. Porto Alegre / RS - Brasil. Endereo para correspondncia: Tanise Cristaldo Anhaia - Rua Duque de Caxias, 203/22 - Porto Alegre / RS - Brasil - CEP: 90010-282 - Telefone: (+55 51) 9287-4589 - E-mail: tanise.anhaia@bol.com.br

Artigo recebido em 25 de Maro de 2011. Artigo aprovado em 19 de Abril de 2011.
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